André Jordan: “Se os preços continuarem assim, daqui a pouco há uma bolha no imobiliário”

Aos 84 anos, o 'pai' do turismo português olha para o país invadido por turistas com o encanto do primeiro dia: Portugal é tal e qual o mesmo, um país com um enorme potencial que ele reconheceu.

Fala português com sotaque do Brasil, apesar de ter chegado a Portugal pela primeira vez com apenas seis anos. Nasceu há 83 em Lwöw, uma cidade polaca que atualmente faz parte da Ucrânia. Depois da Polónia, Estados Unidos, Brasil e Argentina, escolheu Portugal como morada e o Algarve como casa durante décadas. E, apesar de conhecer Lisboa como a palma das suas mãos, reconhece que ultimamente, sempre que volta ao Chiado, parece conhecer sempre uma nova cidade. Como diz o empresário Andrzej Franciszek Spitzman Jordan — mais conhecido por André Jordan –, em entrevista ao ECO, “o mundo está um pouco maluco” mas Lisboa continua a ser a velha amiga a quem conhecemos todas as qualidades e defeitos.

Reconhece Lisboa e Portugal?

Eu reconheço Lisboa e Portugal porque muitas das atratividades que hoje comovem o mundo, eu fui um dos primeiros a detetar. Quando eu vim para Portugal não havia nenhum brasileiro. Hoje há famílias inteiras — Portugal está a ter uma sorte enorme porque além de estarem a emigrar os brasileiros de meios económicos interessantes para nós, como residentes e como investidores, também estão a vir pessoas que, por falarem a língua e por serem pessoas da mesma maneira de pensar ou parecida, têm uma grande afinidade com os portugueses. O Raul Solnado, que foi uma encantadora pessoa e artista, dizia: “Eu tenho uma afinidade grande com brasileiros porque a minha avó também era portuguesa”. Os brasileiros sentem-se muito bem aqui e talvez se sintam de uma maneira que não se sentem em outros países como nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França ou em Inglaterra.

É só uma questão de língua?

Não, é uma questão de cultura também. Reconheço, claro, que Lisboa está transformada para sempre. Lisboa hoje é uma cidade cosmopolita, internacional, como outras que eu conheço. Mas não estranho Lisboa como está hoje. Agora… acho graça. Em dois anos, deixou de ser uma cidade provinciana para ser uma cidade internacional de alto nível. Precisamos de ter aqui dois níveis de visitantes: de turistas e também de residentes. Temos um nível de jovens, com meios limitados, e não quero com isso ser snob. Mas o turismo é um negócio. E precisamos — já disse isto na altura da revolução, quando começaram a vir para aqui do leste. E é o que acontece na prática porque Portugal é muito mais barato. O sucesso do nosso turismo vem, em parte, do facto de grande parte da história das reportagens enfatizar muito a questão do custo.

O sucesso do nosso turismo vem, em parte, do facto de grande parte da história das reportagens enfatizar muito a questão do custo.

André Jordan

Empresário

Portugal ainda é sinónimo de férias baratas…

Sim, e isso não só atrai como também repele um cliente mais exigente.

Repele?

Sim, porque nunca está a esse nível.

E porque é que a estratégia de Lisboa não passa por isso? Por vender-se mais cara?

Duas coisas: falta estratégia e falta know how. Eu sei que tenho irritado um pouco as autoridades de turismo porque eles não percebem do que é que eu quero falar. Temos de ter uma estratégia para transformar essa onda, para fidelizá-la, para transformar esses turistas em clientela permanente e, em segundo, para fixá-la. Há um grande erro que acontece: a economia portuguesa tem sido influenciada ou dominada mesmo pelo Banco Central Europeu, e não quer influenciar o imobiliário — porque acha que o imobiliário é especulativo, porque não compreende que, para Portugal, o imobiliário e o turismo são fundamentais. Para o emprego, para o desenvolvimento, é um negócio nosso. Não é uma moda, é um negócio que temos de consolidar. E para consolidar temos de ter uma estratégia de desenvolvimento.

André Jordan nasceu na Polónia mas mudou-se para o Brasil quando ainda era criança. Daí o sotaque brasileiro que mantém até hoje.

Se não houver uma previsão de crescimento orientada por um planeamento de consenso entre o Governo, setor privado, a área do desenvolvimento sustentável, isso vai-se perder porque é aí que se cria a bolha. Então vai começar a haver pressão sobre o que há. Hoje [no dia da entrevista] estive numa reunião em que se falava num metro quadrado na zona do Príncipe Real na ordem dos 15.000 euros. Estávamos a 1/5 dos preços de Londres e Paris, e agora estamos a metade. O topo em Londres é 30, e nós já estamos em 15. Se continuar assim, daqui a pouco há uma bolha porque não há suficientemente produto para a procura.

O que nos falta então?

Temos de ter um marketing e uma promoção, temos de ter eventos ligados à cultura — não digo que sejam conferências filosóficas, mas não têm mal nenhum — mas o turista gosta da cultura sem esforço, que esteja ali disponível. E falta-nos isso.

O Web Summit…?

Não é um evento cultural, mas é um evento criado para atrair determinados segmentos, e há muitos. Mas é uma grande ideia. E os eventos, em si… A semana passada tivemos o Congresso Mundial da Diabetes. Os assistentes ocuparam todos os hotéis de Lisboa. Temos de ter eventos regulares: podemos tomar como exemplo uma cidade como Lucerna, na Suíça, de dimensão média e que tem um festival de música clássica anual. Salzburgo, por exemplo, tem dois festivais. E há pessoas que vão lá há 20, 30 anos, e pessoas que compraram casa por lá porque também ficaram a gostar do local.

Além dos eventos, há também que dar assistência aos grupos de negócios que querem transferir-se para Lisboa: há muitos. Há por exemplo um banco francês que já tem cerca de 3.000 pessoas em Lisboa e vai ter dez mil, o BNP Paribas. Temos de estar organizados para isso. E esse é o lado que me preocupa: eu não sou nada contra o ‘turismo das multidões’ porque não são verdadeiras multidões. Não chega a ser — e deu uma vida enorme a Lisboa. Eu rio porque estou neste escritório há 20 anos, mas agora o bairro está cheio de cafés e coisas especializadas em comida sofisticada. Havia os cafés habituais, todos têm os mesmos bolos.

O empresário foi o responsável pela construção da Quinta do Lago. No escritório de Lisboa, uma alga apanhada pela irmã de André Jordan, Mary, no mar da quinta, tem presença de destaque. “Tem uma história muito especial para mim: é uma alga da praia da Quinta do Lago, do mar da quinta. A minha irmã Mary que vivia no Algarve e que morreu há cinco anos, ofereceu-ma no dia do meu aniversário há cinco anos, no dia que ela morreu. É especial, não só pode ser da Quinta do Lago como ser a presença da minha irmã aqui todos os dias, trazendo a beleza e delicadeza desta peça”.

Lisboa é a mesma?

Eu digo o seguinte, porque ainda temos muita burocracia em Portugal: a cidade e os países mudam, mas os povos não mudam. O Trump representa um segmento do negócio imobiliário norte-americano que eu conheço muito bem e que é o segmento mais ordinário. O Trump não mudou: é presidente dos Estados Unidos e continua ordinário. As pessoas não mudam, a burocracia em Portugal não muda. Agora, não é admissível, não é tolerável nem inteligente que as pessoas esperem duas e três horas no aeroporto para entrarem no país. Não é compreensível. Um problema tão fácil de resolver: há guichets mas não há pessoas. Pela burocracia interna, mas isso já vem de há meses.

"As pessoas não mudam, a burocracia em Portugal não muda. Agora, não é admissível, não é tolerável nem inteligente que as pessoas esperem duas e três horas no aeroporto para entrarem no país. Não é compreensível.”

André Jordan

Há grandes investimentos em Portugal, e empresários que dizem que começam a não querer vir cá. Porque se têm de estar na fila horas, chegam atrasados a reuniões e têm de desmarcar compromissos. Não pode acontecer isso, não há necessidade de acontecer, que um problema tão simples não seja resolvido. Não é possível que um país tenha um elemento como secretário-geral das Nações Unidas e um aeroporto que não funciona: não é compatível.

Quais são os nossos principais defeitos?

Eu não quero falar de defeitos.

E as qualidades?

A maior qualidade dos portugueses é a solidariedade. Os portugueses são solidários. E não são só solidários no mal, são solidários na vida. Solidários e muito humanos. Generosos de sentimentos e de apoio, não muito em relação a dinheiro — porque, regra geral, os portugueses são forretas — mas isso é uma tradição que vem da aristocracia antiga. Porque quando acabou o ouro do Brasil, ficaram com os palácios mas não tinham dinheiro, que ficou assim uma marca de distinção… ser forreta.

Dão apoio, não deixam cair, são amigos das pessoas quando as pessoas caem mas não é chique em Portugal ser bandido. Ser desonesto, ser vigarista, não é chique. E bandidos mesmo ainda pior. Ficam queimados, têm de ter sucesso para se aguentarem porque as pessoas não toleram.

Neste momento, por exemplo, toda uma família portuguesa está a ser afetada por uma situação: tenho muita pena de alguns deles, mas a sociedade não aceita. Em Portugal as famílias recriminam o preso, não há tolerância. E isso é uma virtude tremenda porque hoje em dia os bandidos são glorificados. Aliás, também como a violência, são exceções. Eu vivi no Algarve metade da minha vida e não me lembro de situações mais desagradáveis, é muito raro. É uma gente muito boa, dedicada, fiel e solidária. E a amizade tem valor, sobretudo quando as pessoas ficam velhas — como eu — tem um valor maior. À medida que vamos chegando ao fim da vida, o dinheiro importa cada vez menos, até porque sabemos que já não vamos usá-lo.

Como é que um brasileiro se torna o pai do turismo português?

Eu disse que para ser pai, é preciso saber quem é a mãe. (risos) Fico muito lisonjeado porque ‘o pai’ quer dizer que eu criei algumas referências na restauração, no planeamento urbano, na sustentabilidade, na arquitetura, na decoração, nos sistemas de vendas. Os condomínios, as leis dos condomínios… eu introduzi em Portugal, não havia. O conceito tinha nascido com o meu pai, no Brasil. E que foi o primeiro país do mundo a ter condomínio. O nome saiu do escritório do meu pai e foi levado por ele para os EUA: a família Rockefeller, com quem ele tem ligação, convidou-o para introduzir o conceito nos Estados Unidos.

É nesse sentido que eu aceito ter sido pioneiro numa série de coisas, e de estabelecer um padrão de qualidade de que me orgulho muito. Não sei se isso quer dizer que eu sou ‘pai’ porque Portugal, em muitos cenários, é o paraíso do turismo. Quando me mudei, nenhum francês conhecia Portugal, a maior parte da elite francesa conhece muito pouco além do País Basco e da Riviera francesa. Essa elite francesa que andava sempre por aí no norte de África, descobriu Portugal. E percebeu que era civilizado. E deixam tudo o que têm lá para virem para cá. E digo: Portugal, a principal indústria portuguesa e principal componente do PIB e do emprego é o turismo e o imobiliário turístico, é a construção. A construção, bem vistas as coisas, não é especulativa nem inflacionada. A única maneira de conseguir controlar os preços é pela quantidade, mesmo na hotelaria.

Na hotelaria, por exemplo, há margem para aumentar os preços?

Só podem aumentar os preços pela procura, não se pode aumentar porque sim. Aumentaram pela procura, mas ainda não aumentaram para serem sustentáveis. Ter uma amiga que vem com o marido passar uma semana num 4 estrelas em Albufeira, com pequeno-almoço, por 100 euros por noite… não é rentável. Temos de ter atratividade para além do quarto de hotel, para além do hotel. Atividades e atrações. Neste contexto, o Algarve então é muito fraco: quando eu fui para lá não havia uma livraria — era um deserto, culturalmente. Não havia teatro, não havia cinema…

E porque é que foi para lá?

(Risos). Eu fui para lá porque o meu pai já tinha feito umas coisas no Algarve, e eu queria fazer um empreendimento — como fiz na Quinta do Lago — que fosse um country club europeu, no estilo americano, mas adaptado ao estilo europeu. E veio atender a uma procura.

Como é que surge uma ideia dessas que contamina depois os outros locais?

Podia ter contaminado mais. Mas eu até disse isso numa reunião, no anterior regime — Salazar/Caetano — no licenciamento/aprovação do programa, havia grande aspiração de devolver a autonomia às câmaras. Só que, quando isso aconteceu, as coisas não estavam preparadas. Controlar o desenvolvimento, por um lado e, por outro, não havia corrupção mas havia compadrio. Faltaram regras, faltou know how e pensar aquilo como um todo.

Vai haver lisboetas, portugueses, a viver em Lisboa daqui a uns anos?

Acho que vai haver um novo lisboeta. Por exemplo, a Universidade Nova, em Oeiras, vai atrair milhares de estudantes estrangeiros, pela sua localização e pela qualidade da universidade. Ela já está num nível de empregabilidade grande. E poder ir da universidade para a praia de Oeiras vai determinar uma transformação: muitos deles vão ficar aqui. Lisboa tem vindo a perder população há muito tempo porque não havia nada que segurasse as pessoas. E agora, com este momento e até é muito bom que haja jovens porque também temos um défice de população, talvez haja um aumento de nascimentos e de casamentos.

E esse processo vai demorar ou será uma coisa muito rápida?

Já tem mudado nos últimos dois anos. Aconteceu a uma rapidez incrível. Cada vez que vou jantar ao Chiado, está diferente. Do ponto de vista dos prédios, pertencem a fundos estrangeiros, as lojas são estrangeiras. Claro que atrai turistas, mas há uma coisa que falta muito — e que digo há muitos anos –, the best of Portugal.

O melhor de Portugal?

Há muita gente que vem a Portugal e quer comprar coisas portuguesas. Desde decoração a joias, prata portuguesa, tapeçaria, loiça, cristais. E falta um centro ‘The best of Portugal’ que concentre estas coisas porque as pessoas não as encontram. É tudo muito disperso. Precisamos de ter o que seria uma atração turística em si. Há muita coisa que podemos ter, 30 ou 40 valências num centro desses e poder ser uma atração turística em si própria. E como eu digo, não é por snobismo, não é por nada. É porque é um negócio: precisamos que seja o mais rentável possível para Portugal e para os portugueses.

Nota muita diferença na procura de investimentos no mercado português?

Noto sim, muita procura de empresas e grupos internacionais, fundos. Acho que há pouca oferta de oportunidades. Sou a favor de um ministro do Turismo que junte funções como desenvolver planos estratégicos, ouvindo os interessados e propondo um conselho consultivo para a promoção turística — porque há muita gente ex-diretores de companhias aéreas, indústria automóvel, que gostam de Portugal e gostam de turismo e que podem ajudar o país a fazer uma promoção de alto nível. Precisamos do seu know how e dos seus contactos. Até portugueses adoram turismo, pessoas que deviam estar num conselho — não executivo — para ouvir ideias, desenvolver planos e ouvir as pessoas com capital estrangeiro que queiram vir para cá.

Se viesse hoje a Portugal pela primeira vez, em que é que investia?

Eu sempre investi em imobiliário, e fiquei depois um pouco especializado, mas a forma dos empreendimentos vai mudando — hoje eu não faria uma Quinta do Lago — era dirigido ao público médio-alto e tem várias valências, apartamentos, moradias, e tem variedades de estilos, etc.. Não sei se no futuro vai haver… acho que temos de pensar se vai haver tipos de comunidades completas. Há projetos assim: já fizeram projetos para Almada, por exemplo, com espaços que têm escritórios, habitação, que tenham educação, indústria, que tenham pequenas cidades dentro. Pequenas comunidades completas para atender à procura: esses grandes fundos teriam muito interesse nisso, agora é preciso dar-lhes o apoio necessário, localmente.

Acha que criou um monstro?

Não, pelo contrário. O turismo é uma fonte de contactos, de amizades, é uma indústria da paz, da concórdia. Serve para as pessoas se conhecerem, conviverem. Acho assim. Quando a gente vive no limiar do holocausto nuclear para atender à vaidade, com líderes megalomaníacos e loucos, o turismo é tudo o contrário.

Como é que esses mundos convivem agora?

Há um grande défice de liderança, penso que vão aparecer — têm de aparecer — líderes. Há outra preocupação grande — não sei se é oportuna uma conversa destas — mas que é a alta tecnologia que vai dispensando pessoas. Cada vez mais. E todos nós conhecemos pessoas formadas, com um bom nível de formação e jovens e com famílias, e que estão desempregados de longa duração. Estão na Uber a guiar carros. E isso, com a robotização, vai-se agravando. É nisso que temos de pensar, assim como na hiper concentração de riqueza em poucas mãos, mas que também vai deixar de haver porque se desaparece emprego para metade da população deixa também de haver consumidores. E temos de saber ter o discernimento de separar o joio do trigo, no sentido da tecnologia que é útil e da tecnologia que é fútil. Essa foi boa.

Eu não estava no Facebook: entrei porque tinha umas coisas que me mandavam e que me interessavam e vi que tinha de estar inscrito para poder ver. A quantidade de asneiras que se dizem é estonteante, basicamente pouquíssima coisa se safa. O Zuckerberg vale 500 mil milhões de dólares e já quer ser presidente dos Estados Unidos. E há aquela ala mais snob que quer o George Clooney (risos). Isso é muito preocupante e sinto que o setor dos responsáveis, os pensantes, fingem que não estão a ver o problema. Há uma espécie de fuga — é tão difícil resolver isto — tão difícil encontrar a resposta… Havia uma proposta nos EUA que era a de que toda a gente tivesse um ordenado mínimo. Mas para isso é preciso gerar dinheiro. Essa tecnologia, sobretudo lúdica, se começar a haver milhões de desempregados, vai deixar de ter receita. É tudo muito complexo e, se tivesse 30 ou 40 anos a menos, ia estudar como sair dessa. Esse é o maior problema, é a pergunta para um milhão de dólares, um grande desafio.

Nessa ilha de felicidade em que estamos — em que toda a gente quer vir para cá –, Portugal é uma coisa formidável. E quando eu digo que o Governo não tem responsabilidade nisso, não quer dizer que não fez promoção. Fez. Mas não se preocupou com o planeamento, com o “como” é que isso se consolida, como se desenvolve para o futuro. E pode, de repente, evaporar, por falta de resposta.

Em abril deste ano, o grupo André Jordan anunciou que vai investir mais 100 milhões de euros no Complexo Belas Clube Campo. Era um projeto que começaria hoje?

Sei que estou a construí-lo, com uma equipa, o meu filho Gilberto que é o CEO. Passámos primeiro as dificuldades da burocracia e depois da crise, saímos como se diz no Brasil, ‘entre mortos e feridos salvaram-se todos’.

Nunca pensou em dedicar-se a outra área: por exemplo, à política?

Acho os temas muito interessantes porque estamos a entrar, sem nos darmos conta, numa era pós ideológica. A começar pelo Presidente da República.

Gosta do Presidente da República?

Imenso, acho que é uma grande prova do que eu digo dos portugueses ter um presidente como este. É um presidente que age conforme o interesse nacional e mais nada. Ele não quer saber se é de direita ou de esquerda, se favorece este ou aquele. Ele toma as decisões, ou melhor, apoia as decisões porque está no limite dos seus poderes constitucionais. Tendo tido uma formação de direita e tendo estudado Direito, constitucionalista e tudo isso, abandonou as ideologias, jogou fora. Conforme o interesse nacional. E a política toda vai por esse caminho. Seja da ascensão da Cristas ao declínio do Jerónimo de Sousa, as meninas do Bloco de Esquerda. Toda a gente está à procura de tratar os problemas do país e dos portugueses sem ideologia, sem aplicar regras ideológicas.

Politicamente sou de centro-esquerda mas sou fundamentalmente social-democrata. Devido à minha empresa e ao apoio social na medicina, na educação, na saúde, mas coisas que têm um papel importante. Não vejo nenhum conflito entre uma coisa e a política, e estou perfeitamente disposto a tirar a camisa política para jogarmos todos na mesma equipa.

Qual é o seu próximo projeto para Portugal?

Passei metade da minha vida na zona de Almancil. E então, comecei a pensar — tenho 84 anos — e há meia dúzia de anos pensei onde é que eu queria ser enterrado. Onde queria ficar. E cheguei à conclusão que era no cemitério de S. Lourenço, ao pé da igreja linda e ideal porque tem o cemitério ao lado. Tenho tantos amigos aqui, vivi tantos tempos bons aqui. A minha mãe foi cremada, achei aquilo bárbaro, uma coisa selvagem. E o meu pai está num cemitério no Rio, mas bastante árido, não tem árvores, não quero nada disso. Para resumir: para conseguir um túmulo levo quatro anos. Porque, eu digo, em Portugal, até para morrer há burocracia. Finalmente lá consegui e fiz um projeto de um jazigo, uma coisa moderna, discreta, para que eu possa ir para lá e os meus familiares também. É o meu último projeto.

Isso não é mórbido?

O meu projeto (risos) é ocupar essa casa que eu construí.

 

  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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