“Até ao final da COP26 não teremos ido rápido nem longe o suficiente para entrar no caminho certo”premium

Na opinião de Michel Frédeau, Managing Director & Senior Partner da BCG, a COP26 está a correr "melhor do que temia, pior do que esperava", diz em entrevista ao Capital Verde.

Michel Frédeau é Managing Director & Senior Partner no escritório de Paris da consultora BCG - Boston Consulting Group. Lidera a pasta da sustentabilidade e ação climática a nível global e está em Glasgow, na Escócia, pela segunda semana, a liderar a representação da empresa na Cimeira Climática das Nações Unidas

Na opinião de Frédeau, nem tudo são rosas e nem tudo são espinhos nesta COP26. Está a correr "melhor do que eu temia, e pior do que esperava", disse em entrevista ao Capital Verde. Do lado positivo, todos estão totalmente cientes da urgência da ação climática, mas ainda assim o especialista tem mesmo a certeza que "até ao final da segunda semana da COP 26 não teremos ido longe o suficiente ou rápido o suficiente para entrar no caminho certo para conseguir os 1,5 graus".

No entanto, fala de uma "mudança radical" e diz que "vamos precisar de aproveitar esse impulso".

De acordo com contas feitas pela BCG, serão necessários cerca 150 biliões de dólares de investimento global para atingirmos a neutralidade carbónica em 2050, e defende que é possível reduzir em 66% as emissões dos gases efeito de estufa utilizando tecnologia já existente.

Que avaliação faz desta COP até agora?

Melhor do que eu esperava e, um pouco pior do que eu temia. Pela sua própria natureza, uma cimeira tão grande e complexa inevitavelmente envolve compromisso, mas no geral o sentimento é positivo sobretudo sobre o reconhecimento de todos que o tempo está, de facto, a esgotar-se, de que precisamos ser mais ousados ​​e de que os governos, cientistas, ONG e empresas coletivamente entendem e estão comprometidas a tomar medidas urgentes. Enquanto temos que esperar até o final da COP26 para termos uma visão holística, acho que agora que estamos a meio do caminho já demos alguns passos significativos em frente. Os enormes compromissos financeiros para a transição para neutralidade carbónica e as promessas de travar a desflorestação não têm um impacto positivo por si só, mas sinalizam uma disposição para tomar decisões mais difíceis do que nunca.

Do lado negativo, na minha opinião, não cumprimos os compromissos que ainda precisamos para as ações no sistema de terras e alimentos, e isso tem que ser uma prioridade nesta segunda semana de negociações. Também precisamos valorizar o carbono para realmente estimular os negócios a dar prioridade à redução do carbono. Enquanto o preço do carbono não aparecer nas contas das empresas, existe a tentação de o ver como um problema comercial crítico.

As vozes dos povos indígenas cujas casas e cujas terras estão a ser destruídas pela mudanças climáticas e as vozes das pequenas nações insulares que já estão a ser afetadas pelo aumento do nível do mar já foram ouvidas em alto e bom som aqui Glasgow, na COP26, e isso foi importante e teve um impacto em todos aqueles que ouviram o seu pedido urgente de ação.

Michel Frédeau, BCG

A COP26 tem sido marcada muitas palavras e poucas ações?

Eu acho acho que certos discursos às vezes precisam ser ditos bem alto bem alto para serem ouvidos. Quantas vezes nós lemos as notícias numa página de jornas, mas elas têm mais impacto se forem contadas na primeira pessoa por quem é mais impactado. As vozes dos povos indígenas cujas casas e cujas terras estão a ser destruídas pela mudanças climáticas e as vozes das pequenas nações insulares que já estão a ser afetadas pelo aumento do nível do mar já foram ouvidas em alto e bom som aqui Glasgow, na COP26, e isso foi importante e teve um impacto em todos aqueles que ouviram o seu pedido urgente de ação.

Eu também ouvi os apelos para ações fortes e urgentes tornados mais poderosos do que nunca pelos líderes empresariais nesta COP. Se eu pensar na COP de Paris, também muitos líderes empresariais estavam a seguir de perto estas temáticas. Mas agora muitos, e espero que em breve a grande maioria, já estão na liderança. Esta semana em Glasgow eu conheci e falei com muitos CEO das maiores empresas do mundo que têm incentivado publica e privadamente os governos de vários países do mundo a agir agora, já, para enfrentar as mudanças climáticas.

No entanto, tenho certeza de que, até ao final da segunda semana da COP26, não teremos ido longe o suficiente ou rápido o suficiente para entrar no caminho certo para conseguir os 1,5 graus. Mas teremos feito uma mudança radical e vamos precisar de aproveitar esse impulso.

Que sentimento domina nos bastidores da COP26?

Eu estava a conversar com o CEO de uma fundação que investe em novas tecnologias para lidar com as alterações climáticas e eu acho que ele está certo quando diz: "Vamos sentir-nos bem quando acabar". Onde quer que eu vá na COP e com quem quer que eu fale, tenho o mesmo sentido de urgência e uma visão comum de que carregamos uma grande responsabilidade em nome de todo o mundo e das gerações futuras para dar início à transição climática. Eu penso em COP anteriores e muitos dos participantes nessa altura achavam que tinham o luxo do tempo. Mas aqui em Glasgow, ninguém com quem falo realmente acredita que podemos continuar a "chutar a lata pela estrada fora".

Onde quer que eu vá na COP e com quem quer que eu fale, tenho o mesmo sentido de urgência e uma visão comum de que carregamos uma grande responsabilidade em nome de todo o mundo e das gerações futuras para dar início à transição climática.

Michel Frédeau, BCG

Os resultados da primeira semana foram suficientes?

Não foram - mas sejamos honestos, é um começo. A COP é uma maratona de negociações, e precisamos ver uma aceleração em termos compromissos sólidos e muito mais ação na segunda semana. Para isso, precisamos de manter a pressão sobre as equipas de negociação governamentais para fazer os compromissos, às vezes dolorosos, e as mudanças no que eles acreditam ser o seu atual, talvez a curto prazo, interesse nacional. Como líderes empresariais, temos que ser muito claros com os líderes dos governos com quem conversamos, a nossa visão e o nosso desejo é levar à ação urgente necessária. E para ficar claro que a ação não é apenas racional de um ponto de vista climático ou ambiental, mas também do ponto de vista comercial e económico.

A transição para a neutralidade carbónica está a acontecer. Vai acelerar. E isso cria enormes oportunidades para os países e empresas que se movem primeiro e se adaptam rapidamente.

A BCG diz que serão necessários 150 biliões de dólares de investimento global para alcançar a neutralidade carbónica em 2050 e que é possível reduzir as emissões em 66% usando tecnologia que já existe. Como isso pode ser feito?

Calculamos que o custo de transição para as emissões zero seja entre 100 e 150 biliões de dólares. Mas, e acho que este é um ponto extremamente importante, não devemos pensar nisso como um fardo de custos. É um investimento vital. Os custos seriam muito maiores se não fizéssemos nada. Portanto, uma maneira mais precisa de ver esses 150 biliões é como uma oportunidade de investimento para nós e nosso planeta. Novas tecnologias que apoiam uma maior sustentabilidade estão a surgir ajudarão a mudar para uma forma de vida mais ecológica. Então temos de ver a oportunidade nesta nova forma de viver.

Tenho certeza que até ao final da segunda semana da COP 26 não teremos ido longe o suficiente ou rápido o suficiente para entrar no caminho certo para conseguir os 1,5 graus. Mas teremos feito uma mudança radical e vamos precisar de aproveitar esse impulso.

Michel Frédeau, BCG

O que vai fazer desta COP um sucesso ou um fracasso?

Muito simplesmente, o sucesso virá de compromissos políticos que se traduzam em ações urgentes para nos aproximar -- espero sinceramente -- de alcançar o compromisso de 1,5 graus.

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