Centeno no Banco de Portugal? “É apetecível para qualquer pessoa competente”

Ex-ministro das Finanças, Braga de Macedo considera natural que Mário Centeno tenha passado do Governo para o Banco de Portugal. "É comum em todo o mundo". Ainda assim, deixa-lhe uma farpa.

Jorge Braga de Macedo, ex-ministro das Finanças, considera natural que Mário Centeno tenha transitado do Governo para o cargo de governador do Banco de Portugal. “É comum em todo o mundo”, diz o economista em entrevista ao ECO, a propósito do livro “Por Onde vai a Banca em Portugal?”, lançado recentemente pela Fundação Francisco Manuel dos Santos e do qual é um dos autores, juntamente com Nuno Cassola e Samuel Rocha Lopes. Ainda assim, Braga de Macedo deixa-lhe uma farpa.

A crise da dívida em 2011 veio expor problemas nos bancos. Agora, com crise da pandemia, podemos estar a assistir a um dejà vu?

Pela primeira vez temos uma crise global, porque o choque é para todos. A questão do distanciamento obriga a alterar completamente todas as regras não só na vida económica, mas também na vida pessoal. Qual é o efeito que isto vai ter? Não é fácil ver como é que as diferenças vão ocorrer porque o choque é comum, depois acontece é que há uns que tratam melhor e outros pior, com a eficiência com que a sociedade alinha.

Em Portugal, nas questões económicas, a sociedade não alinha, não se importa e, portanto, estas políticas têm sido sempre de facilitismo. Aqui não: alterna entre o facilitismo e o grande dificultismo. Não vou falar agora da festa do Avante, senão estávamos já todos aqui a chorar. A verdade é que esta crise tem um efeito extraordinário porque toca na vida individual de cada um, como só os médicos conseguem fazer. O que o livro nos diz é que vamos entrar num mundo novo, que o mais íntimo de nós está posto à prova de uma maneira que vai muito para além dos bancos e da sobrevivência porque é para todos.

Uma das questões que marcará a próxima fase dos bancos é o capital ou a falta dele…

Não estamos muito pessimistas no livro. Os bancos limparam os balanços, o crédito malparado está incomparavelmente melhor do que estava. O que acontece é que o sistema não se alargou o suficiente. Há agora uma proposta que vai colocar a supervisão dos bancos, seguros e mercado de capitais juntos, o conselho nacional da supervisão financeira. Isto é muito interessante porque voltamos aos silos de que falava, mas é praticamente impossível. A maneira como o Banco de Portugal se relacionava com o Instituto dos Seguros e a CMVM é pior do que, às vezes, no Parlamento.

Mário Centeno tinha uma proposta para reformar a supervisão. Ia no bom sentido?

Estava na esperança que não falasse em alguém que passou dos dois lados de uma maneira e depois atreveu-se a fazer uma comparação com o antigo regime e com António Manuel Pinto Barbosa. De facto, é verdade que Pinto Barbosa teve um desentendimento com Salazar, ele entendeu que dez anos no Ministério chegava e, naquela altura, em meados dos anos 60, se voltasse para o ISCEF [Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras], queimavam-no vivo. Foi para o Banco de Portugal quando o banco era privado. Centeno ter usado esse exemplo e o exemplo de Beleza, que não foi contínuo, não gostei.

Quanto à proposta de supervisão apresentada aqui no livro, é uma proposta equilibrada, muito atenta aos problemas da falta da colaboração entre as várias entidades.

Da esquerda para a direita: Samuel Rocha Lopes, Nuno Cassola e Jorge Braga de Macedo.DR

A proposta de Mário Centeno também procurava isso: havia um super-regulador.

Embora dê uma certa liderança ao Banco de Portugal, depois não se percebe como a entidade vai funcionar, se vai ter um secretariado independente, se vai conseguir contratar, etc.

É fácil encontrar um comando para governador do Banco Central, presidente da CMVM e presidente dos Seguros, que se tornaram recentemente importantíssimos por causa desta pandemia? Acho que é uma excelente pergunta, gostava de ser mais contundente em relação à proposta de que me fala, mas prefiro chamar a atenção para o anexo que é uma proposta que vai mais longe e evita essa ideia de que está tudo ali, todos mandam.

Foi ministro das Finanças. Se o convidassem para ser governador do Banco de Portugal, aceitaria?

Acho que é comum. Conheço muitos governadores em todo o mundo e é completamente normal que se escolha para ministro das Finanças e para governador pessoas que saibam de teoria monetária e pessoas que tenham prática de teoria monetária ou ambas as coisas.

O peso técnico é determinante no ministro das Finanças e no governador do banco central. Tradicionalmente, os governadores têm mais prestígio, são independentes, é uma instituição já centenária. É um trabalho apetecível para qualquer pessoa que seja competente. A tese de Mário Centeno é sobre mercado de trabalho. É mau? Não. O pior, para ser muito franco, foi a sonsice dele ao dizer: “Ah, fui convidado, aceitei, não sei quê, já aconteceu com o Pinto Barbosa e com o Beleza” — ele não deu os nomes, eu é que dei agora.

Falámos já nesta entrevista naquilo que pode ser uma tentação de governos PS na relação de barganha com os bancos, e a história já mostrou que pode não ser positiva. Teme que agora o Banco de Portugal, com a ida de Centeno, possa ser capturado pelo PS?

Não quero dizer isso, porque a verdade é que o lugar faz o homem. Dizem os americanos com graça: “Where do you stand depends on where you sit”. Não me parece apropriado fazer juízos dessa natureza, não vejo absolutamente nenhuma razão.

A natureza da crítica que eu fiz foi esta: não quer dizer que seja especializado do PS, mas o PS é o partido que entende que o regime é dele, tem a narrativa de que eles é que sabem fazer e mais ninguém sabe, que eles é que têm as competências e estão próximos do povo. Isso não se aguenta. O PS tornou-se institucional demais. Centeno não tem essa formação, acho que nunca esteve na Juventude Socialista. Mas sonsices é que não.

Comecei com a pergunta “por onde vai a banca em Portugal” e termino agora: para onde vai?

Se quisesse que eu lhe dissesse agora para onde vai a banca em Portugal depende da concretização da união bancária e sobretudo da união do mercado de capitais. Cada vez mais a banca sombra, já não escondida e clandestina como foi o caso do início do século, é quem está a determinar a velocidade da banca propriamente dita.

Se não houver problemas geopolíticos ou de saúde pública muito mais graves do que se pensa agora, sabe-se para onde vai a banca em Portugal olhando para Bruxelas e Frankfurt. É bom? É mau? Tudo depende. No século XIX os bancos eram portugueses, mas era a City que determinava a política monetária.

E para onde vão os bancos portugueses?

Também dependerá da capacidade nacional em criar poupança. Nós não temos poupança. Poupança não há. Os bancos usam poupança. Os bancos são o que o país permite e a barganha depende disso. Os bancos nascem, vivem, morrem. Neste momento, o problema bancário está resolvido através da Europa. Se há capitalistas portugueses, a poupança que vão encontrá-la em algum sítio, não se pode dizer. Mas estamos num enquadramento que nos dá mais tranquilidade do que se calhar durante muito do período coberto aqui pelo livro.

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