“Há uma evolução para serviços digitais premium. Será provavelmente o caminho do MB Way”

As comissões são decididas pelos bancos, mas Madalena Cascais Tomé, CEO da SIBS, vê uma evolução nesse caminho. Em entrevista ao ECO e à TVI24 conta que o grupo desistiu do procurar novo acionista.

As comissões bancárias poderão passar a ser uma realidade para os portugueses, não só para as transações na aplicação MB Way, mas até nos levantamentos. Madalena Cascais Tomé, presidente executiva da SIBS, acredita que os serviços digitais premium são o futuro, enquanto lembrou que os portugueses são exceção na Europa no que diz respeito à isenção de comissões de levantamento. A decisão final é, no entanto, dos bancos, como lembrou em entrevista ao ECO24, em parceria entre o ECO e da TVI24.

Há uma revolução digital que está a mudar a forma como os portugueses se relacionam com o dinheiro. O que é que a SIBS pode fazer e está preparada para fazer?

Acabámos agora mesmo de entrar num novo ciclo dos pagamentos digitais em Portugal. Um pouco por toda a Europa, mas Portugal está novamente na vanguarda da evolução tecnológica. Lançámos, na semana passada, o SIBS API Market, que na prática é a primeira grande plataforma para API [interface de programação de aplicações] para serviços financeiros e de pagamentos em Portugal. Tem uma característica muito peculiar porque é a primeira na Europa que é lançada com esta configuração, que abrange e integra as 18 entidades financeiras de referência e que na prática tem uma cobertura de cerca de 95% das contas nacionais. Esta plataforma de API, o que vai permitir fazer é que as entidades financeiras — quer as tradicionais, os bancos, mas também os novos prestadores de serviços de pagamentos — possam desenvolver um sem-número de novas aplicações de serviços financeiros. Portanto, muda radicalmente o paradigma da utilização de serviços financeiros e de pagamentos.

Pode dar exemplos concretos dessa mudança?

Sim. Desde logo esta primeira vaga de API vai permitir disponibilizar serviços, quer de informação de conta, quer de pagamentos, quer de consulta de fundos. Há 35 anos, os primeiros pagamentos e os primeiros serviços financeiros eram disponibilizados nos ATM. Há quatro ou cinco anos, estávamos a disponibilizar estes serviços no mobile e nos nossos smart phones, com o MB Way. A partir de agora, estes serviços ficam abertos a qualquer entidade e prestador de serviços que queira desenvolver pagamentos no seu próprio contexto. Se pensarmos bem, todas as indústrias e setores precisam de alguma forma de pagamentos. Portanto, a criatividade é o limite.

Quando falamos de internet of things, de novos paradigmas de pagamentos, uma vending, uma revista ou um jornal poder ter uma forma de disponibilizar uma iniciação de pagamentos é algo que está ao alcance da capacidade tecnológica e da imaginação destes novos providers de pagamentos. E também das próprias instituições financeiros que, num primeiro momento, serão provavelmente aquelas que também vão poder disponibilizar melhores serviços aos seus clientes, quer por exemplo, agregando as informações de contas no seu banco principal, quer permitindo um maior número de formas de pagamento a partir dessa mesma conta.

Começou com o Multibanco, evoluiu para o MBWay e agora para este novo mercado, posicionando-se já com 18 clientes. Não é a repetição de um modelo, que de alguma forma permitiu que a SIBS se tornasse quase monopolista de mercado? É saudável para a concorrência do mercado?

Usou a palavra monopolista e a SIBS não assume de todo esse posicionamento. A SIBS é uma infraestrutura e, mais até que uma infraestrutura, é uma entidade que gere e dinamiza ecossistemas. Se pensarmos bem, desde há 35 anos, a rede Multibanco não quer de longe ser um monopólio. Os serviços que a SIBS disponibiliza, nalguns casos, servem as instituições financeiras, mas vão muito além disso. Serviço um conjunto muito vasto de entidades, desde logo empresas, os próprios retalhistas…

Mas não há ‘outra SIBS’ que possa entrar concorrer porque a SIBS tem uma posição de mercado e um ecossistema de tal forma estruturado e envolvente que é muito difícil a concorrência de terceiros…

Mas isso não é, de todo, porque a SIBS é monopolista. É porque é a única que faz o que a SIBS faz e da forma como o faz. A SIBS tem, de facto, um conjunto muito alargado de serviços e que se diferencia pela positiva dos restantes operadores europeus. É um dos operadores mais eficientes na Europa e é distinguido internacionalmente pela sua capacidade de inovação. É também esse papel preponderante que a SIBS tem na dinamização de um dos sistemas de pagamentos que é dos mais inovadores na Europa e, até diria, no mundo.

Os serviços que a SIBS presta servem não só entidades financeiras, outras empresas, as próprias instituições públicas porque a forma como temos de pagar impostos, multas, etc., é de uma conveniência absolutamente única. O nível de conveniência que os portugueses têm nos seus pagamentos — e não falo só nas compras que é provavelmente é o mais replicável, mas em todas as formas de pagamento de serviços, de faturas, de transferências entre pessoas — não encontram em mais nenhum país e isso é absolutamente único. De facto, se pensarmos que 50% das operações no Multibanco não são levantamentos — e diria que 30% são operações que servem entidades –, vemos que não se trata de um monopólio. Trata-se de uma infraestrutura partilhada e que está ao serviço de um ecossistema que vai muito além das instituições financeiras.

Neste caso mais recente do SIBS API Market, é uma plataforma que traz um conjunto muito alargado de vantagens para as instituições financeiras que tiveram de fazer estes desenvolvimentos para conseguirem fazer um compliance com a diretiva de serviços de pagamentos PSD2 e prestar esta abertura e o acesso às contas dos seus clientes de uma forma segura. Mas é uma plataforma que trará um conjunto muito alargado de vantagens às outras entidades prestadoras de serviços de pagamentos por vários motivos. Primeiro porque é a única plataforma que numa única ligação vai permitir que estes novos prestadores de serviços de pagamentos tenham acesso a 95% das contas em Portugal, o que vai permitir um nível de dinamização e desenvolvimento de serviços muito mais eficiente e acelerado que noutros mercados.

Também é muito importante reconhecer que há um conjunto alargado de startups e de fintech que desenvolveram toda a sua atividade baseada nos serviços que a SIBS disponibiliza. A SIBS tem um contributo muito importante para a economia, para a digitalização e é um exemplo na Europa.

Portanto, é a capacidade de inovação da SIBS que impede outra concorrência?

O mercado hoje em dia é europeu. Todas as diretivas e toda a evolução de regulamentação e até de enquadramento (regulatório, de concorrência e até fiscal) são para toda a Europa, no sentido de termos um mercado cada vez mais europeu. Nesse sentido, a SIBS é um operador de referência e está no top 10. Tem alguma limitação de escala pelo mercado que serve, que é o português e tem uma dimensão reduzida comparativamente com outros mercados onde operam alguns concorrentes da SIBS. Mas tem conseguido, ao longo da sua história, manter este nível de inovação e eficiência que a tornam uma referência. E nessa medida, tem conseguido entregar serviços que servem os seus clientes de forma única e distinta.

Madalena Tomé, CEO da SIBS, em entrevista ao ECO24 - 06MAR19
Madalena Tomé, CEO da SIBS, em entrevista ao ECO24Hugo Amaral/ECO

Falou de três fases de desenvolvimentos. Os multibancos, tal como os conhecemos, têm tendência a acabar? Estas novas formas de pagamento no mobile não acabarão por ser o fim das caixas multibanco?

O que temos observado é que estas novas formas de pagamento vêm acrescentar às formas de pagamento que existem. Os hábitos demoram tempo a mudar porque as pessoas selecionam a forma como se sentem mais confortáveis. E isso é uma grande conveniência que a SIBS consegue dar aos portugueses, que é conseguirem utilizar as operações que preferem, no canal e na forma que preferem. Penso que é um desígnio de todos tornar a sociedade mais cashless, mas ainda assim penso que a rede multibanco tem uma particularidade: mais de 50% das operações que são feitas não envolvem cash. Portanto, em si mesma já é uma rede que tem um conjunto de operações digitais, numa forma diferente, mas que terão sempre a conveniência de poder chegar a pessoas que talvez não tenham cobertura de internet ou acesso a um computador ou smart phone.

Dos dados que têm conseguem perceber se os portugueses têm mais dinheiro? Isso é percetível nos levantamentos?

Sim. O crescimento económico tem sido um bom indicador daquilo que são o desenvolvimento das transações. A grande tendência que se observa é que a utilização do multibanco tem crescido a um nível relativamente controlado (cerca de 1% ao ano), mas as compras e os pagamentos eletrónicos têm tido um nível de aceleração muito grande. Nos últimos dez anos, duplicaram e hoje em dia são três vezes mais do que são os levantamentos. O próprio e-commerce, partindo de uma base mais incipiente, está a crescer a um ritmo muito mais acelerado. Há uma tendência não só de crescimento, mas também de eletronização destas transações.

Os levantamentos ainda têm um peso muito grande. Qual é a média em Portugal?

Um português faz 1,7 levantamentos por semana. Em dinheiro, o levantamento médio anda à volta dos 60 euros.

Como é que veem, neste contexto, um rival como a Euronet?

Na prática, a concorrência é sempre algo positivo. No caso dos levantamentos e dos ATM, sabendo que temos uma das redes mais capilares na Europa e até das mais sofisticadas, não seria porventura o espaço de concorrência que veria como mais óbvio.

Mas é aí que, curiosamente, que apareceu um operador a tentar quota de mercado e a fazer concorrência à SIBS…

A Euronet é uma entidade que é mono-liner, portanto tem uma linha muito específica, que é o deployment de ATM, ao contrário da SIBS, que opera num conjunto muito alargado de atividades. A única preocupação do ponto de vista de evolução de sistema de pagamentos é garantir que não há um desincentivo aos pagamentos elétricos porque muitas vezes observamos que há um ATM num sítio onde o terminal de pagamentos não está a funcionar e, portanto, somos direcionados para levantar dinheiro. Isso é que pode ser um retrocesso naquilo que é o nosso sistema de pagamentos.

Em Portugal, discutiu-se a imposição de comissões aos levantamentos e acabou por nunca se aplicar devido ao contexto social e político. Esse é um tema ultrapassado?

Há uma lei que inibe a comissão de levantamentos. É uma lei que é específica do mercado português, portanto num contexto de mercado europeu, tudo o que sejam especificidades nacionais podem gerar arbitragens no funcionamento dos mercados porque os regulamentos visam aumentar a transparência dos custos para os consumidores, mas garantir que há um nivelamento dos custos no espaço europeu. Nessa medida, o próprio modelo de regulamentação num espaço que é cada vez mais global, terá que evoluir. Teremos de ter as mesmas regras, a mesma concorrência e a mesma fiscalidade num espaço que é cada vez mais única.

Evoluir para a cobrança de comissões de levantamento?

Evoluir para um nivelamento do mercado europeu e o que este permite.

Se se paga no estrangeiro, a sua avaliação é que se devia também cobrar cá?

Se os operadores — neste caso as instituições financeiras, que são as que estão inibidas de cobrar — noutros mercados podem fazê-lo (e a decisão é do mercado a funcionar), não deveria ser uma proibição, mas uma prerrogativa do mercado a funcionar.

É por isso que, com o lançamento do MBWay, surgiu recentemente uma discussão, que é uma repetição. O BPI anunciou que vai começar a cobrar e outros bancos vão seguir o mesmo caminho. Esse é um fator que poderá travar o desenvolvimento de uma ferramenta em pleno crescimento?

Não, de todo. O MBWay continuará a crescer, a evoluir, a desenvolver funcionalidades e até a estar disponível num maior número de canais (até nos canais dos bancos) para continuar a ser a wallet preferida dos portugueses e que, cada vez mais, os portugueses possam fazer os seus pagamentos, levantamentos e compras sem precisar da carteira. É um caminho natural e em que a SIBS está muito empenhada.

Mas não depende da SIBS. As instituições financeiras, ao fixarem comissões, podem desincentivar o uso do MBWay.

Desde logo é preciso que os desenvolvimentos gerem valor, conveniência, segurança e que sejam percebidos como tal. O MBWay não tem cobranças. É uma aplicação que é gratuita. As condições do MBWay num conjunto de movimentos estão, de facto, dependentes daquilo que são as condições contratuais dos bancos que prestam e disponibilizam este serviço aos seus clientes. Neste momento ainda estamos todos a sofrer por antecipação porque as comissões foram comunicadas, mas à data de hoje ainda não estão a ser cobradas. A própria forma como as comissões são comunicadas em Portugal, por serem reguladas e tabeladas, têm de ser pelo máximo. Portanto ainda não é claro como é que as comissões serão cobradas. De qualquer das formas, há 22 bancos que disponibilizam o MB Way aos seus clientes e será sempre da forma mais clara e transparente possível. Caso seja cobrado, este valor será comunicado aos clientes.

Se decidisse, optaria por haver ou não comissões?

Não me vou pronunciar sobre esse tema porque é uma prerrogativa dos bancos.

Mas a questão é garantir que o MBWay continua a desenvolver-se e a ganhar lastro…

A SIBS está sempre preocupada em desenvolver e disponibilizar os serviços com maior valor acrescentado possível. Tem feito esse caminho e dinamizado o ecossistema. Não é à toa que o MBWay se tornou a aplicação preferida dos portugueses. Acreditamos que os pagamentos eletrónicos são mais eficientes que os pagamentos em numerário. Nas transações em numerário, especialmente de montante mais baixo, há espaço de utilização dos pagamentos eletrónicos, mas a nossa missão é gerar estes serviços com a maior conveniência possível cabendo depois às entidades financeiras e aos prestadores de serviços verem qual é a melhor forma de gerar valor com estes serviços, junto dos seus clientes.

Pode-se concluir que lhe é indiferente ou não?

Na prática, o valor dos pagamentos vai muito além da transacionalidade. Hoje em dia, na maior parte dos serviços digitais, o que observamos é uma evolução para os serviços premium. Todas as outras wallets concorrentes em Portugal funcionam nessa lógica e será provavelmente o caminho normal de evolução do MB Way.

Não foi recebida nenhuma proposta satisfatória para um conjunto de condições predefinidas e nesse enquadramento os acionistas decidiram terminar o processo [de abertura do capital].

Madalena Cascais Tomé, presidente executiva da SIBS

A SIBS procura, desde há muitos meses um parceiro estratégico que possa vir a ser acionista. Já foi escolhido?

Como foi tornado público, de facto os acionistas decidiram procurar um parceiro estratégico para complementar a atividade da SIBS, até do ponto de vista de escala. Esse processo nunca foi um prazo definido e decorre nos trâmites naturais…

…e teve mais que uma fase até…

Naturalmente, sendo um processo de parceria estratégica, tem um conjunto de implicações. Foram auscultados um conjunto de entidades. O que se procurava era um parceiro estratégico de carácter industrial, portanto, alguém que tivesse um perfil semelhante à SIBS, ou seja, que fosse operador de pagamentos, com um conjunto de condições, nomeadamente que os atuais acionistas [os bancos] mantivessem posição de controlo na SIBS. Não foi recebida nenhuma proposta satisfatória para um conjunto de condições predefinidas e, nesse enquadramento, os acionistas decidiram terminar o processo.

Portanto. a SIBS deixou de procurar um novo acionista?

No enquadramento atual, sim. Dito isto, a SIBS continua a sua estratégia de crescimento.

O fim do processo de abertura de capital põe em causa ou limita o plano de crescimento ou a internacionalização?

Não, de todo. Nunca foi uma necessidade. Aliás, sempre foi dito que a SIBS iria continuar a executar a sua estratégia. Em particular, eu própria, e a comissão executiva que eu lidero, contínuo a executar a estratégia de crescimento definida não só para o triénio anterior, mas também para o próximo triénio 2018-2020 e que está a ter resultados muito positivos.

Já têm as contas de 2018 fechadas?

Ainda não estão absolutamente fechadas, mas obviamente que os resultados são bons, melhores que em 2017. Representam um crescimento em todas as linhas: nacional, internacional, novos serviços e serviços mais tradicionais… Também posso adiantar que os indicadores financeiros, sendo muito positivos, provavelmente não são o que nos move. O que nos move são os aumentos da transacionalidade que estamos a verificar. Fechámos 2018 com cerca de 3,4 biliões de transações, ou seja, mais 10% que no ano anterior. Estamos também com um crescimento muito acelerado nos mercados internacionais, nomeadamente na Polónia, onde fizemos uma aquisição recente e onde fomos já distinguidos como um dos top 3 operadores com maior crescimento no ano de 2018.

Portanto, a SIBS prefere continuar sozinha e bem do que casada e mal acompanhada?

A SIBS está muitíssimo bem acompanhada por todos os seus parceiros, clientes e por todo o ecossistema que dinamiza. A SIBS lançou, nos últimos seis meses, oito novos produtos e serviços, três novas infraestruturas — os instant payments, uma nova solução de fraude em pagamentos instantâneos e agora o SIBS API market — portanto está empenhada no mercado muito positivamente, o que é determinante para mais este ciclo de digitalização em Portugal e também nos outros mercados onde está presente.

Quanto vale uma notícia? Contribua para o jornalismo económico independente

Quanto vale uma notícia para si? E várias? O ECO foi citado em meios internacionais como o New York Times e a Reuters por causa da notícia da suspensão de António Mexia e João Manso Neto na EDP, mas também foi o ECO a revelar a demissão de Mário Centeno e o acordo entre o Governo e os privados na TAP. E foi no ECO que leu, em primeira mão, a proposta de plano de recuperação económica de António Costa Silva.

O jornalismo faz-se, em primeiro lugar, de notícias. Isso exige investimento de capital dos acionistas, investimento comercial dos anunciantes, mas também de si, caro leitor. A sua contribuição individual é relevante.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

“Há uma evolução para serviços digitais premium. Será provavelmente o caminho do MB Way”

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião