Philipp Bagus, autor do livro "Javier Milei", defende que haverá perdedores após a liberalização, mas a maioria sairá vencedora. E acredita que surgirá na Europa um líder libertário carismático.
Líder do partido La Libertad Avanza, assumido anarcocapitalista e defensor de uma “guerra cultural”, Javier Milei foi eleito Presidente da Argentina em 2023, com 56% dos votos, numa altura de grave crise económica no país. O polémico ultraliberal que ficou conhecido por ideias como o fim do peso argentino e a demolição do Banco Central, ao fim de quase dois anos no poder tem resultados para apresentar que fazem sorrir os liberais: conseguiu controlar a hiperinflação galopante que o país vivia e pôr a economia a crescer. Para isso, cortou na despesa pública e não quer abdicar do controlo das contas públicas.
Mas como é que um outsider de direita como Milei conquistou o poder? É a isso que Philipp Bagus responde. O professor catedrático de Economia na Universidad Rey Juan Carlos, em Madrid, publicou recentemente o livro “Javier Milei – A Causa da Liberdade” (Editora Leya), no qual faz uma viagem pelo passado de Milei e a revolução económica em curso na Argentina. Em entrevista ao ECO conta como a ideia do livro surgiu.
“Conheço Milei pessoalmente, pois ele é membro da Escola Austríaca de Economia. Descobri que era libertário como eu e que nos entendíamos muito bem. Mas pensei: alguém com ideias tão extremas, que diz que os impostos são um roubo e que o Estado não é a solução mas o problema, e que os políticos são parasitas, alguém que não esconde isso, mas o diz em voz alta, nunca será Presidente. Mas ele tornou-se presidente. E aí pensei que as pessoas precisam de ser mais informadas sobre isto. É como um milagre que alguém assim se torne presidente, um completo estranho com tais ideias“, explica.
Javier Milei foi eleito há quase dois anos. Como é que um outsider como o atual presidente da Argentina conseguiu essa vitória?
Foi exatamente por isso que escrevi o livro, para tornar isso compreensível. Há várias razões para Milei o ter conseguido. Uma delas, claro, é o facto de que a Argentina vivia uma hiper-inflação. O país já foi um dos mais ricos do mundo, mas o socialismo e o peronismo destruíram-no. Essa recessão acelerou nos últimos vinte anos com o Kirchnernismo, combinado com o wokeismo. O país estava realmente numa péssima situação. O próprio Milei reconheceu-o. Ele diz que, em condições normais, não se teria tornado presidente. Essa é uma questão importante. Depois ao ser considerado um outsider, as pessoas acreditaram que é confiável. As pessoas sabem que não é um político.
As pessoas estão cansadas de políticos profissionais?
Acho que isso foi muito importante porque também se liga à narrativa que Milei usa. Os verdadeiros conflitos na sociedade não são entre ricos e pobres, ou entre empreendedores e trabalhadores, ou entre brancos e negros, ou entre homens e mulheres. Não. Numa sociedade livre, todos têm os mesmos direitos. O verdadeiro conflito na sociedade é entre aqueles que enriquecem através do Estado, a classe política, ou a casta, como diz Milei, e os outros. Portanto, existem os consumidores líquidos de impostos e os contribuintes líquidos de impostos. Existe a classe política, mas também empreendedores ligados ao Estado que recebem subsídios, privilégios ou regulamentações que os favorecem. Existem os media financiados pelo Estado, que recebem fundos direta ou indiretamente. Existe o sistema de educação pública. Existem os sindicatos. Todos têm interesses comuns. E em oposição estão os interesses das pessoas comuns.

E Milei apresentou-se como uma pessoa comum.
Milei disse: “sou uma pessoa comum e irei defender-vos da classe política. Acabaremos com os privilégios e devolver-vos-emos o poder”. Nessa narrativa é muito importante que ele seja um outsider, que não faça parte do sistema. A corrupção e o nepotismo que existe em todos os países, na Argentina são ainda mais pronunciados. Mas há também outro motivo: a pandemia. Na Argentina houve uma das restrições mais severas e longas. Enquanto os argentinos comuns não podiam sair de casa, o Presidente fazia festas de aniversário. Novamente, a ideia de que a classe política tem outras regras e não se importam com as pessoas comuns. E na pandemia, Milei foi a pessoa na Argentina que mais defendeu a liberdade. Sem a pandemia talvez Milei não tivesse sido eleito.
Na pandemia, Milei foi a pessoa na Argentina que mais defendeu a liberdade. Sem a pandemia talvez Milei não tivesse sido eleito.
Há também a questão do marketing…
Claro. Há várias razões. O seu carisma, a sua retórica, o fato de ser ótimo a debater, muito rápido, muito persuasivo e muito autêntico. A sua personalidade é, claro, também muito importante. Quer dizer, agora ele é muito popular. As pessoas adoram-no. Claro que algumas não gostam dele, mas a maioria gosta dele porque é muito autêntico e age como uma estrela de rock. E esse marketing. O marketing é muito inovador, como a ideia do leão ou ele fazer vídeo sobre como o banco central é destruído.
Uma estratégia muito performativa.
Ele é um grande performer. Outra razão pela qual foi eleito é que ele travou uma guerra cultural, como a denomina, durante mais de 10 anos. Por isso, já era muito famoso antes de entrar para a política, porque tinha vários debates sobre isso em programas de televisão e na rádio. Ele mudou a mentalidade dos argentinos comuns, especialmente entre os jovens. Quer dizer, os jovens normalmente são socialistas. Recorde-se que Che Guevara nasceu na Argentina e as pessoas usavam t-shirts do Che Guevara. Agora têm t-shirts do Javier Milei ou com um leão ou “Viva la Libertad, Carajo“, frase que Milei repete frequentemente. Agora é cool os jovens serem libertários. Entre os jovens, Milei obtém a maior percentagem de votos. E estes apoiam-no, é claro, também através das redes sociais, que foram outra razão para a sua eleição. Os media tradicionais boicotaram-no, mas Milei conseguiu mobilizar o eleitorado através das redes sociais. É uma forma de se comunicar diretamente, sem filtros, com a população.
E um libertário chega ao poder. Como é que se traduz exatamente o anarcocapitalismo que Milei professa?
Há várias vertentes entre os liberais. Há os liberais clássicos, há, por exemplo, os estatistas minimalistas ou minarquistas, que também são libertários e querem restringir as funções do Estado a três áreas: segurança interna, como a polícia; segurança externa, que é o exército; e justiça, que são os tribunais. O resto, dizem, deve ser feito pelo mercado, ou seja, através do acordo voluntário entre as pessoas. Depois há os anarcocapitalistas, que dizem que mesmo esses três campos podem ser feitos muito melhor e mais justos sem o Estado. Então, Milei diz que filosoficamente é um anarcocapitalista e, na prática, é um minarquista.
Ou seja, na prática concorda que é necessária uma intervenção mínima do Estado.
Concorda, em teoria, que o Estado não pode melhorar os resultados do mercado. Ou seja, que o Estado não tem as informações para fazer as coisas melhor. Ele acredita nisso. Mas, na prática, é muito difícil executar. Se há um Estado em vigor e ele quer chegar ao Estado mínimo é um longo caminho. Ainda há educação pública, há saúde pública e não pode acabar com isso de um dia para o outro, especialmente se for um país tão pobre como a Argentina.
Portanto, é um processo de transformação muito longo. E isso é, de uma perspetiva teórica, da minha perspetiva, também uma das coisas mais fascinantes de se ver ou pensar. Tem de o fazer sem agitação social e sem stress social. Para isso, primeiro é preciso que o país cresça. Esse é passo que já foi alcançado. Com o país a crescer, a taxa de pobreza está a cair. Então, as reformas podem começar ser feitas, passo a passo, lentamente. Claro, que ele também precisa de apoio político para o fazer.
Concorda, em teoria, que o Estado não pode melhorar os resultados do mercado. Mas, na prática, é muito difícil executar. Se há um Estado em vigor e ele quer chegar ao Estado mínimo é um longo caminho.
Há então um longo caminho até o Estado mínimo na Argentina. Mas, algumas das reformas defendidas por Milei não estão a ser implementadas tão rapidamente como o esperado?
Há dificuldades em algumas. A principal dificuldade é que Milei apenas tem 15% dos delegados do Congresso.
E sofreu uma pesada derrota no Congresso no mês passado com a oposição a conseguir aprovar uma série de medidas com peso nas contas públicas. É um prenúncio de outras derrotas?
Este é um problema muito grave porque para reduzir a inflação, Milei teve que reduzir o défice orçamental, porque era financiado pela impressão de dinheiro. Então reduziu a despesa do Governo e disse, comigo, que não haveria mais défice. Isso reduziu as expectativas inflacionistas, reduziu as taxas de juros, estabilizou a taxa de câmbio. Mas agora, como disse, a oposição fez aprovar medidas. Quer acabar com o orçamento equilibrado e se o conseguirem a inflação irá subir novamente, a taxa de câmbio irá cair. O que fizeram no Congresso foi votar por um aumento nas pensões e na despesa com educação pública. Se isso avançar também iria mostrar ao resto do mundo, e especialmente aos investidores, que Milei não consegue implementar o plano de reformas que deseja e que é tão necessário.

É o maior risco político neste momento?
Esse risco político de que as reformas não sejam feitas é o maior risco neste momento e isso impede os investidores de investir. Se eu investir, por exemplo, numa nova mina serão precisos uns 10 anos até que tenha o primeiro lucro. Se as reformas não forem implementadas e os peronistas voltarem ao poder, então não irei investir. Portanto, se a oposição conseguir aumentar a despesa do Estado novamente, isso será fatídico. Fatídico especialmente para os investidores estrangeiros. É por isso que Milei vetou o aumento dessa despesa. A questão é que o veto dele pode ser derrubado por uma maioria de dois terços no Congresso e a oposição ainda a tem. O lado bom é que há eleições em outubro.
Que serão determinantes?
Como pode ver são muito, muito importantes para o futuro da Argentina, para o futuro das reformas. As sondagens mostram que Milei terá um bom resultado. Se vencer com folga estas eleições no Congresso a Argentina será uma história de crescimento e sucesso. Será incrível. A questão é que apenas metade do Congresso é eleito novamente. Mas, de qualquer forma, será muito melhor do que é agora. Acredito que a oposição não terá mais dois terços da maioria depois de outubro e isso já será um passo na direção certa.
Se a oposição conseguir aumentar a despesa do Estado novamente, isso será fatídico. Fatídico especialmente para os investidores estrangeiros.
Há mais de um ano e meio com Milei no poder, a inflação caiu e a classe alta está a gastar mais, mas também há relatos de que a classe média enfrenta dificuldades para pagar as contas básicas. Como é que olha para estas críticas?
As estatísticas mostram um quadro claro: as taxas de pobreza, que eram de 52% no primeiro semestre de 2024, caíram continuamente e estão em cerca de 34%. Então, 10 milhões ou 12 milhões de argentinos saíram da pobreza. O país ainda é pobre. As pessoas ainda enfrentam dificuldades, isso é uma realidade. Há grupos que enfrentam mais dificuldades porque Milei cortou cerca de 50.000 funcionários públicos. É claro que eles estão a enfrentar dificuldades e que precisam encontrar um novo emprego. Mas Milei também abriu gradualmente o comércio internacional. Livrou-se de impostos, taxas de importação e tarifas. Isso significa que algumas indústrias que antes eram protegidas e eram ineficientes vão encolher ou terão que fechar. Os argentinos tiveram que comprar os seus produtos a preços muito altos, agora podem comprá-los aos Estados Unidos ou à Europa mais baratos. E muitos argentinos estão felizes com isso.
Mudar a estrutura da economia tem custos sociais.
Sempre que a estrutura da economia muda e se ajusta após a liberalização haverá alguns perdedores, mas a grande maioria será vencedora. A economia está a crescer 5%, os salários reais, em média, aumentaram, as pensões subiram. Claro que há grupos em que os salários reais caíram, um desses grupos é o dos funcionários públicos. Mas isso foi o que Milei disse que faria. Portanto, sim, há pessoas que estão numa situação pior, mas a grande maioria está numa situação muito melhor. É o que os números dizem.
Sempre que a estrutura da economia muda e se ajusta após a liberalização haverá alguns perdedores, mas a grande maioria será vencedora.
E por falar em comércio. De que forma é que a proximidade de Milei com Donald Trump foi uma vantagem para a Argentina na guerra comercial dos Estados Unidos, em comparação com países vizinhos?
Na questão da guerra comercial, a Argentina está em muito boa posição por essa proximidade. A proximidade com Donald Trump já teve a vantagem de conseguir a libertação de um empréstimo muito vantajoso do Fundo Monetário Internacional (FMI). Basicamente, os Estados Unidos disseram, ou Donald Trump disse, “deem a Milei o que ele precisa”. Foi assim que funcionou.

E o que é que os outros países podem aprender com o fenómeno Milei?
Podem aprender que reduzir a despesa do Estado é uma coisa positiva ao contrário do que a maioria dos economistas keynesianos afirmam. Sobretudo quando dizem que se há uma crise os governos precisam de gastar mais. Bem, a Argentina estava com uma crise enorme e o governo gastou menos. Reduziram a despesa em cerca de 25% num ano, o que é incrível. E o que é que aconteceu?
A economia está a crescer.
A economia está a crescer. O que se pode aprender é que menos Estado, menos despesa pública, mais liberdade pela desregulação leva a maior crescimento e mais riqueza e reduz a pobreza. Isto é o que as pessoas podem aprender com o exemplo de Milei.
Quando as ideias libertárias se espalharem na Europa, como se espalharam na Argentina – e agora é muito mais fácil porque há o exemplo de Milei -, mais cedo ou mais tarde alguém carismático irá aparecer.
No seu livro refere que é necessária uma figura carismática para replicar este sucesso na Europa. Vê alguém com esse perfil?
Não estou tão familiarizado com todos a política de todos os países europeus. Estou mais familiarizado com a Alemanha e Espanha. Francamente, não vejo nenhum, mas tenho certeza de que alguns virão. Quer dizer, Milei está a ter sucesso. As pessoas olharão e dirão: “bem, também queremos isso no nosso país”. Portanto, há duas possibilidades. Uma é que os partidos existentes se movam na direção das ideias libertárias, das ideias de Milei, porque os eleitores o querem. A outra possibilidade é que surjam novos partidos, que surja um outsider como Milei. O importante é que o ambiente, por assim dizer, esteja preparado. E o ambiente são as ideias que as pessoas têm. Quando as ideias libertárias se espalharem na Europa, como se espalharam na Argentina – e agora é muito mais fácil porque há o exemplo de Milei -, mais cedo ou mais tarde alguém carismático irá aparecer, tenho a certeza.
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“Milei diz que filosoficamente é anarcocapitalista e na prática é um minarquista”
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