“No fim da pandemia, seremos mais conscientes dos impactos do nosso consumo”

Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da Associação Natureza Portugal (ANP), diz que "na luta contra as alterações climáticas, os impactes do Covid-19 podem ser positivos e negativos".

Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da Associação Natureza Portugal (ANP), que trabalha em alinhamento com o WWF – World Wide Fund For Nature, vê já impactos positivos e negativos da pandemia de Covid-19 na luta contra alterações climáticas. Os níveis de poluição estão em queda e isso pode travar muitas mortes prematuras: estima-se que anualmente, em todo o mundo, a poluição atmosférica mate prematuramente pelo menos oito milhões de pessoas.

“É esperado que o abrandamento drástico da atividade económica em todo o mundo resultante desta pandemia tenha efeitos semelhantes [na redução da poluição] noutros países”, frisa Catarina Grilo, avisando no entanto que “estes efeitos serão temporários”.

A ambientalista avisa que “a pandemia irá afetar a atividade económica como um todo, e naturalmente as energias renováveis não sairão incólumes”.

“Já se notam atrasos na entrega de painéis solares, maioritariamente produzidos na China, mas isto poderá ser positivo a médio prazo pois poderá dará um impulso para que se aposte em aumentar a capacidade de produção de painéis solares na Europa”.

Que impactos positivos e negativos da pandemia de Covid-19 podem ser identificados já no ambiente e na luta contra as alterações climáticas?

No ambiente, a redução drástica nas deslocações e na produção industrial implica necessariamente uma redução nas emissões de gases com efeito de estufa, e na poluição. A China passou por isso, estimando-se que tenha emitido 25% menos emissões nos últimos meses do que seria previsível, e há imagens de satélite da NASA que mostram essa diferença ao nível da poluição causada. Esta redução tem impactos positivos na saúde pública: estima-se que os dois meses de redução de poluição a China tenham salvo a vida a 4000 crianças com menos de 5 anos de idade e de 73 mil adultos com mais de 70 anos na China.

Na luta contra as alterações climáticas, os impactes podem ser positivos e negativos. Os negativos resultam da atenção que as pessoas naturalmente dedicam agora à epidemia, por uma questão de sobrevivência: precisam de manter o distanciamento social e a sanidade mental nestas circunstâncias extraordinárias. Os positivos, que creio que serão muito menos significativos, é que as pessoas vão ter tempo para reavaliarem os seus hábitos, e vai ser mais visível a redução de impactos que isto tem: não é difícil, pelo menos nos grandes centros urbanos, perceber já a redução da poluição e do ruído resultantes da redução da utilização dos transportes. Vai mostrar também como a nossa economia ainda está longe de manter um crescimento económico desacoplado do consumo de recursos naturais.

De repente, todas as atenções foram desviadas da temática ambiental para esta crise de saúde pública?

Sim. No entanto, não deverá ser algo duradouro: esta pandemia mostra também claramente como os impactos que temos na biodiversidade (suspeita-se que o coronavírus terá vindo dos morcegos) têm efeitos diretos na saúde humana. Ficará mais claro que as nossas sociedades têm não só que enfrentar o problema das alterações climáticas mas também o da perda de biodiversidade.

Porque é que há uma união mundial tão grande para combater o vírus mas não se passa o mesmo com a crise climática?

Há várias razões para isto: uma pandemia que ameaça visivelmente a saúde humana, que vem sobrecarregar visivelmente os sistemas de saúde, que tem este impacto fortíssimo na nossa vivência diária, nos mais pequenos gestos, alterando drasticamente as nossas rotinas, é impossível que não seja o centro das atenções, pelo menos enquanto durar. As alterações climáticas já há muito tempo que estão a ter impacto nas nossas vidas, na nossa saúde, na biodiversidade da qual dependemos para comer/vestir/etc., mas estas alterações são mais subtis e com variação menor numa escala temporal maior.

A ligação clara e muito rápida em termos temporais entre o comportamento individual (distanciamento social, medidas de higiene) e a probabilidade de contágio e até de morte, afetando-nos a nós e aos nossos, é o que faz com que haja esta reação muito rápida e coletiva à pandemia. Nas alterações climáticas, isso é menos claro e visível: a forma como nos deslocamos, alimentamos, vestimos, e consumimos de forma geral, contribuem de forma menos explícita para as alterações climáticas, que associamos frequentemente apenas a desastres naturais que acontecem mais a países em desenvolvimento, e fazem com que o sentido de urgência não seja sequer parecido. Mas as alterações climáticas estão aqui, à nossa porta, a acontecer agora.

Os impactes ambientais decorrentes da atividade económica e dos níveis de consumo não serão tão cedo iguais aos que tínhamos antes da pandemia, mas se nada fizermos depois para os reduzir, corremos o risco de voltar a níveis semelhantes de impacto ambiental.

Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da Associação Natureza Portugal (ANP)

A baixa nas emissões poluentes para a atmosfera (menos aviões, menos carros, menos fábricas) é mesmo uma realidade neste momento? Será benéfico a médio prazo ou apenas temporário?

Na China as fábricas pararam de produzir por causa do coronavírus, e as pessoas deixaram de circular reduzindo as emissões dos transportes. Um especialista calcula que as vidas poupadas pela redução na poluição (a poluição do ar mata prematuramente pelo menos 8 milhões de pessoas por ano em todo o mundo) será superior ao número de pessoas que faleceram com a Covid-19 na China até agora.

É esperado que o abrandamento drástico da atividade económica em todo o mundo resultante desta pandemia tenha efeitos semelhantes noutros países. Estes efeitos serão temporários, e poderão ser prejudiciais a longo prazo, na medida em que uma redução tão drástica na atividade económica conduz a aumento de desemprego, redução do acesso à saúde, etc., e isso irá afetar a saúde das pessoas pela negativa.

Quando os países e as economias voltarem à normalidade vão poluir ainda mais, para compensar o tempo perdido? O ambiente vai voltar a sofrer?

O tempo perdido implica assumir que, quando isto terminar, haverá pessoas/empresas/organizações com o mesmo nível de rendimento disponível que antes para comprar o que se produzia habitualmente. Isto é questionável. Há uma probabilidade elevada de um abrandamento económico, com menos produção e consequentemente menos poluição. Os impactes ambientais decorrentes da atividade económica e dos níveis de consumo não serão tão cedo iguais aos que tínhamos antes da pandemia, mas se nada fizermos depois para os reduzir, corremos o risco de voltar a níveis semelhantes de impacto ambiental. Por outro lado, este tempo de reclusão – em que de repente só devemos sair à rua para comprar alimentos e medicamentos, e para recebermos cuidados de saúde – será certamente uma excelente oportunidade de reflexão profunda sobre as nossas reais necessidades de consumo.

E precisamos de falar sobre isto: como as nossas ações individuais têm impactos significativos no ambiente, na natureza – isto é, na base biofísica que sustenta a nossa economia e a nossa sociedade. Os meios de comunicação social têm um papel importantíssimo em promover esta discussão, em dar voz a quem lida diretamente com a perda de biodiversidade e com as alterações climáticas, em dar visibilidade ao que não conseguimos ver a partir de casa e das nossas rotinas. Só assim conseguimos fomentar que as pessoas reflitam sobre isto, tirando as suas próprias conclusões. É uma excelente oportunidade para todos pensarmos sobre o nosso lugar no mundo, sobre o estado do mundo, o que gostaríamos que este fosse no futuro, e qual o nosso papel enquanto cidadãos. Seremos todos sem dúvida mais inventivos para melhor aproveitarmos o tempo com o que temos em casa, sem comprar/consumir mais. No fim da pandemia, é muito possível que sejamos todos cidadãos mais conscientes dos impactos do nosso consumo e forma de viver no ambiente, e também cidadãos mais exigentes com as empresas, o Estado e os nossos concidadãos relativamente à proteção da biodiversidade e do combate às alterações climáticas.

Pandemia pode travar expansão das renováveis?

A pandemia irá afetar a atividade económica como um todo, e naturalmente as energias renováveis não sairão incólumes, como a maior parte da economia. Já se notam atrasos na entrega de painéis solares, maioritariamente produzidos na China, mas isto poderá ser positivo a médio prazo pois poderá dará um impulso para que se aposte em aumentar a capacidade de produção de painéis solares na Europa.

No fim da pandemia, é muito possível que sejamos todos cidadãos mais conscientes dos impactos do nosso consumo e forma de viver no ambiente, e também cidadãos mais exigentes com as empresas, o Estado e os nossos concidadãos relativamente à proteção da biodiversidade e do combate às alterações climáticas.

Catarina Grilo, diretora de Conservação e Políticas da Associação Natureza Portugal (ANP)

No que diz respeito ao plástico, sobretudo de uso único, a pandemia pode aumentar o seu consumo?

É expectável que a pandemia aumente a utilização/consumo de materiais descartáveis utilizados no setor da saúde, e ainda bem – estamos todos mais seguros do ponto de vista sanitário por haver este tipo de descartáveis (máscaras, luvas, material médico em geral). Na atual situação de pandemia, o uso de descartáveis fora do setor da saúde poderá aumentar face aos receios de contágio e ao nosso atual desconhecimento sobre a sobrevivência do vírus em diferentes superfícies.

Devemos naturalmente ter vários cuidados com os materiais que levamos para a rua e depois trazemos novamente para casa (como sacos de compras reutilizáveis), seguindo as indicações das autoridades de saúde que são baseadas na melhor evidência disponível. Não será expectável que haja um aumento de talheres, copos e pratos descartáveis, pois a maior parte das pessoas estará em casa e utilizará os que tem sem problemas.

As pessoas fechadas em casa reciclam menos?

Não se sabe ainda que impacto a reclusão terá na separação do lixo em casa, mas provavelmente as pessoas que têm recolha seletiva porta-a-porta passarão a separar mais o lixo. Isto porque ao estarem fechadas em casa têm mais tempo para esta tarefa doméstica, e por puro tédio poderão passar a fazê-la. Aliás, esta época de reclusão é excelente para ganharmos novos e melhores hábitos. Quem tem de ir até ao ecoponto, provavelmente fará uma de duas coisas: os que estão ansiosos por sair de casa, poderão ver nas idas ao ecoponto uma oportunidade para ir à rua apanhar ar e desanuviar; os que preferem estar mais resguardados, provavelmente irão colocar todo o seu lixo, sem separação, no caixote do indiferenciado.

Em qualquer dos casos, é muito importante que mantenhamos, ou reforcemos, os hábitos de separação dos resíduos pois, para segurança das pessoas que trabalham na triagem do lixo indiferenciado, deixou de haver separação deste pós-recolha.

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António Costa

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