Portugal tem capacidade para atrair gigafábrica de IA? “Por que não?”

Portugal foi um dos interessados em instalar uma gigafábrica de IA. "Estou com uma expectativa grande em relação ao seu desfecho", diz António Dias Martins, da Startup Portugal.

António Dias Martins mostra-se otimista quanto à capacidade de Portugal atrair para o país uma das cinco gigafábricas de inteligência artificial (IA), nas quais Bruxelas pretende investir mais de 20 mil milhões de euros com infraestruturas dedicadas a esta tecnologia.

“Por que não?”, questiona o ainda diretor da Startp Portugal. “Não faço futurologia em relação a isso. Ainda bem que conseguimos apresentar uma candidatura. Felicito o Banco Português de Fomento por ir para frente com esse processo e ter em tempo apresentado essa candidatura. Estou com uma expectativa grande em relação ao seu desfecho”, diz.

Bruxelas recebeu mais de 70 manifestações de interesse.

Aguarda-se uma nova Agenda Nacional para IA. O que espera que traga para o ecossistema de empreendedorismo, em termos de dinamização?

O expectável é que traga apoios e oportunidades para as startups portuguesas. A inteligência artificial já não é um setor ou uma área de atividade, é transversal a todas as empresas tecnológicas e a todas as startups. Os investidores de capital de risco, de venture capital, já nem consideram investir em empresas que não têm o tema da inteligência artificial incorporado nos seus modelos de negócios e o tratam de forma séria.

E não é só da estratégia nacional, tem de ser um esforço europeu, todo um processo de facilitar a transição de um estado anterior de não utilizar a inteligência artificial em todos os processos, para um futuro em que os processos de negócio devem utilizar e beneficiar da inteligência artificial. Vai trazer novas oportunidades, novas ideias para novas empresas, vai certamente também trazer alguma simplificação, redução de tempo e até alguma obsolescência em algumas atividades de menor valor acrescentado. Portanto, o que se espera é que permita ajudar a esta transição e permita criar novas oportunidades para os empresários e para os fundadores portugueses.

Um desafio grande da Inteligência Artificial é permitir que passe a ser usada em processos cada vez mais críticos e estrategicamente relevantes e que aqueles erros que ainda vemos, passem a ser controlados e limitados, de maneira a que a inteligência artificial possa ser uma tecnologia cada vez mais utilizada em processos que, pela sua importância, têm alguma resistência a utilizá-la como nas áreas de saúde, defesa, justiça, aeronáutica, onde o erro não é tão tolerado e que, com uma evolução da inteligência artificial, a possam usar em maior escala em seu benefício e de todos os utilizadores.

Acredita na capacidade de Portugal acolher uma gigafábrica de IA? Será um dos cinco escolhidos por Bruxelas?

Por que não? Não faço futurologia em relação a isso. Ainda bem que conseguimos apresentar uma candidatura. Felicito o Banco Português de Fomento por ir para frente com esse processo e ter em tempo apresentado essa candidatura. Estou com uma expectativa grande em relação ao seu desfecho.

O projeto é um misto de financiamento público e privado. Em Portugal o financiamento privado ainda sofre um problema de escala. Haverá mesmo capacidade financeira? Ou é mais um ‘braço no ar, queremos participar’?

De facto existe esse problema de escala, mas estas estruturas, como o Banco Português de Fomento e a ligação que têm com todo o tecido do capital, seja público, seja privado, são um meio privilegiado para angariar fundos e para reunir à volta de projetos estratégicos como este todos os recursos.

Tem de haver um esforço grande, até na esfera política, no sentido a levar a que esses gestores de fundos vejam com bons olhos diversificar mais os seus investimentos e aplicarem os seus assets under management numa maior percentagem em investimentos em venture capital.

A própria Europa alerta para a necessidade de se criar condições para trazer mais capital privado para o ecossistema. Defende-se a ideia dos grandes fundos, como fundos de pensões, terem benefícios fiscais que incentivem ao investir em startups, um setor de maior risco. Em quatro anos, nada se alterou.

Esse é um ponto crítico e inclusivamente está previsto na estratégia proposta para as startups e scaleups da nova Comissária Europeia para as startups, Ekaterina Zaharieva. É um dos itens para ser resolvido não só em Portugal, mas também em toda a Europa e deve ser resolvido por duas vias. Uma regulamentar no sentido de simplificar o que há a simplificar para que estes grandes fundos de pensões sejam atraídos para investir em investidores de venture capital, não é investir diretamente em startups; e pela via não regulamentar, pela aproximação política, do convencimento, do alertar para a importância dessa prioridade para a economia do país. Fazer todo um trabalho de evangelização junto desses importantes gestores do grande capital, dos fundos de pensões, nomeadamente privados. Tentámos fazer isso através da Sim Conference, onde na última edição tivemos uma agenda e momentos específicos para investidores e os Limited Partners (LP), os tais fundos maiores.

Tem de haver um esforço grande, até na esfera política, no sentido a levar a que esses gestores de fundos vejam com bons olhos diversificar mais os seus investimentos e aplicarem os seus assets under management numa maior percentagem em investimentos em venture capital. O que se está a pedir é uma alocação dos seus ativos a venture capital até 2, 3, 4, 5% do seu portefólio. São fatias limitadas, mas que face à percentagem hoje alocada — menos de 1% ou 1% — faria uma diferença gigante para os fundos de venture capital que depois distribuem às startups os seus investimentos. É esta diferente atitude, esta abertura maior a este tipo de investimentos que queremos promover e pensamos ser estratégica. É o que existe já nos Estados Unidos, onde mais de metade dos investimentos desses fundos de pensões são alocados a venture capital e investimentos nestas classes de ativos.

A “evangelização” funciona melhor quando há um benefício evidente. É um trabalho que pode ser feito pelo Governo localmente ou…

Tem de ser por todos. A Startup Portugal faz a sua parte, mas também com apoio do Governo. Não se está aqui a pedir uma mudança radical que tenha um impacto enorme no Orçamento de Estado, longe disso. Muitas vezes é sentar com os gestores de fundos, ouvi-los, perceber as dificuldades, promover a que considerem nas suas políticas e nas suas estratégias de investimento outro tipo de realidades. É dar uma atenção diferente a esta matéria, com as diferentes associações que juntam os fundos, os gestores de fundos de pensões, trabalhar conjuntamente com eles e fazer o tal trabalho de evangelização que, só por si, tenho a certeza, traria impacto. Se em cima disso vier algum tipo de regulamentação que venha a ajudar, melhor ainda, e penso que mais rápida poderá ser essa evolução.

Depois de quatro anos de Startup Portugal, qual o próximo passo? Fundar uma startup, lançar um fundo de investimento?

Vou finalmente ter tempo para alguns projetos de investimento pessoais. Avaliarei novas alternativas, terei todo o gosto em ficar ligado a este ecossistema e ao empreendedorismo. Foi algo que me deu um prazer enorme fazer nestes quatro anos, nos quais me dediquei e quero continuar a contribuir de alguma forma, eventualmente mais indireta, para que esta dinâmica continue imparável.

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