“Se tivermos cinco prioridades, quatro são levar mais gente ao cinema”, diz diretor dos Cinemas Nos

Nuno Aguiar não quer pensar noutra coisa agora que não seja formas de atrair os portugueses de volta ao grande ecrã. Nos acredita piamente na recuperação até níveis pré-pandemia.

O diretor dos Cinemas Nos está convicto de que o negócio vai voltar aos níveis pré-pandemia, uma convicção também partilhada recentemente por Miguel Almeida, CEO da operadora. Com menos salas e pipocas um pouco mais caras (devido ao aumento dos preços do milho), a estratégia agora é atrair os portugueses de volta ao grande ecrã.

“É diferente ver cinema no cinema”, começa por justificar Nuno Aguiar, quando questionado se a Covid-19 não vai deixar uma marca permanente e negativa no setor. Se, por um lado, as restrições da pandemia estão gradualmente a acabar, por outro, é preciso “criar condições para atrair as pessoas, para voltar a estimular a que elas tenham essa experiência”, diz ao ECO, numa entrevista conjunta com a diretora da Nos Audiovisuais, Susanna Barbato.

Em 2019, a Nos vendeu quase dez milhões de bilhetes de cinema, uma parte significativa dos 15,5 milhões de bilhetes vendidos pelo conjunto do setor em Portugal nesse ano. Em 2020, com as salas encerradas a partir de março, a quebra foi de quase 90%, para 2,3 milhões. Em 2021, o negócio retomou um pouco, com a Nos a vender 3,45 milhões dos quase 5,47 milhões de bilhetes de cinema vendidos em Portugal no ano passado – ainda assim, uma quebra de 60% face ao pré-pandemia.

Nuno Aguiar acredita que são números que vão, mais cedo ou mais tarde, acabar por recuperar: “Essa é a nossa expectativa. Nós, neste momento, estamos a trabalhar para isso. Não há dúvidas de que a pandemia alterou um bocadinho os hábitos das pessoas, mas agora é preciso fazer um trabalho para voltar a chamar as pessoas para os cinemas, porque acho que as pessoas, na realidade, antes gostavam e vão voltar a gostar de ir ao cinema.”

Apesar da quebra nas vendas, a Nos tem conseguido aumentar a receita por cliente, de 5,2 euros em 2019 para 5,3 euros em 2020 e, novamente, para 5,5 euros em 2021. Segundo o responsável, é uma tendência explicada pela maior adesão às salas de exibição premium e a um aumento do consumo nos bares, entre outros fatores.

Quando o ECO o questiona se o objetivo é continuar a espremer mais receita por cliente em 2022, Nuno Aguiar remata com uma pitada de humor: “Neste momento – vou pôr as coisas assim -, se tivermos cinco prioridades, a primeira a segunda, a terceira e a quarta são levar mais gente ao cinema. Já não quero saber da estratégia, quero é que as pessoas vão ao cinema, para recuperarmos o que está para trás.”

E que quinta prioridade seria essa? Qualquer coisa como “trabalhar no sentido de as pessoas também se sentirem bem para consumir”. “Mas, neste momento, a grande prioridade é recuperar”, afirma.

Cinema de Aveiro em vias de reabrir

No final de 2019, a Nos tinha 219 salas de cinema, número que caiu para os atuais 208, ou seja, menos 11 salas a gerar receitas. Planeia fechar mais? Nem por isso, garante o responsável. Nuno Aguiar explica que a queda esteve relacionada com o fecho do cinema de Miraflores, que “era um cinema que não tinha dimensão nem rentabilidade”.

Em contrapartida, para os fãs aveirenses da sétima arte, há boas notícias na calha: “O cinema de Aveiro, no Glicínias Plaza, fechou, mas por remodelação do próprio cinema. Neste momento, estamos talvez nos três meses finais antes da reabertura. Em termos daquelas salas que se perderam, vamos recuperar sete delas agora. Por isso, ficamos praticamente iguais” em número de ecrãs, assegura.

“No futuro, o que gostaríamos é que, com a recuperação do cinema, conseguíssemos ter cada vez mais posições. Nesta fase, é uma fase em que temos de olhar para o que temos e garantir que se consegue ter contas equilibradas, e ter os cinemas a funcionar bem para atrair as pessoas. Então, aos poucos, é ir pensando nessa fase”, sinaliza o responsável, que não nega que os dois anos da pandemia foram “uma fase bastante dura para os cinemas”.

Se tivermos cinco prioridades, a primeira a segunda, a terceira e a quarta são levar mais gente ao cinema. Já não quero saber da estratégia, quero é que as pessoas vão ao cinema, para recuperarmos o que está para trás.

Nuno Aguiar

Diretor dos Cinemas Nos

As três estratégias

Durante a pandemia, grandes estúdios seguiram uma nova estratégia: em vez de lançarem os filmes em exclusivo no cinema, passaram a lançá-los no cinema e nas plataformas de streaming em simultâneo. É uma tendência que, segundo os responsáveis do ramo de cinema da Nos (exibição e distribuição), está em recuo com a chegada do novo normal.

“É natural que os estúdios [o façam], com todos os cinemas fechados, e olhando para produto que já estava pronto, a partir do momento em que não têm a janela mais importante [a do cinema]”, diz, por sua vez, Susanna Barbato, que refere que foram testados “vários modelos” pelas grandes produtoras de cinema durante a era Covid.

Daqui para a frente, Susanna Barbato vê três estratégias possíveis, que deverão coexistir: “Em grandes produções, vai ser obviamente a janela de cinema que vai ser privilegiada. Vão existir momentos que a estratégia vai ser day-and-date [lançamento simultâneo nos cinemas e no streaming]. E depois vão haver estratégias que vão ser somente direct-to-consumer [lançamento direto nas plataformas de streaming].”

Depois, há ainda o facto de as próprias plataformas já produzirem cinema. “A ‘malta’ do streaming também começou a produzir e já começou a fazer cinema. Não sabendo muito bem como é que isto vai evoluir, diria que o mais importante no cinema é que haja cada vez mais gente a produzir e que o cinema, no geral, vá crescendo. Depois, a forma de distribuir, vai chegar para todos e vai ser feita da melhor maneira”, remata Nuno Aguiar.

Para Susanna Barbato, as plataformas são mais parceiras do que adversárias – a própria Nos tem uma parceria com a Netflix, uma plataforma de streaming. E se servir de algum exemplo, não há muitos dias, uma sala de cinema da Nos reproduzia um anúncio publicitário à HBO Max, outra plataforma, antes do início da exibição de Death on the Nile, uma adaptação do conhecido livro de Agatha Christie, testemunhou este seu correspondente.

No muito curto prazo, a Nos aposta nos Óscares como forma de atrair público e gerar buzz. A cerimónia decorre na madrugada deste domingo para segunda-feira – e, pela primeira vez, regressa em formato de gala, muito semelhante ao que era antes de a Covid-19 pôr milhões de fãs de cinema em todo o mundo fechados em casa e sentados no sofá, a ver streaming na televisão e a comer pipocas feitas no micro-ondas.

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