Exclusivo “Tenho a obrigação de dar liquidez aos investidores. Se é um IPO, se é um SPAC, o futuro o dirá”, diz o CEO da Feedzai

Em entrevista ao ECO, Nuno Sebastião fala dos próximos passos da empresa no combate à fraude bancária, na produção de conhecimento puro no país e da liberdade de "cavalgar" um unicórnio.

“Como te sentes?” pergunto eu. Nuno Sebastião, cofundador e CEO da Feedzai, que hoje divulgou a mais recente ronda de financiamento em Série D de 200 milhões — que lhe confere o estatuto de unicórnio atribuído a startups avaliadas em mais de 1.000 milhões de dólares” — responde: “É porreiro!”.

Nuno confessa “cansaço” por ter estado, via Zoom, com a equipa, a celebrar as notícias que a empresa já conhecia há algum tempo mas que o mercado antecipava há anos. “Muito cansado mas, ao mesmo tempo, muito eufórico. Estou excitado, isto é espetacular. Estou muito contente”, assinala, em conversa com o ECO.

A notícia de que a Feedzai podia ser o próximo unicórnio português era antecipada há anos. Porque demorou tanto a ser verdade?

Internamente, já sabíamos há muito tempo mas havia aqui uma série de coisas: nós, muito teimosos, queríamos fazer isto a partir de Portugal, com uma equipa portuguesa. Estávamos a assinar os documentos e, do nosso lado, estávamos só ‘tugas’: nós, a equipa de legal, a equipa interna. Do outro lado, gente de São Francisco, de Nova Iorque, de Londres, e nós negociámos tudo cá. Isso dá trabalho, tentar explicar como isto funciona.

Porquê?

Primeiro, porque eles querem ir “jogar para casa”. Depois, porque temos particularidades, a nossa legislação, as nossas regras, que não é bom nem mau. Só que depois tens de estar a explicar. E do outro lado, dizem-te “mas nós não fazemos assim”. Mas aqui é assim, e isso gera alguma discussão. O facto de termos feito tudo cá, tudo com portugueses, fez alongar o processo.

Quando levantaram a ronda dos 50 milhões, mencionou a “liberdade para dizer que não”. Esta ronda-unicórnio dá ainda mais liberdade e… ainda mais responsabilidade?

Tivemos muitas ofertas nos últimos dois anos e dissemos muitas vezes que não. Repara, isto não é só a avaliação. Quando negoceias uma coisa destas, negoceias duas coisas: avaliação e controlo, e muito pouca gente consegue as duas. A maior parte das pessoas tem a avaliação mas perde controlo. Há outros que têm controlo mas uma avaliação mais baixa. Ter as duas é complicado.

Acho que o conseguimos — e isso é muito porreiro — porque não precisávamos. E quando tu não precisas, tu decides, tu controlas e podes escolher. Como não precisávamos e não estávamos pressionados, pudemos escolher os nossos termos. Nós é que fizemos a termsheet; “quer? assine por baixo”. Não é assim que acontece em geral.

Como é quando isso acontece?

Do lado de lá, há gente que está genuinamente a acreditar em ti e no projeto, e esses assinam porque apostam em ti porque, se tu achas que funciona, eles confiam. E há outros que estão a pegar na vírgula e noutros detalhes, e tu com esses não queres trabalhar porque te vão dar trabalho à frente. O que fizemos na última ronda foi esse caminho, e mais ainda agora. Nós temos hoje mais liberdade, e mais credibilidade do que tínhamos na altura. E depois temos este músculo de autoridade: a KKR é a maior a nível mundial. É porreiro, é espetacular.

"Quando negoceias uma coisa destas, negoceias duas: avaliação e controlo.”

Nuno Sebastião

CEO da Feedzai

O que se sente a “cavalgar” um unicórnio?

Isto é quase pessoal, mas vou dizer o que disse hoje cá em casa: “sinto-me com as mesmas meias” (risos). Ou seja, não muda nada. Já tive calls com o board, e a pergunta é: “o que vem a seguir?” Uma coisa destas não é um objetivo, é uma consequência. Hoje somos uma empresa grande e uma empresa forte. Agora, quem investiu em ti, investiu com a ambição de que pode ser ainda maior.

O que disse ontem à equipa foi que, agora, os investidores vêm e perguntam: “onde está o acelerador?” Porque agora é para acelerar mais. Isso é o que muda.

Primeiro, a equipa merece; é um selo, a malta estava muito contente. Depois, para o mercado e para os nossos clientes, é a validação de que fizeram a aposta certa. Espetacular. Para nós é, de certa forma, uma responsabilidade. Porque, agora, vamos manter esta empresa independente, mantê-la em Portugal. Atualmente, 32% do nosso headcount é produto e research puro. Temos pessoas em Portugal a produzir aquilo a que eu chamo “conhecimento primário”: estas são as pessoas que estão a inventar as coisas. Usando uma analogia simplista, não estamos a mandar vir as peças dos carros desenhadas noutro sítio para vir montá-los aqui porque é barato, não é isso. Nós estamos a construir tudo. E estamos a criar conhecimento: usando esta analogia bacoca, pensamos na ideia de “o que é que e como vai ser o próximo motor?” Porque é aí que está a criação de valor. E nós, com estes investimentos e com esta independência, podemos continuar a fazer essas apostas.

Continua a sentir que “ainda agora começou”?

Mais ainda. Se me perguntas, há três ou quatro anos, “chegavas aqui?”, se calhar era um sonho, era possível. Mas agora que chegámos, já só se olha para a frente. Porquê? Não é por ambição desmedida, não é isso. É porque, genuinamente, tens aqui a oportunidade de criar uma empresa independente nesta área e líder mundial. E isso é porreiro.

A palavra é mesmo essa… “porreiro”… (risos)

Tu tens quase uma obrigação, para além de te dar muito gozo pessoal, de continuar o caminho. Tens uma oportunidade que não podes deitar fora. Isto tem algum custo pessoal, de dedicação absoluta, mas se me perguntas se estou mais motivado hoje do que há dois anos… ah, de certeza! Mas mais, mesmo. E não é pelo dia de hoje, é por aquilo que o dia de hoje representa.

Nuno Sebastião, cofundador e CEO da Feedzai.DR

Unicórnio. O que vem a seguir? Entrada em bolsa?

Muita execução. Contratámos pessoas com muita experiência no último ano. Contratámos Curtis Smith como Chief Financial Officer (CFO, ex-Guidehired, empresa pública, avaliada em 10 mil milhões). Tinha uma equipa que, o que geria, era a contabilidade da empresa pública. Contratámos Varun Kohli para Chief Marketing Officer, que vem da Symantec, também com experiência pública. Contratámos uma Head of Legal, Cristina Perez, ex-Vodafone. Estás a ver o tipo de power houses que estamos a trazer para dentro da empresa.

Volto a dizer: a empresa tem de ser independente. Agora, também tenho a obrigação de dar liquidez aos meus investidores. Se é um IPO [initialpublicoffering, que denomina a entrada de uma empresa em bolsa], se é um SPAC [special purpose acquisition company, denomina uma empresa de fachada, projetada para abrir o capital sem passar pelo processo tradicional de IPO], o futuro o dirá. Agora, que é no caminho da independência — pelo menos, enquanto eu estiver não faço intenção nenhuma de vender isto –, é. Por uma razão simples: porque se tu vendes, este controlo que tens de ter desenvolvimento, pesquisa e esta criação de conhecimento em Portugal, desaparece. E tu estás a criar verdadeiramente um ecossistema. Repara: o Head of AI da OutSystems vem da escola da Feedzai. O Head of Costumer Sucess da Europa da Feedzai vem da OutSystems. Tu começas a criar este conhecimento porque tens estas empresas grandes que começam a ter pessoas com muita capacidade. E eu não quero acabar com isto, eu sei que eu não quero e que há outros que não querem. É neste caminho que eu acredito.

De onde vem esta obsessão pelo talento português?

Vem de a malta ficar chateada, porque podes, quando te dizem… tu não tens culpa do sítio onde nascente. E acho que não deves nada a ninguém, do ponto de vista puramente intelectual. Há alguma sobranceria, que é uma coisa natural, de os outros pensarem que são grandes países. E está bem, mas tu, como indivíduo, não decides o teu país porque, enquanto indivíduos, somos iguais. Na tecnologia, o talento aparece mesmo em qualquer lado, e só tens tens de conseguir empacotá-lo e capitalizá-lo. O talento é absorvido muitas vezes pelos centros de poder que já existem, e isso perpetua-se. Estamos a quebrar um bocadinho isso, não somos os únicos, mas isso é bom.

A área das criptomoedas tem tido a vossa atenção em termos futuros?

Estamos sempre a ver. O que fazemos é gerir o risco para clientes, end to end. Desde o momento em que vais abrir uma conta até ao momento em que transacionas, com o teu token. O teu token, para mim, se são bites e bytes em dólares, ou em euros, ou em moedas digitais, é mais ou menos irrelevante. Depois há umas derivadas, de como a tecnologia se aplica a uns e a outros.

As criptomoedas são exemplo claro, desta liberdade na questão da investigação primária: temos hoje gente a fazer investigação pura de como é que, no mundo de criptomoedas, se faz este tipo de coisas. Nunca ninguém fez isto, estamos a criar este conhecimento. Estamos a olhar para isso porque, se estes sistemas virão a ser sistemas de transação, eu tenho de lá estar no meio porque há risco inerente. Estamos a perceber como é que isso se faz, e eu sei que não há mais ninguém a trabalhar nisso. E termos esta liberdade permite isso mesmo: olhar para isto. Não está ainda pronto, nem vai estar tão depressa, porque o mercado não está a pedir. Mas tens de estar a fazer esse trabalho de casa, e ter o estofo para investir — que é o que este dinheiro permite –, em gente que está nos próximos dois, três anos a pensar naquilo. Que é para quando aquilo aparecer, tu estares preparado. E isso nós estamos.

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