Amorim e Azevedo? O poder agora é delas

Com um ano de idade de diferença, Cláudia Azevedo e Paula Amorim são herdeiras e, agora, gestoras à frente dos destinos de dois dos maiores grupo empresariais nacionais.

2017 foi um ano trágico para o tecido empresarial português. Dois dos nomes mais sonantes e donos de dois impérios do norte — grupos Amorim e Sonae –, faleceram. Primeiro foi Américo Amorim, depois Belmiro de Azevedo. Os dois deixam um legado inquestionável e dois grupos para gerir. E que curiosamente, a partir de 2019, serão os dois geridos por mulheres.

Paula Amorim, 47 anos de idade, e Cláudia Azevedo, 48 anos, são as duas senhoras que se seguem. Mas, se Paula Amorim foi uma escolha direta do pai Américo, o mesmo não pode dizer-se de Cláudia Azevedo. A sucessão na Sonae, processo que o próprio Belmiro de Azevedo desencadeou em 2006, levou a que os destinos do grupo com sede na Maia, ficassem nas mãos de Paulo Azevedo, o segundo dos seus três filhos. Mas a vontade de Paulo em se dedicar a outros temas, e sobretudo a morte de Belmiro, em novembro de 2017, encaminharam a Sonae para uma nova liderança, liderada pela filha mais nova do fundador.

Professores de luxo dão alunas brilhantes?

A grande dúvida, em parte já desfeita no grupo Amorim — e que agora começa a tomar forma dentro da Sonae –, é perceber se estas lideranças no feminino serão assim tão diferentes dos caminhos traçados pelos fundadores. Um dado é certo: na comparação direta com os fundadores dos grupos (pais), ambas perdem na questão da grandeza de imagem que, tanto Amorim como Belmiro souberam criar e, sobretudo, na tenacidade com que enfrentavam cada “luta”.

Belmiro de Azevedo (C), presidente do Conselho de Administração da Sonae, assiste à apresentação de resultados de 2013 acompanhado pelos filhos Claudia Azevedo (E) e Nuno Azevedo (D), no Porto, 19 de março de 2014. ESTELA SILVA / LUSA

Esta segunda geração, que todos os que rodeia consideram muito capaz e, sobretudo, muito determinada, é mais discreta do que eram os patriarcas das famílias e menos tenaz no combate público.

Mas voltemos ao futuro: irão os dois grupos mudar substancialmente agora que são liderados pelas gestoras Paula e Cláudia?

A resposta, dizem fontes próximas a ambos os grupos, está na cultura empresarial. E aqui, apesar de os dois grupos serem substancialmente diferentes, há um ponto em comum: a cultura Sonae e a cultura Amorim são muito fortes. Tão fortes que os sucessores são “obrigados” a segui-la, também porque foram educados nessa cultura.

Fontes próximas a Paula Amorim adiantam que, “em termos estratégicos, a cultura é seguida pela Paula, até porque a vida demonstrou que é uma cultura virada para o sucesso”. “Não há grandes alterações face aos tempos do Sr. Américo Amorim”, referem.

O facto de Paula ter acompanhado de muito perto o pai é outro dado a ter em conta. A tal escola de luxo. Foram mais de 25 anos ao lado do patriarca da família Amorim, que lhe deram uma ideia “alargada do negócio e, sobretudo, uma grande aceleração”.

Amigos de Paula descrevem-na como “muito perspicaz, com um grande lastro de mundialidade” e, adiantam: “Os seus conhecimentos vêm muito mais da experiência do que propriamente da vertente académica”. A primogénita de Américo Amorim frequentou o curso de Gestão Imobiliária da Escola Superior de Atividades Imobiliárias (ESAI).

Paula Amorim, reconhecidamente mais diplomata do que o pai, tem-se revelado — diz com quem ela trabalha — “muito competente”. Na Galp, empresa em que o grupo Amorim detém 33,34% do capital através da Amorim Energia e onde Paula exerce o cargo de “chairwoman“, o seu trabalho é reconhecido e valorizado. Paula, também aí, segue o exemplo do pai e acompanha as reuniões da comissão executiva.

Desde que entrou nos negócios do pai, em 1992, é presidente do grupo Américo Amorim, que agrega diferentes participações financeiras e outro património da família. Preside ainda à Amorim Investimentos e Participações que detém a Corticeira Amorim, empresa que é liderada por António Rios Amorim, seu primo. A estes negócios, a filha de Américo Amorim junta ainda a liderança na Amorim Luxury, que detém o restaurante JNcQUOI, a loja Fashion Clinic, através da qual trouxe também a representação da marca Gucci para Portugal. É nesta área do luxo que a gestora foi marcando o seu território fora da alçada do pai.

E na Sonae, como será o futuro com a CEO Cláudia?

A resposta é ainda uma incógnita para todos, uma vez que a filha de Belmiro só irá assumir funções no próximo mandato, depois da assembleia geral que deverá acontecer entre abril e maio de 2019.

Fontes próximas aos Azevedo garantem que Cláudia foi educada nos princípios homem Sonae. “Por isso, a linha estratégica deverá ser muito semelhante àquela que o grupo tem seguido”. A este facto, acrescentam as mesmas fontes, há ainda um outro não menos importante: apesar de Paulo e Cláudia terem perfis muito diferentes, o professor dos dois filhos foi o mesmo. E, por isso, não são de esperar grandes mudanças dentro do grupo Sonae. Ou pelo menos, nada que não estivesse já pensado.

Aliás, a própria Cláudia, no dia em que foi tornada pública a sua nomeação para o cargo, evoca os valores Sonae: “A nova responsabilidade é aceite com a convicção de quem olha para o futuro e tem a confiança de ter nos valores Sonae a determinação e otimismo necessários para enfrentar os desafios que seguramente surgirão”, afirmava a nova líder da Sonae.

Até porque Cláudia sucede a Paulo e Ângelo Paupério, que repartiam a presidência executiva do grupo, e ambos continuam “por lá”. O mesmo é dizer que assumem relevância dentro da holding familiar, a Efanor que, por sua vez, é acionista maioritária da Sonae — que Cláudia irá gerir. E isso, garantem as mesmas fontes, só por si é sinal de continuidade.

"A nova responsabilidade é aceite com a convicção de quem olha para o futuro e tem a confiança de ter nos valores Sonae a determinação e otimismo necessários para enfrentar os desafios que seguramente surgirão.”

Cláudia Azevedo

No dia em que foi conhecido que será a próxima CEO da Sonae

Paulo de Azevedo, que anunciou a sua saída da primeira linha da Sonae, vai ficar na holding familiar, a Efanor, para onde chamou Ângelo Paupério e Carlos Moreira da Silva, ex-quadro da Sonae. Os dois gestores, apesar de não pertencerem à família, são muito próximos dos Azevedo. Paulo fica, a partir de agora, dedicado ao que mais gosta: as questões estratégicas.

Altos quadros do grupo veem nesta sucessão “um sinal de estabilidade e de fomentação dos valores do grupo. Numa altura em que se perdeu o fundador, isto é muito importante”.

Cláudia, é a filha mais nova de Belmiro de Azevedo mas é, também, a mais parecida com o pai. De Belmiro herdou alguma teimosia e intuição, características que lhe trouxeram também rapidez nas decisões. Quem a conhece há muitos anos diz ainda que a persistência é outra das suas marcas. Mas o caminho de Cláudia dentro da Sonae é já longo. A gestora entrou na Sonae aos 24 anos como gestora de produto do Banco Universo, depois de se ter licenciado em Gestão, na Universidade Católica do Porto. Daí, transitou para a Optimus, tendo começado pela área do marketing até chegar a administradora do braço de telecomunicações do grupo de Belmiro. É, aliás, como administradora da Sonaecom que Cláudia toma contacto com o jornal Público, e mais tarde, já depois da criação da Nos, passa a administradora da operadora liderada por Miguel Almeida. E é também durante os anos da Optimus que ruma ao INSEAD, para tirar um MBA.

A gestora seguiu a célebre “carreira em ziguezague”, tão do agrado de Belmiro. E foi nesse caminho que chegou à liderança da Sonae Capital, empresa que agrega negócios do turismo e lazer, sucedendo ao pai.

Ainda do currículo de Cláudia de Azevedo faz parte a presidência da Sonae IM, empresa que se tem destacado no investimento em tecnológicas. Foi, de resto, a presidência executiva destas empresas que Cláudia abandonou para se dedicar por inteiro ao novo desafio. Cláudia tem agora de construir a sua equipa algo que, asseguram fontes da Sonae, “não está ainda feito”. Até agora, a comissão executiva da Sonae era constituída apenas por dois elementos — Paulo Azevedo e Ângelo Paupério –, que assumiam o cargo de co-CEO da empresa. Por isso, por enquanto mantém-se em aberto o modelo que irá seguir a nova presidente. Irá Cláudia alargar essa comissão executiva?

De resto, os pilares da Sonae assentes na internacionalização e na criação de novos negócios têm na nova líder uma defensora exímia, tanto mais que passou os últimos anos a viajar à procura de startups, o que pode ser um trunfo a seu favor nos próximos tempos.

Cláudia e Paula gerem milhões

Paula Amorim e Carlos Gomes da Silva.

As duas gestoras/herdeiras dos impérios Sonae e Amorim têm a seu cargo empresas que movimentam milhões. Olhando apenas para as empresas do PSI-20 em que ambas vão ter responsabilidades, Cláudia como CEO da Sonae e Paula como chairman da Galp, percebe-se a influência.

Cláudia Azevedo vai ter responsabilidades numa empresa que, em 2017, faturou perto de seis mil milhões de euros e que emprega 45 mil trabalhadores em áreas tão diversas como telecomunicações, centros comerciais, retalho alimentar e não alimentar.

Já a Galp, empresa onde Paula Amorim é chairwoman, fechou o ano de 2017, com um volume de negócios de 15,2 mil milhões de euros e lucros de 602 milhões.

De resto, ambas fazem parte de duas das famílias mais ricas de Portugal, título que, este ano, segundo a revista Forbes, volta a pertencer à família Amorim (a viúva de Amorim e às três filhas Paula, Marta e Luísa), com uma fortuna avaliada em 4.112 milhões de euros.

Avessas à exposição pública, contam-se pelos dedos de uma mão as entrevistas que concedem. Uma aversão que não é, contudo, extensível ao risco empresarial, que assumem com prazer, da qual a tentativa de Paula Amorim comprar a Comporta é um bom exemplo.

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António Costa

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