Imóveis, certificados e obrigações do Benfica. Onde investem os administradores do Banco de Portugal?

Carlos Costa duplicou o seu património desde que está no Banco de Portugal. Vice-governadora Elisa Ferreira é quem mais investe no imobiliário. Administrador Luís Laginha de Sousa prefere a bolsa.

Não é só Carlos Costa que aposta no imobiliário, como o fez com a compra da Herdade do Cortiço, em Montemor-o-Novo, adquirida a Armando Vara, em 2007. Os outros administradores do Banco de Portugal também têm diversos investimentos em imóveis, incluindo lojas, parques de estacionamento e até uma exploração agrícola. Mas há também quem aposte em produtos financeiros, desde os tradicionais PPR aos populares Certificados do Tesouro Poupança Mais, até aplicações de maior risco, seja em ações na bolsa ou na dívida de empresas, como do Benfica.

As informações relativas ao património e rendimentos constam das declarações que os elementos do conselho de administração do Banco de Portugal entregaram no Tribunal Constitucional aquando do início de funções, isto por força da lei que obriga os gestores públicos a divulgarem a sua “fortuna”. O ECO consultou-as.

No caso de Carlos Costa, o atual governador do Banco de Portugal já entregou por duas vezes: uma vez quando iniciou funções em junho de 2010 e, depois, quando lhe renovaram o mandato em julho de 2015.

Durante este período, o património (imóveis e aplicações financeiras) declarado por Carlos Costa duplicou de valor: passou dos 573,7 mil euros para os 1,03 milhões de euros. A Herdade do Cortiço já constava da declaração entregue em 2010, onde surgia avaliada para efeitos fiscais em 43,543 mil euros. Na última declaração, encontrava-se avaliada em 44,523 mil euros, correspondendo a uma valorização de 2,25% em cinco anos. Este monte situado na localidade alentejana de Nossa Senhora do Bispo foi adquirido em 2007 a Armando Vara por cerca de 250 mil euros, segundo o Correio da Manhã. Em entrevista à SIC, Carlos Costa disse que pagou 10 mil euros a mais do que aquilo que estava anunciado na promotora imobiliária.

Do património do atual governador constavam em 2015 mais cinco imóveis, o mais valioso deles localizado no Parque das Nações, em Lisboa, avaliado em 337 mil euros. Também tem imóveis na Foz do Porto, na Apúlia (Esposende) e Quarteira (Loulé).

Após a publicação do artigo, Carlos Costa esclareceu ao ECO que o seu património imobiliário “se manteve inalterado entre 2010 e 2019” e que “o que variou foi a avaliação tributária (no seguimento da revisão dos valores para efeitos fiscais)”. Esta informação não se encontrava na declaração de rendimentos que o governador entregou no Tribunal Constitucional.

No que toca a investimentos financeiros, Carlos Costa sempre apresentou um perfil bastante conservador. Em 2010, estavam aplicados pouco mais de 53 mil euros em vários planos poupança reforma. Desfez-se dos PPR entretanto, mas manteve um estratégia defensiva: em 2015, tinha dois depósitos a prazo na Caixa Geral de Depósitos (um com 140 mil euros e outro 100 mil euros, este último era a mulher titular) e ainda seguros de capitalização no BCP com 28 mil euros investidos.

A valorização da fortuna de Carlos Costa acompanhou o aumento de rendimentos. De acordo com a declaração entregue no Tribunal Constitucional em 2010, apresentou rendimentos de trabalho independente (foi vice-presidente do Banco Europeu de Investimento entre 2006 e maio de 2010) 43 mil euros e ainda rendimentos de rendas de imóveis no valor de 19 mil euros. Em 2015, devido às funções de governador, declarou um rendimento de mais de 220 mil euros, ao qual acrescem 21 mil euros de rendas de imóveis.

Carlos Costa tinha quatro automóveis em 2015, um Saab, um Audi A8 (no seu nome) e dois Mercedes (um ML e um SLK), ambos no nome da mulher, Maria da Silva Costa.

Em 2015, o governador do Banco de Portugal tinha ainda por pagar dois empréstimos contraídos junto da Caixa Geral de Depósitos, faltando liquidar 20,8 mil euros num financiamento até setembro de 2018 e 115 mil euros no outro até julho de 2024.


Administração do Banco de Portugal: Hélder Rosalino, Luís Laginha de Sousa, Elisa Ferreira, Carlos Costa, Luís Máximo dos Santos e Ana Paula Serra.
Fotomontagem Lídia Leão

Elisa Ferreira, a rainha do imobiliário

Também Elisa Ferreira, nomeada vice-administradora do Banco de Portugal em junho de 2016, tem um vasto património imobiliário. Declarou na altura 28 imóveis, entre habitações, garagens, lojas, armazéns e até uma propriedade agrícola, espalhados por Lisboa, Porto, Santo Tirso, Vila do Conde e Bruxelas. Na capital belga, a antiga eurodeputada revelou que tinha um apartamento situado na Rua Godecharle, no bairro de Ixelles.

No total, o ativo imobiliário de Elisa Ferreira estava declarado com uma avaliação superior a um milhão de euros (excluindo o apartamento em Bruxelas).

Vários destes imóveis estavam arrendados, o que lhe permitiu extrair rendimentos de rendas de quase 50 mil euros, segundo a declaração que entregou ao Tribunal Constitucional. Por outro lado, os rendimentos agrícolas ascenderam a 36,6 mil euros. No total, os rendimentos de Elisa Ferreira foram de 180 mil euros.

A vice-governadora tinha ainda 15 mil ações da Sonae, que estão avaliadas em cerca de 14,5 mil euros à cotação atual. E uma conta à ordem no Bankinter com cerca de 40 mil euros.

Em relação ao parque automóvel, há um trator Deutz com reboque, uma carrinha Toyota, um Audi A2 e ainda um Mercedes C220 CDI.

O outro vice-governador do Banco de Portugal, Luís Máximo dos Santos, declarou em setembro de 2017 quatro imóveis, situados em Lisboa, Odivelas e Coruche (2). Revelou ainda uma quota de 250 euros correspondentes a 5% do capital social da sociedade comercial Finestudos – Marketing, Gestão e Contas.

Sem automóveis ou contas bancárias declaradas, Máximo dos Santos tinha aplicados cerca de 10 mil euros em seguros de capitalização e 20 mil euros em CTPM. Declarou ainda rendimentos de 252,8 mil euros, a maioria deles relacionados com o facto de ter desempenhado funções de administrador no supervisor antes da promoção a vice-governador.

Do lado das dívidas, declarou duas hipotecas em favor do Banco de Portugal no valor global de 120 mil euros a vencer em 2030 e ainda um débito ao BCP de 47,6 mil euros a vencer em 2023.

Laginha de Sousa aposta na bolsa

Luís Laginha de Sousa, administrador desde setembro de 2017, é adepto de motas e tem uma boa parte do seu património investido na bolsa. O antigo presidente da Euronext Lisbon investiu em ações do próprio grupo que gere a bolsa de Lisboa, mas também tinha ações da EDP e da REN. Ainda assim, apesar do perfil de investidor mais arriscado, Laginha de Sousa segue à risca a máxima de não colocar os ovos todos no mesmo cesto. Isto é, diversificou as suas aplicações financeiras de 900 mil euros entre obrigações de empresas (Caixa Geral de Depósitos e da SAD do Benfica), dívida do Estado (CTPM e Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável), sete fundos de investimento e vários PPR.

Também tem dois imóveis em Setúbal, embora não tenha declarado o valor patrimonial deles.

Por outro lado, conta ainda com pequenas participações sociais em duas incubadoras de startups, na BAUC – Business Angels Universidade Católica e na Startup Braga.

Face à sua elevada exposição à bolsa, Laginha de Sousa declarou rendimentos de capitais no valor de 125 mil euros e ainda que tinha tido mais-valias de 165 mil euros e outros rendimentos de 186 mil euros, sem especificar de onde vieram estes rendimentos. O antigo CEO da bolsa nacional declarou ainda rendimentos de trabalho dependente no valor de 361 mil euros.

Tinha cerca de 40 mil euros depositados à ordem em duas contas (Santander Totta e CGD). De resto, tinha por pagar um empréstimo de 408 mil euros ao Santander Totta até 2040.

Na sua garagem, Laginha de Sousa declarou ainda três motociclos (AJP PR4 125cc, BMW K1600GTL Exclusive e uma Yamaha 50cc) e ainda um automóvel da marca Volkswagen Golf 1.4 TSI. É um apaixonado pelo mundo das motos: chegou a ser vogal da direção da BMW Motoclube Portugal.

Em relação à administradora Ana Paula Serra, que entrou juntamente com Laginha de Sousa há cerca de dois anos no Banco de Portugal, estavam aplicados 935 mil euros em vários instrumentos financeiros: 1.000 ações da Pharol, 30 mil euros de CTPM, 200 mil euros em obrigações do banco público, a CGD, um depósito a prazo com 200 mil euros, PPR no valor de 76,8 mil euros e aplicações de capitalização no valor de 428 mil euros.

A responsável declarou ainda um património imobiliário no valor de 400 mil euros, relativos a cinco imóveis: três no Porto, um em Caminha e outro em Âncora. Dois imóveis na cidade portuense eram detidos a meias com o irmão, Luís Carlos Serra.

Em termos de rendimentos, Ana Paula Serra declarou ganhos de trabalho dependente e independente de quase 68 mil euros. Não tinha qualquer dívida à banca.

Por fim, o administrador Hélder Rosalino, o segundo elemento mais antigo da atual administração do Banco de Portugal (atrás de Carlos Costa), declarou em 2014 seis imóveis — localizados em Sintra, Ericeira e Cortegaça (ao lado de Esmoriz) — mas sem indicar o seu valor patrimonial.

Adotava uma estratégia relativamente conservadora: 73,3 mil euros estavam aplicados em três fundos de investimento, um PPR e dois depósitos à ordem.

O antigo secretário de Estado da Administração Pública do Governo de Passos Coelho — em fim de mandato no Banco de Portugal — tinha um BMW 318D e declarou aquando do início de funções há cinco anos rendimentos de trabalho dependente de 72,6 mil euros.

Tinha ainda dois empréstimos para compra de habitação própria a abater junto do Banco de Portugal, no valor de 113 mil euros. Um dos empréstimos terá ficado saldado no ano passado, mas o outro só vencerá em 2032.

(Notícia atualizada às 10h07 para incluir esclarecimento do governador do Banco de Portugal, justificando que o património imobiliário se manteve entre 2010 e 2019, apesar da valorização dos imóveis que se deve à avaliação tributária)

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