Em setembro, vai a julgamento enfrentar um processo movido pela dupla musical Anjos e poderá ganhar mais um troféu como personalidade do ano. Não gosta dos holofotes, mas as luzes perseguem-na.
A estrela da sátira nacional, que não gosta de café, apesar de só dormir cerca de cinco a seis horas, nem de copos ou sair à noite e que foge dos holofotes como o diabo da cruz, está hoje na mira de todas as luzes. Setembro será um mês cheio. Vai a julgamento, num processo cível que a dupla musical Anjos lhe moveu, exigindo 1,2 milhões de euros de indemnização, por ter ironizado com uma versão do hino nacional, e poderá ganhar mais um globo de ouro.
Nomeada para personalidade do ano em humor e personalidade do ano em entretenimento digital, a gala da SIC está marcada para 28 de setembro. O que a poderá condenar na barra do tribunal valer-lhe-á mais um troféu? E as duas vezes que viu todos os episódios do programa “Juiz Decide” servirá agora de arma de defesa na cadeira de réu? Se não for isso, pode sempre usar os pontapés que manda contra objetos quando o FC Porto perde.
Portista ferrenha, “fanática” mesmo, como se autodescreve, diz, no entanto, que é sobretudo “anti-benfiquista”. E tudo começou para arreliar o irmão, Vasco Baptista Marques — crítico de cinema do jornal Expresso —, que é do Benfica.
Gostava que o dia tivesse 48 horas para poder ver e ouvir tudo e, a par disso, estar a 100% com os filhos, Xavier e Nicolau, de 8 e 5 anos, respetivamente. O santo graal que era a TV, nos tempos idos em que só tinha quatro canais, alargou-se a todos os meios de comunicação social, incluindo o digital, fonte para os programas de “Extremamente Desagradável”, da Rádio Renascença, e conteúdo para o “Isto é Gozar com Quem Trabalha!”, apresentado por Ricardo Araújo Pereira.
Não gosta de ser o centro das atenções, mas a verdade é que começou a dizer piadas muito acutilantes e cirúrgicas ainda na adolescência porque sabia-lhe bem a popularidade e a pertença a um grupo. O maior medo que tem, além de animais e de doenças — assume-se hipocondríaca — é que os filhos não se sintam bem com eles próprios.
Conta uma vez que, em criança, quando partilhava a carteira de turma com Mariana Cabral, conhecida do público como a Bumba na Fofinha, as duas amigas decidiram fazer uma lista com todos os palavrões de que se lembravam. Queria fazer circular pelos colegas, mas a folha foi parar às mãos da professora e levaram um grande sermão. “Chorei muito nessa altura, mas foi completamente inventado para conseguir que a professora não chamasse os pais à escola e, felizmente essa lista nunca chegou a ver a luz do dia”, relata no programa Alta Definição da SIC.
Por ser muito reservada, tem “fascínio” pelo lado oposto: “Há um tipo de pessoa que me atrai muito, são pessoas muito convencidas, egocêntricas, às vezes muito autoconfiantes, se calhar é por serem uma bocado diferentes de mim, dizem coisas delas próprias que me causam vergonha. Tenho inveja mas torna-se muito divertido ver pessoas que falam de si como se não tivessem defeitos. É um misto de vergonha alheia e inveja”.

No panorama mediático português, poucas figuras conseguiram, nos últimos anos, transformar o humor em ferramenta de análise social com a mesma eficácia que Joana Marques. Nascida em Lisboa em 1984, a comunicadora cresceu num ambiente onde a curiosidade e a observação do quotidiano moldaram desde cedo a sua visão crítica. Licenciou-se em Ciências da Comunicação, profissão pela qual enveredou inicialmente, mas cedo percebeu que a seriedade estrita do jornalismo não seria o seu único destino. A capacidade de rir do que os outros dizem — e sobretudo da forma como dizem — acabou por levá-la a um lugar que é hoje incontornável: o da humorista-cronista que se tornou fenómeno cultural.
Foi na rádio Renascença, com a rubrica diária “Extremamente Desagradável”, que Joana Marques consolidou o seu nome. A fórmula parecia simples: ouvir declarações de figuras públicas, celebridades ou políticos e comentá-las com ironia. Mas a execução revelou-se brilhante. O que poderia ter sido apenas “gargalhada fácil” tornou-se num exercício de precisão cómica e jornalística.
Há um tipo de pessoa que me atrai muito, são pessoas muito convencidas, egocêntricas, às vezes muito autoconfiantes, se calhar é por serem uma bocado diferentes de mim. É um misto de vergonha alheia e inveja.
O programa, que nasceu em 2018, rapidamente ultrapassou o espaço da rádio. Tornou-se viral nas redes sociais, partilhada em pequenos excertos de áudio ou vídeo, e acabou por conquistar públicos muito além do habitual espectro da estação. Era o humor a ganhar estatuto de crónica diária da vida mediática portuguesa.
Ao contrário de outros humoristas que recorrem à caricatura ou ao exagero físico, Joana Marques opera no território da ironia subtil. A sua arma é a palavra, mais do que a entoação. Há nela um talento especial para ouvir o detalhe irrelevante e transformá-lo no centro da piada. Se um político tropeça numa metáfora ou uma celebridade insiste numa frase feita, Joana regista, amplifica e devolve com espelho deformado, arrancando riso sem nunca precisar de gritar.
Apesar da acidez, não é humor cruel. O público reconhece nela uma cumplicidade: Joana ri, mas convida a rir em conjunto, como quem diz “repararam nisto também?”. Talvez seja essa a razão pela qual os próprios visados raramente reagem com indignação — muitos acabam até por se orgulhar de serem alvo de uma das suas crónicas radiofónicas, como Manuel Luís Goucha ou João Baião.
Mas sem sempre é assim. Por satirizar personalidades públicas, Joana Marques também costuma ser acusada de bullying. Os casos mais flagrantes aconteceram com a comunicadora Yolanda Tati, que chegou a emitir uma nota de repúdio contra a humorista e a Rádio Renascença, em 2023, e com o fundador e diretor do site Comunidade Cultura e Arte, Rui André Soares. De igual modo, em junho de 2022, a jornalista Judite de Sousa afirmou ter-se sentido “destratada sem o mínimo de compaixão” ao ser a visada de um dos episódios do “Extremamente Desagradável”.
Se o humor de Joana Marques costuma gerar consenso entre quem a ouve, também é verdade que a sátira não existe sem risco. O episódio mais mediático ocorreu em torno da atuação dos Anjos, a dupla formada pelos irmãos Sérgio e Nelson Rosado, durante o MotoGP de 2022, realizado no Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão.
Na ocasião, os Anjos foram convidados para interpretar o hino nacional português, “A Portuguesa”, antes da corrida. O momento, transmitido em direto para milhares de espetadores no circuito e para uma audiência televisiva ainda maior, rapidamente se tornou viral pelas razões erradas. Problemas técnicos de som, atraso no áudio e mistura desequilibrada deram a perceção de que os músicos estavam desafinados ou fora de tempo.
Foi nesse contexto que, a 25 de abril de 2022, Joana Marques publicou no Instagram um vídeo humorístico em que montava a atuação dos Anjos com imagens do júri do programa Ídolos a reagir com expressões de desagrado — um programa no qual ela própria tinha sido jurada anos antes. A legenda escolhida — “Será que foi para isto que se fez o 25 de Abril?” — acrescentava uma nota de provocação política e ajudava à rápida viralização do vídeo.
O caso não ficou pela sátira digital. Em 2025, os irmãos Rosado avançaram com um processo cível contra a humorista, pedindo 1,118 milhões de euros por danos morais e patrimoniais. Mas Joana Marques não se quer dar como culpada. “Faço esse exercício todos os dias, não penso no que vou excluir, penso no que vou incluir. Penso no que vou sublinhar, no que é risível, no que é engraçado. O vídeo do hino nacional é matéria-prima de humor, escolhi excertos com um ângulo cómico, as que considerei mais engraçadas. Se fosse uma música dos Anjos que eles estivessem a cantar de forma diferente, no meu entendimento, não seria tão engraçado”, justificou a radialista e humorista.
Não há humor que não vá ofender ninguém, por isso, prefiro viver num mundo em que o humor ofende muito, porque é um mundo mais livre e mais democrático.
Sobre os limites do humor, reconhece que, como forma de liberdade de expressão “está sujeito aos limites da lei”. Acrescentou, contudo, que “não há humor que não vá ofender ninguém” e, por isso, prefere “viver num mundo em que o humor ofende muito, porque é um mundo mais livre e mais democrático”.
O percurso de Joana Marques não se esgota na rádio. Tem presença regular na televisão, em programas de humor e comentário, e no palco, onde atua em espetáculos ao vivo que esgotam salas em poucos dias. É também podcaster, multiplicando espaços de opinião e conversas informais que mantêm viva a sua ligação ao público.
Mas o início do estrelato começou em 2009, com o programa Altos e Baixos, do canal Q, das Produções Fictícias, junto com Daniel Leitão, o seu marido. A analogia era evidente: Joana com apenas 1,53 metros e Daniel, com 1,98 metros, encaixavam que nem uma leva na figura de apresentadores. No início, teve relutância em aparecer, preferia continuar de fato de treino a escrever, mas acabou por ser “forçada”. “Estávamos num canal com pouco budget, não dava para chamar uns apresentadores a sério e tivemos de ser nós”, afirmou. E acabou por correr bem: “Eram só para quatro semanas e continuámos por quatro anos”.
Também faz parte da equipa de guionistas do programa “Isto é Gozar com Quem Trabalha”, apresentado por Ricardo Araújo Pereira, e passou pelo programa “Irritações” da SIC. Na imprensa, já assinou colaborações e textos onde o registo é mais reflexivo, mas nunca deixa de existir aquele subtexto irónico que lhe é característico. A sua assinatura é reconhecível: frases curtas, ritmo oral, observações que parecem pequenas, mas desmontam o assunto até ao osso.

Uma das marcas mais interessantes da sua popularidade é a forma como Joana Marques se expõe enquanto pessoa comum. Não esconde o quotidiano: fala da experiência da maternidade, das pequenas irritações do trânsito ou das contradições do dia-a-dia de qualquer cidadão. Esse lado caseiro, longe de retirar autoridade, humaniza-a e aproxima-a do público.
Nos últimos anos, Joana Marques tornou-se presença habitual nas listas de personalidades mais influentes da comunicação social portuguesa. Recebeu prémios de rádio e humor, foi distinguida em votações populares e consolidou-se como referência numa área em que a longevidade é rara.
Em 2021, foi finalista no prémio para melhor humorista do ano em Portugal, nos Prémios Hiena, sendo a única mulher candidata. Tanto em 2022 como em 2023, recebeu o Globo de Ouro de Personalidade do Ano – Digital, apesar de não ter qualquer conteúdo exclusivo na Internet. E, este ano, está nomeada para os prémios de Personalidade do Ano – Digital e Personalidade do Ano – Humor relativos. Para além disso, em 2025, foi distinguida pelo site Executiva como a sétima mulher mais influente de Portugal. Joana Marques ironizou a distinçãoː “Imaginem ser mais influente do que uma pessoa que sabe de medicina molecular. Nunca na vida”.
Em 2023, esgotou o MEO Arena em apenas 14 dias com o espetáculo “Desconfia” e é autora dos livros: “Viver com um adepto”; “O meu coração só tem uma cor”; Vai correr tudo mal”; “Apontar é feio”; e “Elefante na sala”.
Chegada a este ponto, o desafio que se coloca a Joana Marques é o mesmo que enfrentam todos os grandes nomes do humor: como continuar a surpreender? O público já reconhece o estilo, já espera o tom irónico, já se antecipa o momento da piada. E, ainda assim, ela tem conseguido reinventar-se, escolhendo alvos inesperados, explorando formatos diferentes e mantendo a frescura de quem observa o mundo com olhos atentos.
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Joana Marques, a estrela da sátira em tribunal que está prestes a vencer mais um globo de ouro
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