Nem casa, nem escritório. Hotéis, community hubs e coworks oferecem um “terceiro espaço”premium

Cansados da dicotomia entre trabalho no escritório versus teletrabalho, os profissionais querem alternativas: quase 80% gostariam de trabalhar, ocasionalmente, num “terceiro espaço”.

Depois de meses em casa e centenas de reuniões Zoom, os colaboradores e empresas preparam-se para o regresso ao escritório. E tudo indica que será para muitos um modelo híbrido. Uns dias por semana a trabalhar a partir de casa outros tantos na empresa, oportunidade para quebrar o isolamento e reforçar a cola organizacional com os colegas, durante meses, meras fotos no ecrã dos computadores ou mensagens que saltam no WhatsApp. Mas será esta a única alternativa?

Há quem fale numa nova tendência: um “terceiro espaço” de trabalho. Muitos colaboradores parecem estar desejosos dessa opção: 79% gostariam de trabalhar ocasionalmente num “terceiro espaço”, diferente da sua casa e do escritório. E mais de metade pagaria até cerca de 80 euros/mês para trabalhar num café, bar, hotel ou retalhista com um espaço próprio para o efeito, revela o estudo “Covid-19 Consumer Research”, da Accenture. “Um terceiro espaço de trabalho? E porque não 30 ou 50?”, questiona Paulo Palha. “Queremos ser um único bypass para dezenas de espaços de trabalho espalhados pelo país”, continua o business development & co-founder da Krow.

A empresa nasceu no final de 2020 — já em plena pandemia — precisamente para proporcionar aos profissionais uma rede de escritórios remotos, em diversas localizações de Portugal, dando liberdade aos membros para escolher o espaço que melhor serve as suas necessidades. Conta com uma rede de 12 hotéis, de norte a sul, mas o objetivo é crescer. “Iremos continuar a privilegiar o crescimento da rede de hotéis. A nossa expectativa é triplicar o número de escritórios remotos nas próximas semanas”, diz Paulo Palha.

Um terceiro espaço de trabalho? E porque não 30 ou 50? Queremos ser um único bypass para dezenas de espaços de trabalho espalhados pelo país.

Pedro Palha

Business development & co-founder da Krow

Com o turismo em baixa à conta da pandemia, os hotéis ganham aqui uma nova vida, servindo os propósitos dos clientes da Krow. São espaços com “condições excecionais” para o exercício do trabalho remoto, com uma grande vantagem: os clientes têm acesso a um conjunto de serviços. “Possibilitamos a qualquer um dos nossos membros, mediante a subscrição de um único plano através da nossa app, o acesso instantâneo a um conjunto de localizações. Nesses escritórios remotos, os membros beneficiam de acesso wifi, café, chá e água em regime de cortesia, bem como desconto em alimentação, estacionamento facilitado e, em alguns casos, podem até utilizar o ginásio”, explica.

Depois da revolução dos modelos de trabalho, acelerada pela pandemia, para a Krow, a questão sobre se o trabalho remoto veio ou não para ficar, nem sequer se coloca. “Já passámos essa fase. Chegou o momento de discutir que opções de trabalho remoto teremos pela frente, no sentido de melhorarmos a qualidade da vida pessoal e familiar, procurando sempre a harmonização da relação entre trabalhadores e empresas.”

Pandemia marca evolução dos coworks

Oferecendo um espaço de trabalho diferente do habitual, com uma vertente colaborativa e social vincada, os espaços de cowork mais tradicionais, instalados no mesmo edifício, são também opção para quem procura uma alternativa ao escritório ou à sala de estar da sua casa. Apesar de algumas opiniões e estudos apontarem para uma grande procura por espaços de cowork — como uma solução para o isolamento a que as pessoas estão sujeitas ao trabalhar a partir de casa, ou como alternativa ao local de trabalho — Ivone Cruz, proprietária do Link Cowork & Business, em Viana do Castelo, é mais cautelosa.

“Este modelo de trabalho mais colaborativo, que é também uma forma de estar na vida, ainda é desconhecido para a grande maioria das empresas e profissionais, apesar de a pandemia ter precipitado a descoberta das suas vantagens”, afirma em conversa com a Pessoas.

“A curva de aprendizagem sobre coworking, nomeadamente a sua correlação direta com a atração e retenção de talento, foi exponenciada com a conjuntura atual, colocando em evidência o que ainda não se sabia sobre este mercado. Mas isso não significa que toda a gente vá querer investir na sua qualidade de vida profissional (ou que se enquadre neste modelo), pagando por um espaço de trabalho, quando até pode trabalhar em casa de forma gratuita, ou voltar ao local de trabalho anterior”, continua a proprietária do edifício de três pisos, em Viana do Castelo, preparado para acolher profissionais individuais ou microempresas. “A cultura coworkista em Portugal ainda não acompanha a tendência europeia, estando menos normalizada.”

O Link Cowork & Business, em Viana do Castelo, acolhe profissionais individuais e microempresas.

Mas isso pode estar a mudar. O Governo, através do Programa de Estabilização Económica e Social (PESS), reconheceu os espaços de coworking como uma forma de combater o isolamento e a desmotivação. Confiante de que estes espaços podem contribuir para a dinamização do interior do país, fixando e atraindo pessoas e empresas, diminuindo deslocações, a pegada carbónica e melhorando a qualidade de vida das populações, o Executivo destinou 20 milhões de euros ao Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional para que os próprios municípios criassem espaços de cowork no interior do país.

No final de junho, os ministérios da Coesão Territorial e do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, na segunda etapa desta Rede Nacional de Teletrabalho no Interior, alargaram o número de municípios aderentes e abriram também portas aos funcionários públicos. Dos 57 espaços iniciais, a rede estendeu-se a 88 municípios e o objetivo é “continuar a crescer, cobrindo todos os municípios do país”, garante o Gabinete da Ministra da Coesão Territorial à Pessoas.

A primeira rede de espaços de coworking no interior, anunciada em abril, contemplava 57 espaços, os quais deveriam entrar em funcionamento no final de junho. Para já, há, pelo menos, oito municípios na região norte, três na região centro e um no Algarve com estes espaços de teletrabalho em funcionamento. No entanto, esclarece o Gabinete da Ministra da Coesão Territorial, “todos os que já têm protocolo assinado (88) têm luz verde para funcionar”. E explica: “A divulgação dos espaços, da sua localização, condições de acesso e de funcionamento é da responsabilidade dos municípios, bem como a sua gestão, pelo que, até agora, os municípios que aderiram foram os que tinham espaços em condições de entrar em funcionamento, sem necessidade de obras, e com equipamentos disponíveis”.

A Câmara Municipal de Castelo Branco está a ultimar os detalhes para a abertura de dois centros na cidade, destinados a profissionais a exercer a profissão em regime de teletrabalho e que queiram fazê-lo noutro espaço, que não a sua casa. Cada um dos espaços tem capacidade para dez pessoas e dispõem de zonas comuns e privadas, para videochamadas e reuniões. A autarquia não descarta a possibilidade de virem a ser criados outros centros noutras freguesias, com o objetivo de desenvolver o coworking no concelho.

Depois de a pandemia ter adiado os planos de abertura de um segundo Link Cowork & Business, também em Viana do Castelo, Ivone Cruz espera poder, finalmente, concretizar essa intenção no segundo semestre de 2022. A procura dá sinais animadores: cresce “lentamente”, beneficiando da decisão de alguns trabalhadores regressarem às suas origens, uma vez que podem trabalhar a partir de qualquer lugar.

“A procura tem aumentado por parte de profissionais nacionais que, não tendo de se deslocar, por exemplo, para Lisboa ou Londres em trabalho, mantêm-se com vínculos profissionais às empresas mas decidiram voltar às origens. Veem esta fase como uma oportunidade para morar em Viana do Castelo, uma cidade com qualidade de vida, conciliando a vida profissional com a vida pessoal (família, lazer, desportos aquáticos), algo que já desejavam fazer, mas que a pandemia ajudou a concretizar”.

O ritmo da situação pandémica, acredita, é que vai realmente ditar a evolução do mercado. “No último trimestre deste ano, se a conjetura o permitir, contamos atingir 85% da nossa capacidade como espaço de cowork e aumentar em 50% a nossa prestação de serviços no segmento business.”

A cultura coworkista em Portugal ainda não acompanha a tendência europeia, estando menos normalizada.

Ivone Cruz

Proprietária do Link Cowork & Business

O Link acomoda diferentes necessidades. Não carece de inscrição, conta com utilizadores reguladores, que vão todos os dias ou quase diariamente às instalações, e utilizadores esporádicos. Ainda recebe maioritariamente trabalhadores independentes, mas já acomoda também empresas com grande volume de faturação — mas pequenas em dimensão — que procuram espaços profissionais que lhes possam proporcionar novas oportunidades de negócios. “O Link é igualmente frequentado por profissionais de várias nacionalidades, sendo desta forma um promotor de conexões internacionais”, refere Ivone Cruz, sem detalhar o número de utilizadores diários do espaço de cowork.

Já na Krow, os membros são, sobretudo, empreendedores, freelancers e trabalhadores de multinacionais (nacionais e estrangeiras) enquadrados em áreas como a tecnológica, financeira, farmacêutica, de recrutamento e consultoria. Com pouco mais de meio ano de atividade, o cofundador do projeto revela que têm sentido “um enorme interesse” por parte dos profissionais. “Estando a trabalhar remotamente, as pessoas procuram uma experiência de trabalho superior que inclua uma componente mais forte de bem-estar e com ligação a uma comunidade”, considera.

De office para community hub

A pandemia acabou por ser o cenário de nascimento da Krow, mas nem tudo foram rosas. Os efeitos da crise acabaram por se fazer sentir nas empresas que tinham acabado de fazer investimentos avultados em novos espaços para receber os colaboradores. Muitas ou nem sequer estrearam o novo local de trabalho ou, poucos dias depois, tiveram de recolher a casa. Foi o caso da Landing.Jobs. Para rentabilizar o investimento de algumas dezenas de milhares de euros feito no escritório de Lisboa, voltou-se para o conceito de coworking, mas dentro do seu próprio local de trabalho.

Para rentabilizar o investimento feito no escritório de Lisboa, a Landing.Jobs está a receber as empresas clientes e parceiras que queiram usar as instalações da tecnológica para trabalhar, numa lógica semelhante à de um cowork.

“Com os colaboradores a centralizarem-se, para outros países ou localizações que não Lisboa, ou por estarem a trabalhar mais a partir de casa, não necessitamos de um escritório tão grande. Das duas, uma: ou se criam mais espaços de lazer e espaços comuns ou ficamos com uma capacidade completamente desaproveitada. Esta estratégia vem também colmatar isso”, explica Diogo Oliveira, CEO da Landing.Jobs.

Com um negócio bastante global, a plataforma de recrutamento em tecnologia quer ser, em Lisboa, a anfitriã, utilizando a sede para receber a comunidade, ou seja, as empresas clientes e parceiras com quem trabalha. A ideia é que as pessoas destas organizações possam utilizar as instalações da Landing.Jobs, que, por um lado, rentabiliza o escritório e, por outro, aproxima-se do cliente. “Neste momento temos um cliente a utilizar uma sala nos nossos escritórios. Utiliza zonas comuns e temos um sistema de booking, tal como existe em qualquer cowork”, explica.

Nas cidades e países onde a Landing.Jobs também está presente, mas não tem escritórios próprios, o movimento é inverso. “Enquanto temos pouco volume, a ideia inicial é estar dentro de uma comunidade: num coworking space, a partilhar offices com empresas, seja a num espaço no local de trabalho dos clientes. Estamos a considerar caso a caso”, conta. “Queremos evoluir de office para community hub, um local onde stakeholders internos e externos se reúnam e aprendam em conjunto. Com a distribuição dos nossos colaboradores pela Europa, abriremos a possibilidade de as pessoas trabalharem a partir de escritórios diferentes para mudarem de ambiente, se assim preferirem, e conhecerem outros colegas e realidades.” A grande vantagem está na criação de sinergias, na rentabilização e otimização de espaços, e, agora mais do que nunca, na vertente social, reduzindo o isolamento de quem trabalha a partir de casa.

Queremos evoluir de office para community hub, um local onde stakeholders internos e externos se reúnam e aprendam em conjunto. Com a distribuição dos nossos colaboradores pela Europa, abriremos a possibilidade de as pessoas trabalharem a partir de escritórios diferentes.

Diogo Oliveira

CEO da Landing.Jobs

“Os coworks são espaços sociais de comunidades que surgem em paralelo aos locais de trabalho e a casa, não os substituindo, mas complementando-os”, refere Ivone Cruz. “Estes terceiros espaços são locais para trabalhar, mas sobretudo para integrar. Diria até que este mercado pode dividir-se em business center, onde o profissional vem para reunir ou organizar uma formação de forma pontual (sendo por isso mais difícil a conexão), e o coworking, que, no fundo, é esse the third place onde as pessoas podem estar, conviver, trabalhar e cocriar, se assim entenderem”, resume a gerente do Link Cowork & Business.

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