Para estas pessoas não há salário mínimo. Como vive quem faz o seu próprio salário?

Da saúde ao imobiliário, passando pelo turismo, são muitas as áreas em que os profissionais fazem os seus próprios salários. Com ou sem patrões, com ou sem horários.

600 euros? O salário mínimo nacional (SMN), um dos mais baixos da Europa, vai subir. Passa para 635 euros já no arranque do próximo ano, sendo que o Governo pretende aumentá-lo até aos 750 euros em 2023. É, diz António Costa, uma forma de “combater a precariedade”. Deve ser a retribuição mínima mensal de todos os portugueses, mas a realidade não é bem essa. Há casos, ainda que raros, de trabalhadores que começam o mês sem a garantia de um salário ao dia 30. Têm de conquistar esse valor dia após dia, assegurando sempre o pagamento das despesas. Há quem não chegue ao SMN, mas também há profissionais que ganham bem mais, trabalhando menos horas que o comum dos portugueses.

Não é fácil viver sem um salário garantido, mas há circunstâncias que acabam por obrigar a optar por essa via. Foi o que aconteceu a Cristina Mendes, que aos 45 anos decidiu mudar de vida. Deixou de lado a liderança de uma empresa e entrou no mercado imobiliário. Mas hoje, com 56 anos, reconhece que não foi fácil, nem continua a ser. “Entrei para a Remax porque naquela idade não havia muito mais que pudesse fazer. Foi difícil porque tem de se trabalhar muito, ter muitos contactos e, principalmente, porque são muitos meses sem ganhar nada. Estive seis meses sem receber quando comecei”, conta ao ECO.

Há meses em que tiro comissões altas que cobrem dois ou três meses. Se faturarmos todos os meses, não há problema, mas se não faturarmos um mês, é mais complicado.

Cristina Mendes

Consultora Imobiliária na Remax Team

Na Remax, o ordenado de Cristina é todo à base de comissões. Ou seja, se não vender casas, não há salário. “Há meses em que se vendem duas ou três casas e se ganha muito dinheiro — porque no imobiliário ganha-se muito dinheiro — e outros meses em que não se vende nenhuma casa e não se ganha. Aí temos de gerir as nossas contas. Não é fácil, mas é possível”.

Como? “Há meses em que tiro comissões altas que cobrem dois ou três meses”, explica, referindo que todas as angariações e vendas que faz dependem de contactos de familiares e amigos, sem precisar de ir “bater às portas”.

No mundo do fitness não se bate às portas, mas procuram-se alunos para fazer crescer o salário. Filipe Santos, de 23 anos, é personal trainer (PT) num ginásio em Lisboa, mas não recebe nada do ginásio. Pelo contrário, ainda tem de pagar para lá trabalhar. “Tenho de pagar uma renda de 400 euros ao ginásio todos os meses. Exceto em agosto e dezembro que cai para metade, como se fosse um subsídio [de férias e de Natal]”, explica ao ECO. Ao pagar este montante, os rendimentos que obtém com os treinos personalizados não têm de ser divididos com o ginásio. “Pagando a renda, costumo auferir 1.000 euros”.

Sim, traz instabilidade. Muitos desistem. Mas eu ser o dono de mim próprio é ótimo, porque posso alterar a minha vida consoante os outros dias e posso fazer as férias que quiser.

Filipe Santos

Personal trainer

“Há meses melhores e outros piores. Se me esforçar [por arranjar alunos] dá para compensar“, diz Filipe Santos, que costuma trabalhar cinco horas diárias. Se traz instabilidade? “Sim, traz instabilidade. Muitos desistem. Mas eu ser o dono de mim próprio é ótimo, porque posso alterar a minha vida consoante os outros dias e posso fazer as férias que quiser”.

Na mesma área e numa situação semelhante está Alberto Silva. Tem 25 anos e é PT num ginásio no Porto, mas tem um ordenado base garantido. Normalmente, acaba por receber entre 900 a 1.000 euros todos os meses, através de recibos verdes, mas este valor varia. O ordenado base pago pelo ginásio nunca ultrapassa os 500 euros, dependendo das aulas de grupo dadas e do “horário de sala”, o tempo de apoio no ginásio.

Ao valor base acresce o montante cobrado pelos treinos personalizados, que normalmente custam entre 100 a 200 euros por pessoa, por mês. E é aqui que Alberto faz o seu próprio salário: tem de convencer as pessoas a aderirem a este modelo personalizado de treinos. “A estabilidade é relativa. Há aquele ordenado fixo e depois tenho de arranjar clientes. As vantagens são que posso fazer o meu próprio horário e num curto espaço de tempo consigo rentabilizar o dinheiro”, explica.

Mesmo numa empresa, há quem consiga ser livre em tudo

Rafaela Lopes, nome fictício, é enfermeira. Trabalha na Saúde 24 (SNS24) por causa da experiência, mas também porque “compensa em termos de estabilidade financeira”. Assim como os colegas, a enfermeira de 24 anos recebe, em média, seis turnos de oito horas por mês. “É-nos atribuído um horário aleatório, independentemente das nossas disponibilidades. Depois, entre colegas, fazemos trocas ou cedências de turnos. Ou seja, tanto podemos fazer dois turnos, como podemos fazer 15. Depende de nós e da disponibilidade dos nossos colegas”, explica ao ECO.

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“És tu que geres o teu próprio horário. Podes não conseguir tirar todos os meses o ordenado mínimo e, por isso, a maioria das pessoas está lá em part-time“, diz, adiantando que esses seis turnos podem equivaler a menos de 400 euros por mês se coincidirem com dias da semana ou a mais de 600 euros se forem noites de fim de semana. “Para quem está desempregado, pode não dar muita confiança. Mas para quem está a part-time, pode ser muito bom”, diz.

Se Rafaela depende dos turnos que lhe são atribuídos, mas também de se esses turnos são durante a semana ou não, outros há, como Marta Ribeiro, nome fictício, que dependem de ter ou não clientes. Marta está ao leme da própria empresa. Gere o seu próprio horário, mas também o seu próprio ordenado. Com um escritório de solicitadoria no Porto, diz não ter um salário fixo. Este varia consoante o lucro da empresa.

Por isso é que se chama uma profissão liberal: sou livre em tudo. Nem estou sujeita a tabela de preços, pratico os preços que entender.

Marta Ribeiro

Solicitadora

“Há meses em que tiro 600 euros, outros em que tiro 1.000 euros. O facto de ter uma vasta carteira de clientes garante-me um lucro médio mensal de 700 euros”, conta. Marta Ribeiro prefere estar como está, sem ter patrões, porque é “mais rentável” e não está “sujeita a determinados deveres perante uma empresa”. “Por isso é que se chama uma profissão liberal: sou livre em tudo. Nem estou sujeita a tabela de preços, pratico os preços que entender”, remata.

Patrões e horários? “Não me dou com isso”

Há pessoas que não têm patrões. Para além de decidirem quando e com quem trabalham, ainda definem os preços que cobram. João Alves divide os seus dias entre passeios de tuk-tuk e espetáculos de stand up comedy. “Não trabalho todos os dias”, diz. “Sou guia turístico [no seu próprio tuk-tuk] e faço stand up comedy, em ambas as atividades trabalho por conta própria. E sendo o meu salário a junção das duas, dependo do que recebo”, conta.

Aos 30 anos, dono do seu próprio salário, João Alves consegue juntar mais do que 600 euros de salário mínimo nacional atual (antes da subida para 635 euros a 1 de janeiro) todos os meses, mesmo nos meses mais fracos em que trabalha cerca de 15 dias. “É um equilíbrio complicado. Por um lado é um stress estar dependente de variáveis que não controlo e, por outro lado, sou independente e vivo bem. Mas tenho de estar sempre adiantado uns bons meses nas minhas despesas e planos para não ser apanhado desprevenido“.

Maria Alves também não tem de dar satisfações a nenhuma empresa. “Já estive em empresas, mas não me dou com isso. Estive numa, que entretanto fechou, e foi então que comecei a trabalhar em particulares”, conta ao ECO a empregada doméstica. Tem cinco “patroas” e o valor está acertado com todas, mas pode variar se houver feriados durante a semana. Os 4,50 euros à hora que normalmente cobra por limpar a casa ou passar a ferro não são suficientes para auferir o salário mínimo todos os meses. “Mais patroas não consigo ter, porque tinha de andar a conjugar feriados e folgas”, explica.

É sempre um risco, porque o salário fixo dá garantia de que ao final do mês tens determinado valor. Mas no meu caso compensa.

Inês Garoupa

Freelancer

Já Inês Garoupa, com 24 anos, não tem de se preocupar com folgas, porque não tem horário fixo. Há dois anos começou a trabalhar como freelancer e, atualmente, já o consegue fazer a tempo inteiro, através de uma plataforma online. “Comecei por produzir conteúdos em inglês para blogs, formatações de textos e redes sociais”, conta. Hoje continua e já tem clientes fixos. Os seus horários variam muito, já que tanto pode trabalhar 30 horas numa semana, menos do que as 40 horas semanais que grande parte dos portugueses passa no emprego, como noutra pode chegar a totalizar 60 horas. Em qualquer caso, nunca recebe menos do que o salário mínimo. “É sempre um risco, porque o salário fixo dá garantia de que ao final do mês tens determinado valor. Mas no meu caso compensa”.

Na mesma situação, mas sem o apoio de uma plataforma, está Rodrigo Mendonça, com 24 anos. “Faço vídeos e fotografia, principalmente videoclips. As pessoas vêm ter comigo pelas redes sociais, porque viram um vídeo meu para alguém”, conta ao ECO. Por mês faz cerca de seis a sete trabalhos, cujos preços variam consoante o projeto, as horas e os dias e o material necessário. “O meu dinheiro vem todo daí. Em média faço cerca de 600 euros. Há meses em que recebo mais de 1.000 euros e tento guardar algum para a eventualidade de nos mês seguinte não ter tanto“, aponta.

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