Quem é Manuel Beja e como chegou a “chairman” da TAPpremium

O currículo do sucessor de Frasquilho está longe do que é habitual no cargo. Pedro Nuno Santos justifica a escolha com o perfil ligado às empresas e a opção por um conselho sem filiação política.

A escolha de Manuel Beja para presidente do Conselho de Administração da TAP causou estranheza e perplexidade até em quem com ele trabalhou. Não conhece o setor da aviação, nunca desempenhou funções em conselhos de administração e era, até à semana passada, um desconhecido. Mas há quem teça elogios à sua capacidade enquanto gestor, à disponibilidade para agarrar desafios difíceis e à inteligência. O ministro das Infraestruturas defende, em declarações ao ECO, a opção pelo antigo colega do ISEG: tem um perfil ligado às empresas e à inovação, experiência na gestão de recursos humanos e capacidade de gerar consensos.

Se a saída de Miguel Frasquilho do cargo de chairman caiu como uma bomba, o nome do seu substituto também causou surpresa. Manuel Beja era até há poucos anos o diretor de recursos humanos da Novabase, tendo feito quase toda a sua carreira na tecnológica portuguesa. Não se lhe conhecem ligações partidárias ou experiência política.

O perfil é muito diferente dos seus antecessores e do que é habitual vermos numa empresa da dimensão da TAP. Antes de ser escolhido para liderar o principal órgão social da companhia e nele representar o Estado, Miguel Frasquilho chefiou o departamento de research do antigo BES, foi deputado pelo PSD, secretário de Estado do Tesouro e Finanças no governo de Durão Barroso e presidente da AICEP.

O economista foi precedido por Humberto Pedrosa, que se tornou acionista da TAP na privatização, depois de construir o maior grupo privado português de transportes. O empresário sucedeu a Manuel Pinto Barbosa, que foi reitor da Universidade Nova, perito em vários programas da então CEE, administrador não-executivo da Portucel, entre outros cargos de relevo. Antes esteve Cardoso e Cunha, militante do PSD, ministro, comissário europeu e da Expo 98.

Manuel Beja rompe com este perfil, seja na idade, tem menos de 50 anos, seja no currículo. Pedro Nuno Santos justifica ao ECO a escolha do antigo colega do ISEG, que foi um dos nomes que veio para cima da mesa durante a reflexão sobre quem poderia ocupar o lugar: "Tem características muito importantes para o futuro da TAP. Tem competências especializadas em recursos humanos, e a competitividade da companhia vai jogar-se muitos nos custos de estrutura e nos custos laborais, na área da inovação, que é crítica para a aviação, e experiência no mercado brasileiro, que é um mercado muito relevante para a TAP".

O ministro das infraestruturas destaca ainda "a inteligência, o bom senso e a capacidade para gerar consensos". "Tem uma forma de estar e de se relacionar que é importante num conselho de administração", acrescenta.

Pedro Nuno Santos sublinha ainda o perfil empresarial e não político de Manuel Beja, desejado para o novo conselho de administração. Miguel Frasquilho, Diogo Lacerda Machado e Bernardo Trindade, que ficaram de fora do novo board, tinham todos ligações partidárias ou ocuparam cargos políticos. No novo conselho, o único caso é o de Ana Teresa Lehmann, que foi secretária de Estado da Indústria no anterior Governo, mas que teve sempre uma carreira mais ligada à academia e às organizações internacionais.

Um matemático que enveredou pelo marketing

Segundo a informação que consta no Linkedin, Manuel Beja fez a licenciatura de Matemáticas Aplicadas à Economia e Gestão no ISEG, entre 1991 e 1998. Em jeito de nota de rodapé, refira-se que este é, atualmente, um dos cursos em que é mais difícil entrar: a média de ingresso, de 18,75 valores, foi a sétima mais alta no ano passado.

Começou a carreira como programador na Eurosistema em 1990, passou pelo marketing da Oblog e em 1997 deu o salto para a Novabase. Dois anos depois subiu a diretor de marketing de uma das empresas da consultora de tecnologias de informação.

Saiu em 2001 para fazer o MBA no INSEAD e voltou em 2002 para assumir a direção da Novabase Brasil, onde ficou três anos. Em 2005, estava de volta a Lisboa para integrar a Collab, uma empresa especializada em software para contact centers, participada da Novabase Capital, então a dar os primeiros passos.

Quatro anos depois, voltou à casa mãe como diretor de corporate development. No final de 2011, faria nova viragem na carreira, assumindo a liderança dos recursos humanos do gurpo Novabase. A nova área levou-o a fazer, em 2014, um executive masters em Gestão de Recursos Humanos na SDA Bocconi, em Milão. Três anos depois voltou à escola de negócios francesa para fazer um segundo masters sobre Consultoria para a Mudança e Psicologia Organizacional. Saiu da Novabase em março de 2018. Termina aí o currículo disponível no Linkedin.

Determinado e reservado

Onde uns notam insuficiente experiência para o cargo, outros veem matéria-prima para fazer um bom lugar. Rogério Carapuça, que era administrador da Novabase (e foi, depois, presidente) quando Manuel Beja entrou na empresa, destaca a sua “lealdade, determinação e persistência na persecução dos objetivos”, assim como o “bom trato”.

O presidente da APDC, Rogério Carapuça, intervém no 26.º Congresso da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, 29 de setembro de 2016. MIGUEL A. LOPES/LUSA

"Destaco a lealdade, determinação e persistência na persecução dos objetivos. E o bom trato.”

Rogério Carapuça

“É um gestor multifacetado, que esteve sempre à altura dos desafios, e uma pessoa íntegra”, descreve outro ex-colega ouvido pelo ECO. A preocupação com a formação é sublinhada e há quem antecipe que já estará a estudar avidamente o setor da aviação e a TAP. Manuel Beja fala quatro línguas, além do português: inglês, francês, espanhol e holandês.

Há também quem exprima perplexidade pela escolha, pelo desconhecimento do setor, por nunca ter ocupado cargos em conselhos de administração ou ter experiência na relação com sindicatos. Entre os que exprimem surpresa pela escolha está José Paiva, presidente e fundador da Landing.Jobs, que trabalhou com Manuel Beja na Novabase, embora quase sempre em áreas diferentes. "Os antigos colegas ficaram muito curiosos em perceber como é que uma pessoa com conhecimentos em consultoria de tecnologias de informação foi parar a este cargo na aviação", afirma. Manuel Beja substituiu José Paiva na Novabase Brasil, que acabou vendida poucos anos depois do primeiro lá ter estado.

"Os antigos colegas ficaram muito curiosos em perceber como é que uma pessoa com conhecimentos em consultoria de tecnologias de informação foi parar a este cargo na aviação.”

José Paiva

Presidente e co-fundador da Landing.jobs

“Muito reservado” e “pouco relacional”, são outras características apontadas por ex-colegas, assim como “analítico” e “orientado à solução”. Numa coisa, entusiastas e céticos estão de acordo: o futuro chairman da TAP tem uma inteligência acima da média. “Tem um QI muito elevado”, nota um dos inquiridos.

Sindicatos esperam para ver

Os sindicatos com quem o ECO falou preferem esperar pela tomada de posse e por conhecerem pessoalmente o novo chairman antes de se pronunciarem. Nem pilotos (SPAC), nem pessoal de terra (SITAVA), nem tripulantes (SNPVAC) querem fazer comentários. O presidente deste último, Henrique Louro Martins, salienta, no entanto, a “surpresa” por Miguel Frasquilho não ter sido reconduzido, depois do trabalho desenvolvido com a administração, os sindicatos e os trabalhadores que “permitiu a continuidade da companhia”. Primeiro após o embate da pandemia e mais recentemente com o plano de reestruturação.

A manutenção do presidente do Conselho de Administração era o plano A de Pedro Nuno Santos, mas o primeiro-ministro terá imposto um corte total com a anterior administração, surgindo então o nome de Manuel Beja. A sua nomeação será confirmada na assembleia-geral de dia 24, juntamente com a restante equipa.

Como chairman, Manuel Beja será o primeiro responsável pela fiscalização da atividade da empresa e o principal representante do Estado no board da TAP, fazendo a ponte com o ministro das Infraestruturas. Liderará um conselho de administração que terá a difícil tarefa de implementar o plano de reestruturação, provar que a companhia é viável e que os 1,2 milhões de euros injetado na companhia (a que se deverão somar mais 2,5 mil milhões) não foram um desperdício de dinheiro público.

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