Robôs também já escrevem notícias em Portugal. Estão a estagiar na Lusa

A Lusa "contratou" um robô para escrever as peças de abertura e fecho da bolsa. Mas a automação no jornalismo está longe de ser novidade lá fora. Conheça as máquinas que escrevem as notícias.

“A partir de hoje, as notícias divulgadas pela agência Lusa sobre a abertura e fecho da bolsa de valores de Lisboa serão produzidas automaticamente por uma aplicação informática.” A mensagem foi divulgada às 7h16 da passada segunda-feira, 18 de novembro, e representou a chegada a Portugal de uma tendência que tem ganhado cada vez mais expressão lá fora.

Os robôs já substituem os humanos em linhas de produção nas fábricas, nos serviços de apoio ao cliente das empresas e numa série de outras tarefas que podem ser automatizadas. Ora, o jornalismo não escapa a essa tendência. Apesar de muitas notícias exigirem análise de dados, contactos com fontes e recolha de informação em geral, outras, como o arranque e o fecho de uma sessão na bolsa, podem ser escritas por robôs. É assim numa série de países, com os EUA e o Reino Unido à cabeça. Mas o da Lusa entrou ao serviço na última semana, depois de um “longo período de testes”.

“Estamos a usar um bot que vai buscar informação à fonte e que produz a abertura e o fecho do mercado de bolsa, de forma automática. Faz o texto, coloca-o no nosso sistema, preenche os campos e envia o ficheiro para o jornalista. Estamos a falar de produção semiautomática, no sentido em que há sempre uma validação final do jornalista”, explica ao ECO o diretor de inovação e novos projetos da Lusa, Pedro Camacho, que tem dirigido uma série de projetos de inteligência artificial aplicada ao trabalho dos jornalistas da agência.

Sim, o robô da Lusa trabalha sozinho, mas ainda tem provas a dar do ponto de vista de fiabilidade, mesmo depois de várias fases de teste “ao longo do ano”, incluindo uma de dois meses “a funcionar em pleno” na redação. “É sempre verificado por jornalistas, enquanto a fé na tecnologia não for uma coisa inabalável”, reconhece o jornalista Pedro Camacho.

A máquina “ao serviço do jornalista”

Quando o tema são os robôs, muita gente desconfia. Há vários anos que se ouvem alertas de que as máquinas vão destruir empregos. No entanto, também se diz que vão criar outros. Ou libertar tempo para tarefas em que os humanos, mais capazes, possam gerar um maior valor acrescentado.

É assim com o robô da Lusa. Sobra mais tempo aos jornalistas para investigarem e perseguirem outras informações, porque a bolsa abre e fecha (quase) todos os dias.

“O racional é muito simples. Tem a ver com a falta de recursos, por um lado, e tentar maximizar as nossas potencialidades tendo em vista o facto de sermos um serviço público e de termos que dar resposta com recursos parcos, por outro”, diz ao ECO a diretora da Lusa, Luísa Meireles. “O uso destas ferramentas tem um princípio maior, que é, efetivamente, estarem ao serviço do jornalista. Há trabalhos rotinados que o jornalista tem de fazer que, neste caso, lhe são facilitados pela existência deste tipo de novidades tecnológicas”, aponta a jornalista.

Por isso, a Lusa não tem em curso qualquer plano para reduzir a equipa por causa da entrada ao serviço do robô. Há espaço para todos na redação: “Isto não despede ninguém, não dispensa ninguém”, promete Luísa Meireles, em conversa com o ECO.

O caso da escrita automática de notícias é um exemplo de como a tecnologia pode facilitar processos em contexto de trabalho. Noutros setores, os algoritmos já são capazes de preencher documentos, encaixar peças num automóvel em produção ou procurar informação em bases de dados. Num setor como o da comunicação social, em que todas as eficiências que puderem ser criadas são bem-vindas, a entrada ao serviço do “robô jornalista” deve vista com bons olhos por parte da redação.

“Há coisas que fazem sentido fazer neste momento, em termos tecnológicos, que estão disponíveis no mercado, são fáceis, são baratas, não exigem nada em especial, mas têm uma grande vantagem, que é: ajudam os jornalistas”, continua a diretora da Lusa. No entanto, reconhece que o tema é “complicado”. “Entronca também na crise do jornalismo, na crise dos jornais que fecham, das pessoas que vão embora. É preciso fazer mais com menos”, remata Luísa Meireles.

Entronca também na crise do jornalismo, na crise dos jornais que fecham, das pessoas que vão embora. É preciso fazer mais com menos.

Luísa Meireles

Diretora da Lusa

Resumos e transcrição automática

Para além do robô que abre e fecha a bolsa, a Lusa está a trabalhar com “parceiros tecnológicos” para desenhar outras ferramentas que tornem mais produtivo o trabalho dos jornalistas. Quem o revela é Pedro Camacho, apesar de não poder mencionar o nome das empresas parceiras, por estar sujeito a “acordos de confidencialidade”.

“Pertencemos a um consórcio que está a desenvolver um sistema que permite acompanhar a vida da notícia de uma agência. Quem é que usou a notícia, da parte dos nossos clientes; quem é que está a ver a notícia junto dos nossos clientes; e quem é que está a partilhar a notícia nas redes sociais. Ou seja, também permite ver quem são os não clientes que estão a usar abusivamente as nossas notícias”, explica o diretor de inovação.

A outra ferramenta é um aplicativo mais alargado, capaz de “fazer transcrição, tradução, sumarização e produção automática de legendas”. Para quem gasta duas horas a transcrever meia hora de uma entrevista gravada, um algoritmo que transcreva textos em português é uma autêntica prenda. Ou, perante um documento de 300 páginas, obter um resumo automático com os pontos mais importantes. Este são exemplos de alguns dos processos mais rotineiros e de menor valor acrescentado no trabalho de um jornalista.

“O nosso objetivo também é o de desenvolver ferramentas de inteligência artificial que trabalhem com a língua portuguesa, que é uma coisa que é bastante importante. Há muito pouco, mesmo em português do Brasil, quando comparas com ferramentas desenvolvidas em inglês ou espanhol, ou alemão. Estamos a fazer várias parcerias com esse objetivo: trabalhar o português”, conclui.

A prova da escassez de ferramentas de reconhecimento do português de Portugal é o facto de só este mês é que a Google passou a disponibilizar o Assistant em língua portuguesa. Já a Siri (iPhone), a Cortana (Microsoft) e a Alexa (Amazon) ainda não sabem falar português.

Tornando a profissão “mais interessante”

A automação do jornalismo pode ser novidade em Portugal, mas há largos anos que agências e jornais internacionais usam ferramentas deste género para simplificar o trabalho dos jornalistas. Bloomberg, Associated Press e Reuters são três exemplos.

Em abril de 2016, John Micklethwait, editor executivo da Bloomberg, enviou um email aos jornalistas a dar conta da criação de uma equipa de dez pessoas na agência, focadas em aplicar a inteligência artificial ao trabalho na redação. Na mensagem, citada pela Poynter, o jornalista foi claro: “Bem feita, a automação do jornalismo tem o potencial de tornar o trabalho de todos mais interessante.”

“A ironia da automação é que ela só pode ser tão boa quanto os humanos que a fazem. Isso aplica-se aos principais tipos de jornalismo automatizado”, continuou John Micklethwait. Para além de escreverem aberturas e fechos de bolsas em todo o mundo, as máquinas da Bloomberg também conseguem descobrir tendências e escrever partes de notícias. Os jornalistas podem, depois, decidir entre acrescentar mais contexto ou publicar o artigo tal e qual como ele está. Mesmo assim, segundo o editor executivo, estes algoritmos precisam de “humanos para lhes dizerem onde é que eles devem procurar”.

Bem feita, a automação do jornalismo tem o potencial de tornar o trabalho de todos mais interessante.

John Micklethwait

Editor executivo da Bloomberg

No caso da Associated Press, a relação entre a agência e os “robôs jornalistas” tornou-se mais séria em junho de 2014, altura em que pôs ao serviço alguns algoritmos que analisam os relatórios de contas das empresas cotadas em Wall Street, à procura de notícias.

“Em vez de escrevermos 300 notícias manualmente, podemos escrever 4.400 automaticamente para empresas em todo o território dos Estados Unidos a cada trimestre”, disse Lou Ferrara, na altura vice-presidente da agência internacional com os pelouros do digital, redes sociais e verticais, igualmente citado pela Poynter.

A quem sempre defendeu que os robôs da Associated Press iriam roubar os empregos aos jornalistas, a agência lançou um piscar de olho e deu um passo em frente, contratando um editor exclusivamente dedicado à automação. O cargo foi ocupado pelo jornalista de dados Justin Myers.

"Em vez de escrevermos 300 notícias manualmente, podemos escrever 4.400 automaticamente para empresas em todo o território dos Estados Unidos a cada trimestre.”

Lou Ferrara

Ex-jornalista da Associated Press

Já a Reuters também tem um longo historial de automação jornalística. A primeira “notícia” escrita por um robô entrou na linha em 2001 — sim, 2001 –, quando a empresa recorreu a algoritmos que escreviam e publicavam destaques com base nos relatórios semanais do Instituto Americano do Petróleo, como conta a revista Columbia Journalism Review.

Em 2014, a Reuters criou o News Tracer. Trata-se de uma plataforma com bots que vagueiam pelo Twitter à procura de notícias — mas não daquelas que já foram publicadas na imprensa. Os bots da plataforma procuram publicações de pessoas que possam estar a testemunhar as notícias à medida que elas acontecem, permitindo à agência saber primeiro e, consequentemente, noticiar primeiro.

Além disso, a agência tem ainda usado algoritmos para prestar apoio aos jornalistas do ponto de vista de análise de dados e historiais. Por exemplo, detetar que uma determinada variável está em máximos, ou mínimos, e de quando.

O “jornalismo automático” é, assim, uma tendência que chega também ao setor em Portugal, ainda que já relativamente tarde face aos pares internacionais. As dificuldades financeiras em que muitas empresas de media se encontram no país, devido à digitalização da cadeia de distribuição e à queda das audiências, tem criado pouca margem para investir nestas novidades.

De qualquer forma, a agência Lusa, com pouco mais de 50% do capital controlado pelo Estado português e o restante por vários órgãos de comunicação social nacionais e regionais, dá um primeiro passo na automação. E como saber se uma notícia é escrita por um humano ou por uma máquina? No caso da Lusa, os takes virão com a indicação “este texto foi gerado automaticamente”. A tendência veio mesmo para ficar.

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No entanto, o jornalismo não é imune à crise económica em que, na verdade, o setor já estava. A comunicação social já vive há anos afetada por várias crises – pela mudança de hábitos de consumo, pela transformação digital, também por erros próprios que importa não esconder. Agora, somar-se-ão outros fatores de pressão que põem em causa a capacidade do jornalismo de fazer o seu papel. Os leitores parecem ter redescoberto que as notícias existem nos jornais, as redes sociais são outra coisa, têm outra função, não (nos) substituem. Mas os meios vão conseguir estar à altura dessa redescoberta?

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António Costa

Publisher do ECO

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