Ser-se feliz no trabalho, sim. Mas como?

O conceito de felicidade entre os colaboradores e a sua relação direta com a produtividade da empresa já é dado adquirido. Mas em Portugal ser-se feliz no trabalho pode ter vários significados.

Georg Dutschke, do estudo “Happiness Works”, acredita que o segredo de uma organização feliz está no diagnóstico que esta consegue fazer dos seus colaboradores e das causas que apontam para estarem felizes ou não. Pela sua experiência, se os gestores da empresa em causa estiverem de facto “preocupados em promover um bom ambiente, um bom trabalho em equipa com uma boa comunicação e espírito de união, a estratégia fica praticamente definida”, explica, e os níveis de felicidade estarão estáveis.

Dos setores analisados neste estudo nacional, o que tem maior nível de felicidade em Portugal em 2019 é o da Comunicação e Informação, ao passo que o setor mais infeliz é o Estado. Algo que o professor universitário explica com o facto de o primeiro setor abranger consultoras tecnológicas de IT, “que geralmente têm muitos colaboradores jovens”, e de no último não serem implementadas práticas tendo em vista um melhor “work/life balance”. “No Estado não se promove uma cultura organizacional nem espírito de equipa, por exemplo, fatores que são preponderantes para o desenvolvimento pessoal e profissional dos seus colaboradores”.

Profissionais da felicidade procuram-se

E porque a felicidade das empresas é cada vez mais levada a sério, as organizações já começam a procurar profissionais especialistas em… felicidade. Isso mesmo. De happiness managers a chief happiness officers, eles são a pessoa certa para garantir que os trabalhadores são mais felizes de ano para ano. E já começa a ter bastante oferta no mercado de trabalho. A Aubay Portugal tem estado em campanha de recrutamento para o próximo happiness manager da empresa.

“Anda alguém por aí que a Aubay ainda não conhece, mas que será capaz de não separar gestão de felicidade”, pode ler-se no anúncio, feito pela agência de marketing UNA. Entre as funções a desempenhar estão ser responsável por desenvolver iniciativas que procurem o bem-estar de todos, promover a entrada de novos colaboradores, envolver a Aubay em iniciativas de responsabilidade social e organizar eventos internos como “embaixador da Cultura Aubay”.

Foi a Aubay criou este cargo, tendo sido inovadores “na criação desta posição dentro de uma estrutura empresarial definindo, em concreto, quais as suas áreas de atuação”, pode ler-se no anúncio. Embora o lugar não seja muito claro em termos de requisitos, Georg Dutschke destaca alguns: “Tem de ser alguém que saiba definir as prioridades na empresa, perceber o que motiva a infelicidade dos colegas e que possa traçar um plano de ação e corrigir isso”, aponta.

Copiar os finlandeses é solução?

A Finlândia voltou a ser considerada, pelo segundo ano consecutivo, o país mais feliz do mundo, segundo o relatório mundial sobre felicidade feito anualmente pela ONU.

No mesmo ranking, Portugal ocupa a 66.ª posição, subindo do lugar número 77 de 2018 para 2019. Este fenómeno finlandês é explicado, segundo John Helliwell — um dos responsáveis por este estudo internacional — pela “forma como se vive neste país”. Embora os impostos sejam elevados, estes são frequentemente canalizados para o bem-estar geral da população, com a Finlândia a apostar em mais apoios sociais que garantem que os seus imigrantes são os mais felizes. Até porque “os países com imigrantes mais felizes não são os países mais ricos, mas antes os países com um conjunto mais equilibrado em termos de apoio social e institucional”, pode ler-se no relatório.

Empresas mais felizes são empresas mais produtivas

O estudo “Happiness Works” mede o nível de felicidade dos profissionais em Portugal desde 2011. Segundo estudos recentes, a correlação entre colaboradores felizes e colaboradores produtivos é bastante alta. Não é por isso de estranhar o crescente interesse das organizações neste tema.

Georg Dutschke, um dos fundadores do estudo, explica que o arranque deste estudo, único por cá, se deveu muito à “curiosidade que administradores e diretores de recursos humanos começaram a ter para perceber o que faz ou não os seus trabalhadores felizes” e em que medida o nível de felicidade impactava na empresa.

21.000

→ Este ano foram inquiridas 219 organizações e recebidas mais de 5.000 respostas de profissionais. Ao todo, foram tidas em contas cerca de 21.000 respostas de mais de 300 organizações para os últimos resultados.

Sabia que…? Em 2019, o nível de felicidade organizacional em Portugal está nos 3,8, numa escala de 1 a 5. Ou seja, os profissionais portugueses são “quase felizes”. Este número tem sido constante nos últimos quatro anos. Algo que Georg relaciona com o facto de uma “grande parte das empresas ainda não encarar a felicidade como uma estratégia, mas sim como algo tático” o que, por si só, não colmata o número de colaboradores infelizes.

Falta incutir cultura e liderança

Se planear uma estratégia de felicidade tem falhado entre as prioridades das empresas portuguesas, é porque não basta adotar medidas internas de bem-estar como oferecer a mensalidade de ginásio ou disponibilizar fruta no trabalho.

Na verdade, o que este estudo indica é que é preciso implementar-se “uma verdadeira cultura de felicidade organizacional que, depois, se materialize em ações tangíveis”, pode ler-se. Também a liderança é outro fator preponderante.

Entre as empresas mais felizes do Top 20 estão a McDonald’s, a Hilti Portugal, a Prime IT e a Sodexo.

Georg considera que este tem sido um ponto crucial para muitas multinacionais terem tido um crescimento de felicidade entre os seus colaboradores de ano para ano. “Estas empresas tentam primeiro perceber qual é a raiz do problema, e só depois corrigi-lo. As que olham para a felicidade como algo tático adotam medidas antes de poderem perceber a origem da infelicidade dos seus colaboradores”.

O estudo conclui que profissionais mais felizes são mais produtivos. Isto porque faltam menos e têm menos vontade de mudar de organização. Colaboradores felizes também têm uma melhor relação com o chefe, estão mais abertos à mudança e têm um melhor equilíbrio pessoal.

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