Trabalhar quatro dias por semana? Benefícios e medos de quem já testou (ou está para testar)

A prática é pouco comum mas os benefícios prometem-se evidentes. Aumento da produtividade, motivação e compromisso são as principais vantagens apontadas pelas empresas que já testaram a medida.

Foi no final dos anos 20 que o economista John Keynes disse que, eventualmente, a sociedade evoluiria para uma semana de trabalho de apenas 15 horas, tendo em conta a velocidade dos avanços tecnológicos. Hoje, passado quase um século, essa previsão está longe de se tornar realidade. Mas algumas empresas já dão sinais de que a redução laboral e a flexibilização de horários estão nos seus horizontes.

Estão cada vez mais empenhadas em aumentar a flexibilidade, melhorar o equilíbrio entre a vida pessoal e profissional dos colaboradores e, ao mesmo tempo, aumentar os seus níveis de motivação e engagement. Reduzir o horário laboral pode ser, precisamente, uma maneira de consegui-lo.

E, consequentemente, os níveis de produtividade, bem como de retenção e atração de talento, também podem beneficiar desse horário de trabalho mais reduzido. Pelo menos é o que dizem as empresas que já testaram esta prática.

O que dizem os exemplos nacionais?

Em Portugal ainda é difícil encontrar empresas que tenham implementado a semana de quatro dias de trabalho, mas há quem já tenha dado esse passo. Na Xing, trabalhar de segunda a quinta-feira é um “sonho” tornado realidade. A rede social alemã, com escritório em Matosinhos, oferece aos colaboradores a possibilidade de fazerem um horário mais reduzido.

É uma forma de motivar colaboradores, aumentar níveis de compromisso e até de produtividade, já que, os dias trabalhados revelam-se ainda mais produtivos. O único senão é que ter um horário laboral reduzido representa um corte salarial na proporção, isto é, por cada dia de trabalho reduzido por semana, os funcionários perdem cerca do 20% do salário mensal.

Se a maioria das empresas se mostra receosa quanto à adoção desta medida, também os próprios colaboradores pensam duas vezes antes de adotá-la. Ao contrário do que acontece na Alemanha, em que a medida foi muito bem acolhida pelos colaboradores, em Portugal, por enquanto, só um colaborador adotou este horário mais “leve”.

"As pessoas têm receio pelas suas carreiras, receio sobre a forma como pode ser percebido pela indústria trabalharem quatro dias por semana.”

Miguel Garcia

Country manager da Xing em Portugal

“Não se trata de uma prática popular. Não temos muitos exemplos e não temos muitas referências. As pessoas têm receio pelas suas carreiras, receio sobre a forma como pode ser percebido pela indústria trabalharem quatro dias por semana”, diz Miguel Garcia, country manager da Xing em Portugal, à Pessoas.

Além disso, o responsável pelo escritório da concorrente do LinkedIn em Portugal considera que a faixa etária dos colaboradores pode ser, também, um fator influenciador. “Na Xing de Portugal, a grande fatia das pessoas está em idades jovens e, se calhar, ainda não reconhecem ou sentem a necessidade de trabalhar menos um dia por semana”, explica. “À medida que tivermos equipas mais seniores, talvez esta medida ganhe mais popularidade”, acrescenta.

Miguel Garcia, responsável pelo escritório da Xing em PortugalBruno Barbosa/ECO

É precisamente o que acontece no escritório alemão, onde as equipas são mais seniores e, também, existem outros tipos de funções que não apenas engenheiros. “Até de um ponto de vista cultural, lá é muito mais frequente que as pessoas trabalhem menos um dia por semana. Muitas pessoas aproveitam este regime para dedicar algum tempo à formação, por exemplo”, conta Miguel Garcia.

Já a Xerox Portugal conta à Pessoas que tem estado a avaliar várias dimensões para dotar o horário de trabalho de uma maior flexibilização, entre as quais se encontra a semana de quatro dias. “A vantagem será proporcionar uma contínua melhoria do equilíbrio entre trabalho e vida, bem como aumentar níveis de motivação sem nunca comprometer o compromisso, espírito de equipa e engagement para com a empresa”, começa por explicar Maria Alexandra Pires, diretora de recursos humanos da empresa com sede nos Estados Unidos.

"Uma medida destas irá seguramente também acompanhar uma evolução global da sociedade em Portugal e no mundo.”

Maria Alexandra Pires

Diretora de recursos humanos da Xerox Portugal

O grande desafio para passar da teoria à prática é balancear as motivações individuais de cada pessoa e saber como encaixá-las nos objetivos de negócio. “Temos de estudar em pormenor mais dados analíticos para que a decisão que tomemos faça sentido para nós, enquanto pessoas e enquanto empresa”, diz, acrescentando que este tipo de decisões não pode nunca estar desligado das inerências da forma como o negócio e o mercado estão organizados. “Uma medida destas irá seguramente também acompanhar uma evolução global da sociedade em Portugal e no mundo”, diz.

E lá fora?

Ainda antes do início da pandemia, a Microsoft do Japão testou durante um mês um novo horário laboral de 32 horas semanais, sendo que nas sextas-feiras ninguém trabalhava, e os resultados foram animadores. A produtividade dos colaboradores aumentou 40%, a empresa reduziu a conta da eletricidade em 23% e mais de 90% dos quase 2.300 colaboradores da empresa no Japão consideram ter beneficiado da medida.

Já na Nova Zelândia há uma organização sem fins lucrativos chamada “4 Day Week”, que se dedica a encorajar empresas, colaboradores, investigadores e Governo a desempenharem o seu papel na criação de uma nova forma de trabalho. Segundo Charlotte Lockart e Andrew Barnes, os criadores da organização, esta nova lógica melhora a produtividade das empresas, a saúde dos colaboradores e dos seus familiares, bem como cria um ambiente de trabalho mais sustentável.

“Todas as empresas com as quais conversámos [e que implementaram ou testaram a semana de quatro dias de trabalho] revelam um aumento na produtividade”, afirma Charlotte Lockart, diretora executiva da 4 Day Week, à BBC, acrescentando que o bem-estar dos trabalhadores aumentou e as faltas frequentes ao trabalho diminuíram.

Livro “4 Day Week”, Andrew Barnes

Este é precisamente o tema do livro “The 4 Day Week” de Andrew Barnes, que é responsável por uma equipa de 240 pessoas na Perpetual Guardian, onde também foi testado um horário laboral reduzido. O gestor considera que a semana de trabalho de cinco dias está desatualizada e já não se adequa ao objetivo numa era hiper-conectada. Com a semana de quatro dias de trabalho, Andrew Barnes diz que é possível conseguir o melhor dos dois mundos: excelente produtividade e maior equilíbrio entre trabalho e vida privada.

Mais recentemente, Espanha juntou-se ao rol dos países que equacionam diminuir para 32 horas o período de trabalho semanal. O Governo do país vizinho confirmou estar a estudar a possibilidade de reduzir a semana de trabalho para quatro dias, sem qualquer redução salarial. A ministra do Trabalho espanhola, Yolanda Diaz, defendeu que o “tempo de trabalho exige uma nova conceção” e o secretário-geral do Podemos, Pablo Iglesias, sublinhou que a medida em causa poderá até favorecer a criação de empregos.

“O tempo” como fator de atratividade e retenção de talento

Tanto em Portugal como no estrangeiro, as empresas que já implementaram, testaram ou estão a estudar uma redução do horário laboral consideram que um trabalhador mais feliz é um trabalhador mais produtivo. Contribuir para o equilíbrio entre vida pessoal e profissional, proporcionando “tempo”, é um fator determinante para a satisfação, compromisso e motivação da força laboral, e, consequentemente para a atração e retenção de talento.

“Ao mesmo tempo que se proporciona maior liberdade, também se dá mais responsabilidade. As pessoas sentem-se satisfeitas porque estão numa organização que lhes permite qualidade de vida. E isso contribui para que a empresa seja mais atrativa para novo talento e, também, para que consiga reter os seus profissionais”, afirma o country manager da Xing em Portugal.

"Cada vez as pessoas reconhecem mais que o tempo é um dos bens mais preciosos que têm na vida. Permitir que os colaboradores tenham tempo pode ser algo muito poderoso e que é reconhecido.”

Miguel Garcia

Country manager da Xing em Portugal

“Muitas empresas gastam imenso dinheiro e recursos para tentar gratificar os colaboradores e, às vezes, fazem-no de formas erradas. Cada vez as pessoas reconhecem mais que o tempo é um dos bens mais preciosos que têm na vida. Permitir que os colaboradores tenham tempo pode ser algo muito poderoso e que é reconhecido”, remata.

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