a.c., d.c.

Nesta situação de pandemia, torço para que sejamos resistentes, mas não resilientes, para que o “depois do coronavírus” possa ter algumas coisas em que é melhor que o “antes”.

Já por várias vezes confessei publicamente que milito no optimismo. Como economista, sei que tudo acarreta custos e benefícios, pendendo o balanço ora para um lado, ora para o outro. Como optimista, prefiro focar-me no lado bom das adversidades e escolher o cenário em que as coisas correm melhor. Não está a ser diferente com esta situação de pandemia.

Ocorrem-me logo vários exemplos, vindos de cidadãos anónimos e de empresas, que tão bem ilustram aquilo que dizia Adam Smith na Teoria dos Sentimentos Morais: “Por mais egoísta que se suponha o Homem, evidentemente há alguns princípios na sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte dos outros e considerar a felicidade deles necessária para si mesmo, embora nada extraia disso senão o prazer de assistir a ela”. E, assim, vemos jovens a fazer as compras de quem pertence a um grupo de risco, hotéis e alojamentos locais a disponibilizar os seus quartos para o descanso dos profissionais de saúde, empresas a doar material médico a hospitais, alunos a quem são oferecidos computadores para o ensino à distância, acções de mecenato cultural, etc., etc., etc; são muitas as manifestações de solidariedade, já testemunhadas em crises e calamidades anteriores, que provam que o Homo Economicus não é egoísta nem indiferente à fortuna alheia.

Também não consigo evitar – não que tenha tentado arduamente – regozijar-me por ver tanta gente atenta à informação estatística. A tentar perceber e a discutir o que está incluído nos dados que são publicados, o que significam eles, como são recolhidos, de que modo faz sentido apresentá-los, que comparações internacionais são razoáveis, que modelo matemático melhor os capta. Há muito que insisto que as políticas públicas e os debates em torno delas se devem basear em evidência empírica. Isso parece agora mais claro para a opinião pública. Fico satisfeita por ver as pessoas a compreenderem a importância de decisões alicerçadas na Ciência. E alimento a expectativa de que tenham entendido que isso vai além de questões de saúde pública.

E, por falar em Ciência, ocorre-me que as situações de crise costumam proporcionar avanços tecnológicos e sociais. Por exemplo, a Primeira Grande Guerra contribuiu para a emancipação feminina, enquanto a Segunda foi fundamental no desenvolvimento da aviação. Já no mesmo dia em que a covid era declarada pandemia, João Nascimento criava o projecto OpenAir, para obter ventiladores de código aberto, que fossem fáceis, rápidos e baratos de construir. Um tweet a apelar ao contributo de todos e a plataforma encheu-se de especialistas de diversas áreas; umas semanas depois, nascia o Pneuma, um ventilador que se produz por menos de trezentos euros e que resulta do trabalho conjunto das comunidades médica, científica, tecnológica e industrial, coordenado pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência e pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto.

Respirar melhor tem sido possível também pela redução da poluição atmosférica. Na China, o encerramento de fábricas provocou uma diminuição significativa da concentração de dióxido de nitrogénio na atmosfera. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, as emissões globais de dióxido de carbono deverão descer 6%; não é suficiente para atingir a meta do Acordo de Paris, mas, pela primeira vez em décadas, desapareceu o manto de névoa que impedia que os Himalaias fossem vistos a partir do Norte da Índia. Em Portugal, a organização ambientalista Zero estima que, por dia, se estejam a emitir menos 52 mil toneladas de dióxido de carbono, um decréscimo que em boa parte se deve ao transporte rodoviário.

Naturalmente, não se quer a economia parada e as pessoas enclausuradas em casa. Mas a nova normalidade que dizem vir aí pode fazer-se de mais teletrabalho. Num artigo que escrevi há cerca de dois anos, dizia que as mentalidades não se mudam por decreto. Em tom mais céptico que o habitual, expus um conjunto de circunstâncias que me faziam duvidar da generalização do trabalho a partir de casa (que é como quem diz a partir de onde o trabalhador quiser). Estava optimista em termos de saúde pública e, portanto, longe de imaginar um vírus que ditasse o confinamento e assim empurrasse o mercado laboral português para o século XXI.

O avanço fez-se à bruta: sem planeamento prévio, sem terem experimentado as ferramentas de comunicação e organização, sem reforço do acesso à rede interna (as VPN) e da segurança, com os trabalhadores a acumular as funções com a docência dos filhos. Mas fez-se e está a ser feito. Longe das condições ideais – sobretudo, porque imposto –, mas a mostrar o que é não ter de enfrentar os engarrafamentos da hora de ponta; que os trabalhadores cumprem as suas tarefas mesmo sem estarem sob vigilância; que a competência não é comprometida pela roupa confortável; que é possível ter custos de funcionamento mais baixos; que o horário pode ser mais flexível. Por isso, espero que a partir de agora, nas funções que possam ser exercidas à distância, essa seja uma opção oferecida aos trabalhadores.

Se continuo a pensar que as mentalidades não se mudam por decreto, também não nego que alguns decretos podem ajudar a mudar mentalidades. Faço votos de que seja o efeito de alguma da legislação aprovada neste contexto de emergência. Por exemplo, que se mantenha a aceitação generalizada do pagamento com cartões e sem comissões que o Decreto-Lei n.º 10-H/2020 veio trazer. Ou a facilidade de fazer online o registo de nascimento.

Nesta situação de pandemia, torço para que se encontre um tratamento para a covid, mas que ele não tenha o efeito secundário de acabar com os aspectos que me parecem de progresso e de modernização trazidos por esta crise. Torço para que sejamos resistentes, mas não resilientes, para que o “depois do coronavírus” possa ter algumas coisas em que é melhor que o “antes”.

Nota: A autora escreve segundo a ortografia anterior ao acordo de 1990.

Disclaimer: As opiniões expressas neste artigo são pessoais e vinculam apenas e somente a sua autora.

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