A nossa privacidade não serve para brincar aos dilemas

Ceder a nossa privacidade a troco de "anúncios mais relevantes" é um dilema bacoco - e os dados mostram-nos isso mesmo. É como ter de escolher entre levar pancada ou seguir com a vida.

Em inglês, chamam-lhe um no-brainer: podendo escolher entre levar uma carga de pancada ou seguir tranquilamente com a vida, a maioria optará pela última.

Este dilema barato é uma comparação simplista com o que acontece nos iPhones desde o final do mês passado: podendo escolher entre sermos vigiados na internet ou mantermos a nossa privacidade, a grande maioria opta pela privacidade.

Explico: há menos de um mês que as aplicações do iPhone passaram a ter de pedir aos utilizadores para, querendo, poderem registar o seu comportamento. A decisão resultou numa maior consciência sobre a forma como os nossos dados são usados à nossa revelia, e pôs esta escolha pessoal verdadeiramente nas mãos das pessoas.

Um relatório recente, vindo do grupo Verizon, não deixa margem para dúvidas: só 13% dos utilizadores dizem que sim quando as apps lhes pedem para os seguir, um número que só pode surpreender os mais incautos. Era certo como o destino: se pudermos escolher, geralmente, escolhemos o que nos faz bem.

A Apple é criticável noutros assuntos, mas não depende da publicidade. Por isso, deu-se ao luxo de nos mostrar que o negócio das concorrentes Google e Facebook assenta numa grande mentira — a ideia de que as pessoas preferem ver publicidade mais relevante. Não é verdade, sobretudo quando há uma noção clara de que a escolha é entre algo mundano (“anúncios mais relevantes”) e algo tão nobre (a privacidade).

O dado da Verizon indica ainda outra coisa: que o principal modelo de negócio da internet apresenta falhas brutais. Mais: está sob ameaça existencial, à medida que vamos ganhando mais consciência de como estas empresas geram receitas à custa dos nossos direitos. Contra mim falo: o jornalismo digital ainda usa este modelo, embora cada vez menos, e não exclusivamente em Portugal.

Não vejo soluções milagrosas, mas a via das subscrições tem de ser um dos caminhos a seguir, e não só para os jornais. Vamos gastar cada vez mais online e isso é inevitável quando se fala em “transição digital”, um termo que considero obsoleto.

Quer um exemplo? Vamos pagar para usar o Twitter, caso queiramos ter mais privacidade. Era algo já esperado, mas que agora tem confirmação.

Mas nem tudo tem de ser pago. Felizmente, existem muitas soluções gratuitas que pode adotar, já hoje, para defender a sua privacidade de forma unilateral. Vou contar-lhe algumas que uso.

Pesquisas: Startpage

Já é raro usar o Google no computador. Em alternativa, o Startpage é o meu motor de busca predefinido.

O Startpage está focado na privacidade e usa os mesmos resultados do Google, mas sem a parte que não presta — a das violações da minha privacidade. (Também recomendo o Qwant, embora as pesquisas não sejam tão precisas.)

Browser: Brave

Depois, não vejo qualquer razão plausível para ainda se usar o Chrome.

Há vários meses que uso o Brave, um browser assente no mesmo sistema do Chrome, mas também lhe tira a parte que não presta.

Desde março, o meu Brave já bloqueou 221.772 rastreadores de anúncios, poupou 11,49 GB de largura de banda e economizou 3,1 horas do meu tempo. Entretanto, fiquei a saber que alguns dos sites que visito têm acesso a sensores de movimento do meu computador, algo que nem sabia ser possível.

Mensagens: Signal

Para as conversas, tenho usado cada vez mais o Signal, em alternativa ao WhatsApp. Sobretudo agora que a empresa mudou a política de privacidade para integrar ainda mais o serviço com o Facebook.

Nós, humanos, somos péssimos a estimar custos futuros. E ceder a privacidade em troca de serviços “gratuitos” acarreta desses custos futuros, como o risco de sermos manipulados numa rede social a uma fazer uma compra por impulso.

Qual a conclusão de tudo isto? É a de que, havendo alternativas — e boas alternativas — é mesmo um no-brainer continuarmos a ceder os nossos dados ao desbarato.

Está na altura de tomarmos para nós algum do controlo. Não o fazer é escolher, em consciência, levar a tal carga de pancada enquanto, em alternativa, podemos seguir tranquilamente com a vida.

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