A outra vacina

Nunca nos esqueçamos: votos estúpidos elegem líderes estúpidos. E líderes estúpidos e impreparados são normalmente perigosos.

Adoraria estar aqui a celebrar uma vacina que nos permitisse terminar com esta inimaginável pandemia que entrou pelas nossas vidas e voltar ao que chamamos “normalidade”. Infelizmente, ainda não. Acredito na humanidade. Como sempre tem acontecido nas múltiplas crises da história, ainda que com “sangue, suor e lágrimas”, confio que em breve superaremos esta crise e retomaremos o caminho do progresso e, especialmente, o gozo da liberdade “normal”.

Mas se a vacina para a Covid-19 depende, essencialmente, da comunidade científica, há outra que depende de nós – “comuns cidadãos” – que, com o poder do nosso voto, somos o motor das democracias: a vacina contra líderes irresponsáveis.

Não sou capaz encontrar virtudes nesta pandemia. Sou daqueles que não consegue vislumbrar coisas positivas em desgraças coletivas, ainda para mais quando sofrem e morrem pessoas. Mas há uma coisa que a pandemia escancarou à vista de todos e que devemos guardar para memória futura: o resultado do voto em líderes escandalosamente inaptos. Assistir à “gestão de crise” de Trump ou Bolsonaro deve fazer-nos refletir sobre a responsabilidade que temos no momento em que colocamos uma cruz num boletim de voto. E o voto em pessoas manifestamente inválidas para a atividade governativa só porque estamos fartos do tipo de políticos “standard” que têm predominado nas últimas décadas pode ter resultados nefastos, especialmente em momentos de crise. A prova disso está hoje à vista de todos. Obviamente não foram eles que criaram a pandemia, mas são eles que enquanto líderes têm que guiar a comunidade nesta tormenta. E saber fazê-lo com sentido de responsabilidade e de Estado é uma tarefa crucial.

Olhamos para o que se passa em extraordinários países como os EUA e Brasil e choca assistir à incapacidade dos seus líderes em lidar com factos, em escutar a ciência, em promover a estabilidade e paz social. Há líderes que se superam e surpreendem positivamente nos momentos de crise. Pelo contrário, estes reconfirmam – a cada dia – o que já se percebia no momento da sua eleição. A sua ação política gira em torno do seu próprio ego em detrimento do interesse comum, na promoção do “fake” em vez do “real”, na necessidade de culpabilizar em vez de solucionar, na hostilidade e conflito permanentes com tudo e todos. Está visto que não têm capacidade de ser mais do que sempre foram, mas numa situação de crise – quando são mais necessários – os seus defeitos ficam exacerbados.

Há certamente razões científicas, geográficas e outras para Portugal estar a sair-se melhor nesta crise do que outros países mais prósperos do que nós. Mas também há razões políticas. O caminho é longo e ainda é cedo para retirarmos conclusões definitivas. No entanto, há uma coisa que esta crise já deixa evidente: temos políticos – de diferentes quadrantes – mais responsáveis e sensatos do que pensávamos. Em regra, perceberam bem que este é o momento de remarmos todos para o mesmo lado e que há momentos em que as diferenças têm que ficar de lado. E os nossos políticos têm-se comportado assim nesta fase, não apenas por opção própria, mas porque percebem que a grande maioria dos eleitores portugueses não entenderia outro comportamento. Isso deve ser um motivo de orgulho na maturidade da nossa democracia.

Estamos a viver tempos excecionalmente complexos e é certo que vêm aí tempos economicamente muito difíceis. Provavelmente, o caminho que vai parecer mais tentador será o de apoiar quem “grita mais” e é capaz de “vender banha da cobra” de soluções fáceis. No entanto, para além da tão desejada vacina contra a Covid-19 é fundamental que, enquanto titulares da democracia, saiamos desta crise vacinados contra os “descendentes” de Trump e Bolsonaro, que podem ser de direita e de esquerda. Os que têm uma agenda egocêntrica, os que impulsionam e se aproveitam dos medos próprios da condição humana, os que não têm vergonha de propagar xenofobia, a luta de classes e outras teorias de ódio que visam colocar “pessoas contra pessoas”, fazendo lembrar políticas de líderes do passado responsáveis pelas maiores tragédias da história mundial.

Nunca nos esqueçamos: votos estúpidos elegem líderes estúpidos. E líderes estúpidos e impreparados são normalmente perigosos.

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