A política não é para quem quer fazer, é para quem quer durar

O verdadeiro desafio de 2026 não é apenas escolher um Presidente ou sobreviver aos mercados, é o de, enquanto sociedade civil, termos a coragem de impor o mérito sobre o aparelho.

Na semana passada, escrevi nestas páginas que 2026 não será um ano de resolução, mas de clarificação. Defendi que, num mundo onde a “normalidade” é uma peça de museu e onde a volatilidade se tornou estrutural, só sobreviverá quem tiver a capacidade de ler friamente a realidade. Contudo, identificar o “novo mundo” é a parte mais fácil. Há décadas que os diagnósticos em Portugal são consensuais; as estantes dos ministérios e das autarquias vergam sob o peso de “estudos”, “grupos de trabalho” e “livros brancos”. Aliás Portugal deve ser dos países do Mundo que mais dinheiro atira para cima de estudos, análises e planos estratégicos. Assumindo que estes estudos têm a devida qualidade, o que não é pacífico em muitas situações, e que, portanto, sabemos o que fazer para adaptar o país, por que razão não o fazemos?

A resposta a esta pergunta exige uma franqueza que o exercício de cargos públicos, muitas vezes, coarta, e eu sei isto de experiência própria. Mas é fundamental encararmos a realidade sem filtros para compreendermos a raiz do imobilismo português: O nosso sistema político, tal como está desenhado e praticado, transformou-se num mecanismo de seleção adversa. Em vez de atrair os reformistas, o sistema expulsa-os. E, ao fazê-lo, deixa o campo aberto não para quem tem a ambição de fazer, mas para quem tem, acima de tudo, a vocação de durar.

Durante o meu tempo na Câmara Municipal do Porto, confirmei no terreno uma suspeita antiga: Há dois relógios em Portugal que dificilmente acertam o passo. O relógio da economia real (aquele onde as empresas lutam contra uma carga fiscal desajustada, a carga burocrática e que têm de lidar com os desafios inerentes à “adolescência rebelde” da IA, por exemplo) exige rapidez, previsibilidade e decisão. O relógio da política partidária, pelo contrário, vive da procrastinação, do calculismo e da gestão do ciclo político e mediático imediato.

Quem vem da sociedade civil, das empresas ou da academia, como foi e volta a ser o meu caso, entra na vida pública movido pela ingenuidade útil de achar que a política é a alavanca para transformar a realidade. Depressa colide com a “máquina”. A máquina não é apenas a burocracia do Estado (essa, com esforço e liderança, domina-se como penso consegui demonstrar nas áreas onde tive intervenção), a verdadeira máquina é a cultura de sobrevivência que se instalou no coração do Estado.

Quem entra para fazer reformas a sério acaba exaurido não pela complexidade técnica dos dossiês, mas pela energia dissipada em jogos florais e na espuma dos dias. O custo de oportunidade para quem tem carreira e vida própria fora da política torna-se insuportável. O resultado? Os competentes saem. Batem com a porta ou cumprem a sua missão e regressam à base. E quem fica? Ficam, na sua maioria, os que não têm para onde ir. Ficam os profissionais do aparelho, para quem a política não é uma missão de serviço público, mas um modo de vida.

Para um gestor habituado a lidar com “Mercados de Capitais maníaco-depressivos”, um problema é algo para resolver. Para o político profissional clássico, moldado nas “jotas” e nos aparelhos, um problema é algo para gerir. Resolver um problema estrutural implica custos imediatos, implica desagradar a corporações instaladas e assumir riscos. Gerir um problema, pelo contrário, permite ir “navegando à vista”, distribuindo benesses simpáticas e garantindo que a carreira continua intacta até à próxima eleição.

É aqui que reside a tragédia dos reformistas em Portugal. Quem entra para fazer reformas a sério acaba exaurido não pela complexidade técnica dos dossiês, mas pela energia dissipada em jogos florais e na espuma dos dias. O custo de oportunidade para quem tem carreira e vida própria fora da política torna-se insuportável. O resultado? Os competentes saem. Batem com a porta ou cumprem a sua missão e regressam à base. E quem fica? Ficam, na sua maioria, os que não têm para onde ir. Ficam os profissionais do aparelho, para quem a política não é uma missão de serviço público, mas um modo de vida.

Esta “seleção adversa” cria um vazio perigoso de liderança. O Estado vai sendo ocupado por quem privilegia a tática sobre a estratégia e o ruído sobre a substância. Olhamos para o Parlamento e o que vemos frequentemente? Excitação permanente. Vemos uma infantilização do discurso público onde a moderação é vista como fraqueza e a gritaria como prova de vida.

É precisamente por causa deste diagnóstico que, tal como referi no meu artigo anterior sobre a necessidade de “gravitas institucional”, encaro as próximas eleições Presidenciais como decisivas. Se a dinâmica partidária tende a expulsar a sensatez, cabe à Presidência da República forçar a reintrodução dessa sensatez no sistema.

Portugal precisa, desesperadamente, de “adultos na sala”. Precisa de lideranças que não tenham medo de ser “aborrecidas” se isso significar serem competentes e previsíveis. Precisa de quem valorize a serenidade na análise em vez do ruído na comunicação. Precisa, tal como escrevi na semana passada, de um “silêncio competente” em vez de afetos performativos.

Quando olho para o cenário geopolítico atual, da Ucrânia a Taiwan, passando pela detenção de Maduro, vejo um mundo perigoso que não se compadece com amadorismos. As empresas não investem no caos. O talento não se fixa na incerteza. A prosperidade não floresce num país onde as regras mudam conforme a conveniência do titular do cargo.

O meu regresso pleno à atividade privada renova a minha convicção liberal: A sociedade civil é o motor, o Estado deve ser apenas o facilitador. Mas para que o Estado deixe de ser o travão, o árbitro do sistema tem de funcionar e a “bancada” tem de ser exigente. Enquanto aceitarmos que a política seja um reduto de sobrevivência e não de excelência, seremos cúmplices da nossa própria estagnação.

O verdadeiro desafio de 2026 não é apenas escolher um Presidente ou sobreviver aos mercados, é o de, enquanto sociedade civil, termos a coragem de impor o mérito sobre o aparelho. Não podemos continuar a aceitar passivamente um país onde os mais capazes gerem as empresas e os mais astutos gerem o Estado. Exigir que os melhores assumam funções públicas, e criar condições para que o queiram fazer, deixou de ser um desejo idealista; é hoje um dever de emergência nacional. Se queremos resultados diferentes, temos de ter a coragem de escolher protagonistas diferentes.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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