A resignificação do absurdo

  • Mário Ceitil
  • 28 Agosto 2020

A coerência e constância percetivas protegem-nos das angústias da incerteza, dando-nos uma sensação de que a realidade tende a ser mais ou menos uma recombinação dos elementos (re)conhecidos.

Introdução ao absurdo

“A fome de significado é uma das mais ancestrais necessidades humanas”, como já tive ocasião de escrever noutro espaço. Isto é assim pelo menos desde que o processo evolutivo se encarregou de dotar a espécie humana dessa coisa estranha chamada mente que, por sua vez, suporta e sustenta uma outra coisa mais inquietante chamada consciência.

É através da consciência, esse atributo que faz com que o ser humano se distinga de todos os outros seres vivos por ser o único “dotado de subjetividade” (Damásio, 2017), que organizamos os nossos modos-de-nos-vermos a nós próprios e ao mundo que nos rodeia, de modo a que deles tenhamos uma representação coerente e de alguma constância. Essa coerência e constância percetivas, por sua vez, protegem-nos das angústias da incerteza, dando-nos uma sensação, muitas vezes ilusória, de que a realidade tende a ser mais ou menos uma recombinação dos elementos (re)conhecidos no presente e que servem de base à construção de cenários de vida e às nossas projeções de um sentido harmonioso de futuro.

Nesta perspetiva, a constância percetiva, enquanto atributo da mente consciente, constitui um dos elementos fundamentais da “homeostasia”, definida por Damásio como “o poderoso imperativo inato cujo cumprimento implica, em cada organismo vivo, seja ele grande ou pequeno, nada mais, nada menos do que persistir e prevalecer” (op.cit).

Em síntese, uma certa quantidade de constância e uma gestão devidamente regrada de doses prudentes de novidade constituem apetrechos mentais para que o tal ser vivo dotado de subjetividade (ou seja, nós) possa viver a sua vida sem grandes sobressaltos (“persistir”) e preparar o futuro com segurança e tranquilidade (“prevalecer”).

Esta constância percetiva, para se tornar numa verdadeira ferramenta de “homeostasia”, precisa de ser organizada em símbolos consubstanciados em histórias, em figuras de heróis e vilões, em artefactos físicos e simbólicos que representem valores, ideias e filosofias e que nutram os humanos do seu irreprimível desejo de significado.

O mesmo imperativo homeostático converte esses símbolos em ícones culturais, para que os valores neles representados possam constituir os alicerces para a edificação das sociedades futuras, numa lógica de devir que se imagina, e se deseja, sem grandes desvios e sobretudo sem ruturas.

Tudo o resto, tudo aquilo que não se encaixa nesta normatividade construída é obstaculizado e combatido, os seus arquétipos são destruídos e os significados alternativos são remetidos, por vezes brutalmente, para os subterrâneos obscuros das categorias do absurdo.

A resignificação do absurdo

Na sequência do exposto no ponto anterior, o absurdo é tudo aquilo que, por ser/parecer tão diferente, não encaixa no conjunto organizado dos nossos significados consentidos. Como tal, é olhado com estranheza, com suspeição, no mínimo com embaraço e, mais habitualmente, com rejeição liminar e acrítica.

Se o mundo fosse realmente (mais ou menos) constante, se a vida e o seu eterno devir fossem realidades quase-estacionárias, como sustentam alguns modelos teóricos, as sociedades até poderiam viver tranquilamente com uma gestão equilibrada da sua “economia de sobressaltos”. No entanto, as próprias leis biológicas nos alertam para que as ideias de “equilíbrio” e de “constância” podem ser falaciosas, no sentido de nos darem uma noção errada das condições necessárias para que a vida, além de “persistir”, possa “prevalecer”. Como afirma Damásio, “aquilo que é preciso evitar, quando lidamos com a vida, é o “equilíbrio”, porque, termodinamicamente falando, equilíbrio significa diferença térmica e morte.” (op.cit.).

Hoje, em contextos sociais e culturais onde, como é já habitual dizer-se, “a mudança é a única constante” e onde, por emanação dessa constante inconstância, nos confrontamos quotidianamente com situações que noutros tempos considerávamos aberrantes e que diabolizávamos justamente sob o epíteto de “absurdas”, somos todos convocados a fazer uma espécie de upgrade dos nossos sistemas de representação e organização percetivas e não só aprendermos novas formas produtivas de lidar com as “aberrações”, mas a celebrá-las como expressões dos novos sentido de humanidade onde vamos passar a viver e a progredir.

Saliente-se que não se trata apenas de aceitar os eventuais “absurdos”; é preciso ir mais além e produzir verdadeiras e profundas “resignificações”, ou seja, mudar a “moldura” percetiva na qual atribuímos significados aos diferentes eventos. Como é assinalado na sinopse do livro “Resignificando”, de Bandler & Grinder, “se mudarmos a moldura, mudamos o significado. Mudando o significado, mudamos também as respostas e o comportamento das pessoas.”

E, num mundo onde finalmente o absurdo é a expressão criativa e irreverente dos novos significados emergentes, rejeitar os possíveis sentidos ocultos de uma situação, apenas porque parece absurda, tem um efeito semelhante ao de não escrever cartas de amor “como as outras, ridículas” no famoso poema de Fernando Pessoa: absurdos são todos aqueles que não têm comportamentos como os outros, absurdos.

Referências:

BANDLER, R. & GRINDER, J. (1986). Resignificando: Programação Neuro-Linguística e Transformação de Significado (8ª ed.) Rio de Janeiro: Editora SUMMUS.

DAMÁSIO, A. (2017). A Estranha Ordem das Coisas. Lisboa: Temas e Debates – Círculo de Leitores.

*Mário Ceitil é presidente da APG e coordenador do Executive Master em Gestão Estratégica de Pessoas e Liderança do ISCTE/Executive Education.

  • Mário Ceitil

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