A Última Linha de Defesa no ORSA

  • Nuno Oliveira Matos
  • 2 Novembro 2025

Consolidado o processo dos testes de stress junto das seguradoras, Nuno Oliveira Matos dá um passo em frente, para o "reverse stress testing", para cenários de colapso de uma seguradora.

Num setor sujeito a riscos cada vez mais complexos como volatilidade macroeconómica, choques climáticos, ciberataques e transformações demográficas, os exercícios de stress testing tornaram-se uma prática consolidada. Porém, os testes tradicionais apresentam uma fragilidade estrutural; partem de cenários mais ou menos previsíveis, mas tendem a falhar na identificação dos pontos de rutura verdadeiramente críticos. É aqui que o reverse stress testing assume um papel insubstituível.

Ao inverter a lógica tradicional, o reverse stress testing parte da pergunta mais dura: “Que cenários poderiam pôr em causa a sobrevivência da empresa de seguros?”. A partir daí, reconstrói-se o caminho até esses estados extremos, expondo vulnerabilidades que de outro modo ficariam invisíveis. Reguladores como a Autoridade Bancária Europeia (EBA) e o Banco de Inglaterra têm sublinhado que este exercício ajuda a combater a chamada disaster myopia, i.e., a tendência para ignorar riscos de baixa probabilidade mas de impacto devastador.

No âmbito da autovaliação do risco e da solvência (ORSA), a integração do reverse stress testing não é apenas recomendável, é crítica. O ORSA exige uma visão prospetiva e integrada da resiliência de cada empresa de seguros. Sem a disciplina de cenários inversos, o processo arrisca-se a ser meramente formalista, em vez de funcionar como uma verdadeira ferramenta estratégica de gestão de riscos e de capital. Identificar antecipadamente os “gatilhos” que poderiam tornar uma carteira insustentável permite aos conselhos de administração definir planos de mitigação concretos, reforçar controlos e, em última análise, proteger os tomadores e beneficiários e, não menos relevante, a estabilidade do mercado.

É certo que estes exercícios comportam desafios metodológicos, desde a definição de métricas consistentes até à necessidade de superar limitações de modelos internos. Mas não avançar nesta frente seria muito mais arriscado. A prática internacional mostra que as empresas de seguros que incorporam regularmente reverse stress testing nos seus processos decisórios desenvolvem maior transparência, melhor preparação para crises e maior confiança junto de supervisores e investidores.

Em última análise, o reverse stress testing obriga as empresas de seguros a enfrentar a pergunta que muitas vezes preferem evitar: “O que nos poderia realmente levar ao colapso?”. A resposta a esta pergunta e a capacidade de agir sobre ela é o que distingue as empresas de seguros resilientes das que ficarão pelo caminho na próxima crise.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Sócio da Carrilho & Associados, SROC

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