As 50 sombras da violênciapremium

Violência de género não são só sobre assassinatos: é a ponta do iceberg. E é urgente que aprendamos, mais do que a identificá-la, a ser conscientes dela. Pelo nosso bem, e do da mulher ao nosso lado.

Esta semana assinalou-se o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra as Mulheres. A esse propósito, a Comissão para a Cidadania e Igualdade lançou a campanha #PortugalContraAViolência, com a colaboração da AMCV – Associação de Mulheres Contra a Violência, Associação Projeto Criar, Associação Ser Mulher, APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, Associação Plano I, Associação Portuguesa de Mulheres Juristas, Coolabora, Cruz Vermelha Portuguesa, Movimento Democrático de Mulheres, Mulheres Século XXI, UMAR – União das Mulheres Alternativa e Resposta e Quebrar o Silêncio Associação.

Divulgada em vários órgãos de comunicação social de âmbitos nacional, regional e local, a campanha "reforça a vigilância contra a violência doméstica e alerta para os impactos deste crime, não só nas mulheres mas também nas crianças". Um dos números em que assenta esta iniciativa é o de respostas especializadas de atendimento e acolhimento da Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica que, com cobertura de 95% do território nacional, registou até final do passado mês de setembro, 97.172 atendimentos.

Vale a pena falar de violência porque ela existe: a fórmula a que ela responde, onde ela se constrói, é tão vaga como a subjetividade do sujeito a quem ela toca. Muitas vezes, sustentamos a ação nos números de mortes de mulheres, vítimas de violência doméstica. Marca, claro: entre 1 de janeiro e 15 de novembro de 2021, por exemplo, foram assassinadas 23 mulheres, 13 das quais em contexto de relações de intimidade, contabiliza o Observatório de Mulheres Assassinadas (OMA). Durante o mesmo período, há ainda o registo de 50 tentativas de assassinato, 40 das quais em contexto de violência doméstica.

A morte -- o número de mortes -- marca o compasso de uma realidade que não temos, enquanto sociedade, conseguido combater com a velocidade que ela nos exige. Mas, e antes da morte?

A violência de género tem tantas formas que dispensa uma fórmula: apresenta-se sob os mais diversos cinzentos. E é neles que proponho que aumentemos a nossa consciência, como arma fortíssima de prevenção e reação. É que: violações também são violência de género; o menosprezo das dores e do sofrimento das mulheres num hospital, "porque estão a exagerar", também é violência de género; impossibilitarem o acesso de mulheres a lugares de topo em empresas e outras organizações também é violência de género; o uso do silêncio como arma também é violência de género; o escrutínio e a instrumentalização dos corpos femininos também é violência de género; que as doenças que só afetam mulheres tenham menos orçamento de investigação também é violência de género; caminhar sozinha à noite, e com medo, também é violência de género; que te perguntem se queres ser mãe ou que não te contratem se disseres que sim, também é violência de género; que se olhe de lado para uma mulher que tem de faltar ao trabalho para acompanhar algum familiar também é violência de género; que a sociedade considere que uma licença parental partilhada é "coisa de fracos" também é violência de género; piropos são violência de género; a falta de respeito pelas opiniões e pontos de vista diferentes é violência de género.

A violência de género não são só sobre assassinatos: essa é a ponta do iceberg. E é urgente que aprendamos, mais do que a identificá-la, a ser conscientes dela. Pelo nosso bem, pelo de qualquer outra mulher que viva ao lado, e pelo das mulheres que fomos e que seremos um dia.

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