“Blind Intelligence”

  • Nuno Oliveira Matos
  • 12:17

Nuno Oliveira Matos está a assistir à construção de casas de dados a partir do telhado e assim introduz o conceito de “camada de confiança” porque é perigoso e silencioso decidir sobre má informação.

Há uma narrativa silenciosa, mas profundamente enganadora, a ganhar terreno na indústria seguradora portuguesa, a de que a convicção que o futuro será decidido por algoritmos mais sofisticados, dashboards mais elegantes e modelos analíticos mais avançados.

No entanto, essa obsessão pela camada visível da transformação digital está a desviar a atenção do verdadeiro ponto de fragilidade e de diferenciação que reside muito mais abaixo da superfície, a qualidade dos dados.

A realidade é menos confortável do que muitos gostariam de admitir. Não existe inteligência artificial, nem business intelligence, nem qualquer forma de decisão orientada a dados que possa sobreviver sem confiança na matéria-prima que a alimenta. E, num setor como o segurador, onde cada decisão influencia pricing, gestão de sinistros, provisões técnicas e cumprimento regulatório, confiar em dados imperfeitos não é apenas uma ineficiência; é um risco estrutural silencioso.

O que muitas empresas de seguros ainda não reconheceram é que uma grande parte do investimento em business intelligence está a transformar-se, na prática, num exercício de encenação. Visualizações sofisticadas e relatórios interativos criam uma sensação de controlo e modernidade, mas se os dados subjacentes são inconsistentes, desatualizados ou mal definidos, então o que se produz não é conhecimento, mas sim uma ilusão bem formatada.

Nesse contexto, os decisores deixam de agir sobre a realidade e passam a reagir a representações imperfeitas da mesma, o que, numa indústria de margens pressionadas e elevada concorrência, pode ter consequências materiais.

É por isso que começa a emergir, entre as empresas de seguros mais maduras, a noção de uma “camada de confiança”, uma infraestrutura invisível que sustenta toda a máquina analítica e que garante que cada número pode ser rastreado, explicado e defendido. No contexto português, esta necessidade não é apenas estratégica, mas também inevitável, dada a pressão regulatória crescente e a necessidade de assegurar consistência em frameworks como o de Solvência II. Ainda assim, cumprir requisitos mínimos está longe de ser suficiente. A questão que verdadeiramente importa é se as empresas de seguros estão, ou não, preparadas para confiar profundamente nos seus próprios dados no dia-a-dia das operações.

Essa confiança não surge por acaso, nem pode ser importada através de tecnologia. Ela constrói-se através de disciplina e de escolhas organizacionais claras. Implica, antes de mais, que as empresas de seguros estabeleçam contratos explícitos sobre os dados, alinhando definições entre áreas que historicamente operam com lógicas distintas. Quando diferentes departamentos têm interpretações divergentes sobre o que constitui um sinistro ativo ou um prémio ganho, a organização deixa de ter uma versão única da verdade e passa a operar num estado permanente de ambiguidade.

Ao mesmo tempo, a rastreabilidade torna-se essencial. Num ambiente onde os dados atravessam múltiplos sistemas e transformações, a incapacidade de perceber rapidamente de onde vem uma variação num indicador revela uma fragilidade crítica.

Sem uma visão clara do percurso dos dados, qualquer alteração num sistema de origem pode propagar-se silenciosamente e comprometer decisões em níveis superiores, sem que ninguém perceba exatamente porquê.

Paralelamente, há uma dimensão frequentemente ignorada, a necessidade de tratar a qualidade dos dados como algo mensurável e gerido com o mesmo rigor que outros indicadores de risco ou de performance.

Definir expectativas claras sobre atualidade, completude e consistência não é um exercício técnico, é uma decisão de gestão que determina até que ponto a empresa de seguros está disposta a confiar nos seus próprios números. Sem essas métricas, a responsabilidade dilui-se e a qualidade dos dados torna-se um problema difuso, pertencente a todos e, na prática, a ninguém.

Finalmente, há a questão da proatividade. Muitas empresas de seguros continuam a descobrir problemas de dados apenas quando estes já produziram efeitos visíveis, seja num relatório inconsistente, numa auditoria ou numa decisão que não se confirmou correta. A ausência de mecanismos de monitorização contínua transforma a organização numa entidade reativa, incapaz de antecipar falhas, num sistema que depende precisamente da precisão para funcionar corretamente.

O ponto mais desconfortável, mas também mais inevitável, é que tudo isto tem um impacto direto e mensurável no negócio. Dados imprecisos comprometem o pricing, obscurecem padrões de fraude, distorcem provisões técnicas e minam a credibilidade perante reguladores e parceiros. No limite, a prazo, tornam-se um fator silencioso de erosão financeira.

A transformação digital da indústria seguradora portuguesa dificilmente falhará por falta de tecnologia. As ferramentas existem, são cada vez mais acessíveis e estão amplamente comprovadas. O que está verdadeiramente em causa é a capacidade das empresas de seguros enfrentarem uma realidade menos glamorosa, a de que a maturidade analítica não começa com modelos avançados, mas com a integridade dos dados que os alimentam. E essa é uma transformação mais exigente porque implica mudar comportamentos, impor disciplina e aceitar que o progresso nem sempre é visível no curto prazo.

Talvez por isso a pergunta mais relevante que os líderes do setor deveriam colocar não seja sobre que capacidades analíticas querem desenvolver a seguir, mas sim sobre se podem confiar plenamente naquilo que já produzem hoje. Enquanto essa resposta não for inequívoca, toda a ambição tecnológica corre o risco de assentar sobre uma base frágil, onde a sofisticação esconde, em vez de resolver, as fragilidades fundamentais.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Sócio da Carrilho & Associados, SROC

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