COSO AI

  • Nuno Oliveira Matos
  • 19 Julho 2026

Nuno Matos atualiza informações vindas do Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission (COSO) e confirma que a gestão de riscos está a entrar numa nova fase.

A mais recente produção do Committee of Sponsoring Organizations of the Treadway Commission (COSO) não é apenas mais uma atualização técnica. É, sobretudo, um sinal claro de que a gestão de riscos está a entrar numa nova fase, onde a inteligência artificial generativa (GenAI), a governação corporativa e o enterprise risk management (ERM) deixam de ser domínios paralelos para passar a formar um sistema interdependente, algo particularmente relevante para o setor segurador.

A publicação Achieving Effective Internal Control Over Generative AI (GenAI) surge num momento em que a adoção acelerada destas tecnologias já ultrapassou a fase experimental. As empresas de seguros utilizam GenAI para pricing, subscrição, atendimento ao cliente, deteção de fraude e gestão de sinistros. No entanto, esta rapidez expõe riscos novos, como enviesamentos algorítmicos, falhas de controlo, opacidade nos modelos e vulnerabilidades em compliance.

O mérito do COSO está em não reinventar a roda, mas sim em adaptar os seus princípios clássicos de controlo interno a este novo contexto. A mensagem simples e poderosa é a de que os fundamentos do COSO continuam válidos, o que muda é a sua aplicação.

Para o setor segurador, isto significa abandonar a tentação de tratar a GenAI como uma “caixa preta tecnológica” e integrá-la plenamente nos sistemas de controlo interno existentes. Não se trata de criar estruturas paralelas, mas de reforçar as atuais com competências digitais, governance de dados e capacidades de auditoria interna adaptadas ao novo risco tecnológico.

Paralelamente, o documento Corporate Governance: Guiding Principles for Board Oversight recorda-nos um ponto essencial, que o risco não é apenas técnico, é também, e sobretudo, uma questão de supervisão. Num ambiente de mudança acelerada e crescente escrutínio por parte de reguladores e demais stakeholders, os conselhos de administração enfrentam o desafio de garantir que os seus modelos de governação continuam “fit for purpose”.

Os princípios apresentados pelo COSO funcionam como um referencial útil para avaliar a eficácia da supervisão ao mais alto nível. No setor segurador, onde a confiança é o principal ativo, isto traduz-se na necessidade de boards mais informados, mais diversos e com maior literacia tecnológica. A GenAI não pode ser um tema delegado exclusivamente às áreas de IT ou inovação; exige envolvimento estratégico ao nível do topo.

Por fim, From Guidance to Action: Exploring Practical Enterprise Risk Management talvez seja o documento mais pragmático dos três. Durante anos, muitas organizações caíram na armadilha de transformar o ERM num exercício documental, sofisticado no papel, mas com impacto limitado na tomada de decisão. O COSO procura agora fechar esse gap, enfatizando a aplicação prática do risco na estratégia e na performance.

Para as empresas de seguros, esta abordagem é particularmente crítica. Num negócio intrinsecamente baseado na avaliação, gestão e absorção de riscos, o ERM não pode ser um processo estático. Deve ser dinâmico, integrado e orientado à criação de valor. A incorporação da GenAI neste sistema não é opcional; é um fator determinante para a resiliência futura.

Em conjunto, estas três iniciativas do COSO apontam para uma mesma conclusão: o futuro da gestão de riscos depende da capacidade das organizações em integrar tecnologia, governação e estratégia num modelo coerente. No setor segurador, essa integração será o diferencial entre liderar a transformação ou ficar exposto às suas disrupções.

Mais do que orientações técnicas, estes documentos são um convite à ação. E, num contexto de incerteza crescente, agir cedo pode ser a melhor apólice de seguro.

  • Nuno Oliveira Matos
  • Sócio da Carrilho & Associados, SROC

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