Editorial

Centeno está isolado. No PS e no Governo

Ministro das Finanças vai trocar o silêncio pela nomeação para governador do Banco de Portugal ou vai bater o pé, fechar o cofre e deitar as chaves fora?

Mário Centeno é hoje um ministro isolado, dentro do Governo e no PS, e sem proteção política do primeiro-ministro. Isolado e cercado. É este o contexto em que está a trabalhar na proposta de Orçamento do Estado para 2020, com pressões e influências de todos os lados. Os ministros das Finanças costumam dizer que o orçamento seguinte é o mais difícil de sempre. O de 2020, para Centeno, não será apenas o último, será mesmo o mais difícil, e não é por boas razões.

Mário Centeno é um ministro que tenta resistir ao Governo — à maioria dos ministros que o integram — e ao partido que suporta o Governo, o PS. Não é sempre assim? É, é esse o papel do ministro das Finanças, a conhecida ditadura das Finanças, mas agora há uma enorme diferença, é que Centeno não tem o apoio de António Costa. O primeiro-ministro suporta o ministro das Finanças, mas na prática já o descartou. O ministro das Finanças, esse, está em posição frágil, porque precisa do primeiro-ministro para ser governador do Banco de Portugal. É uma relação política totalmente desequilibrada, foi quase sempre assim, mesmo quando Centeno era o “Ronaldo das Finanças”. Como o outro Ronaldo, agora, Centeno já está muitas vezes no “banco”, sai a meio do jogo e às vezes nem chega a equipar-se.

Centeno enfrenta, em primeiro lugar uma força negativa dentro do próprio Governo com uma guerra surda com Pedro Siza Vieira. É discreta, mas é até mais dura do que aquela que o ministro das Finanças tem agora com o próprio partido. O ministro de Estado e a Economia (e da Transição Digital) manda mesmo, com a cobertura do primeiro-ministro. Por exemplo, no chamado Banco Promocional (conhecido em tempos por ‘banco de fomento’), as Finanças estão completamente a leste. Nada passa pelo gabinete de Centeno. Nem um diploma, nem uma lei.

Outro exemplo: Está em curso uma perda de poder de Mário Centeno nas PPP, processo também conduzido por detrás por arbustos por Pedro Siza Vieira, com o silêncio cúmplice do primeiro-ministro. Há mudanças na lei da contratação pública, há mudanças na lei orgânica do Governo, há jogos de bastidores que contornam a intervenção do ministro que tem, ou deveria ter, o poder de veto. As PPP são, como se sabe, uma fonte de risco orçamental. E vão estar em roda livre.

E o PS? Quando se lê as declarações de Carlos César ou de Ana Catarina Mendes sobre o estado da saúde, que está efetivamente doente, percebe-se que são mais recados para Centeno do que propriamente para os portugueses. Os ministros querem gastar, sobretudo neste segundo mandato, previsivelmente o último deste ciclo político, para alimentarem as corporações. Ou querem poder, para si e para terceiros, para o dia seguinte, para quando passarem ao estatuto de ex-ministros.

A proposta de Orçamento do Estado para 2020 está aí a chegar, Centeno quer apresentar um excedente orçamental, e sobretudo cumprir as exigências de Bruxelas na redução do défice estrutural. O orçamento vai ser entregue no Parlamento no próximo dia 16 de dezembro. Será o tira-teimas. Centeno vai trocar o silêncio e a complacência pela nomeação para governador do Banco de Portugal ou vai bater o pé, pôr fechaduras na porta e deitar fora as chaves, e arriscar regressar ao Banco de Portugal pela porta pequena?

A opção de Centeno não é neutra. Para o próprio, mas sobretudo para as contas do Estado e para a economia do país.

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Centeno está isolado. No PS e no Governo

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião