Correlações

  • Rui Amendoeira
  • 22 Maio 2021

Quando as habituais correlações económicas deixam de funcionar, e a navegação na bolsa perde a bússola, normalmente instala-se a complacência ou excesso de confiança entre os investidores.

Correlação.

Palavra definida como a “relação ou dependência mútua entre pessoas, coisas, ideias, etc.”, faz parte do dia a dia de qualquer investidor bolsista, e é uma arte que se aprimora com o tempo e a experiência. Saber fazer a correlação certa entre um acontecimento presente e a probabilidade de um acontecimento futuro, este último provocado ou decorrente do primeiro, permite ao investidor pré posicionar-se e (potencialmente) lucrar com o movimento de antecipação.

Exemplos simples: se o preço do petróleo disparar, as companhias aéreas vão ter custos operacionais (muito) mais elevados, logo o investidor poderá apostar na queda (“shortar”) das ações dessas companhias; a eminência de um conflito militar induz o aumento do orçamento com a defesa e, consequentemente, torna o investimento nos fabricantes de armamento mais atrativo; numa causalidade mais circunscrita, se um fabricante de telemóveis perde quota de mercado e entra em dificuldades, o operador bolsista atento procura identificar, e apostar contra, os fornecedores mais dependentes ou expostos a esse fabricante. Cada evento de mercado é uma boneca matrioska com várias bonecas (ou seja, potenciais futuros eventos) dentro si, e a arte de investir passa por descobrir e antecipar essas bonecas/futuros eventos.

Os movimentos macroeconómicos são particularmente propícios ao estabelecimento de correlações com efeitos nos mercados bolsistas. Veja-se o caso da taxa de desemprego, quando esta desce é sinal de que a atividade económica está a crescer (ou “aquecer”), logo a bolsa terá tendência a subir. Mas quando a inflação sobe, os lucros futuros das empresas podem ser afetados, pelo que as bolsas reagem, em regra, negativamente. Se estas correlações se estabelecessem sempre do modo previsto, os investidores bolsistas teriam a vida facilitada. Bastava ter uma cábula de causalidades, agir em conformidade com as mesmas e colher os respetivos benefícios. Ora, a realidade é (sempre) mais complexa que as formulações teóricas. Qualquer investidor sabe que, na prática, as correlações teóricas frequentemente não ocorrem como previsto, e por vezes o efeito produzido é diametralmente oposto ao esperado.

A dificuldade de estabelecer, e investir em torno de correlações tem-se acentuado bastante no último ano e desde a emergência da Grande Pandemia. O responsável por este fenómeno é a instituição banco central, em especial o Federal Reserve americano (Fed). Na sua voragem de apoiar a economia (quase) sem limites, e evitar uma recessão pandémica, o Fed desconstruiu as clássicas causalidades económicas, ao procurar garantir que o output é sempre mesmo qualquer que seja o input.

Vejamos: A taxa de desemprego reduz menos que o esperado – esse facto é positivo ou negativo para os mercados bolsistas? Depende, é a resposta. Pode ser negativo porque é um indicador de que a economia está a recuperar mais lentamente. Ou pode ser positivo na medida em que essa recuperação mais lenta garante que o Fed não diminui tão cedo o seu apoio à economia. O yield das obrigações do tesouro sobe, como é que os mercados bolsistas devem reagir? Normalmente de forma negativa, mas também aqui o efeito pode ser o inverso pela mesma razão: o Fed pode manter a taxa de juros comprimida para continuar a suportar a economia e reflexamente os mercados de capitais. Ou seja, tudo é relativo e (quase) tudo depende da vontade do Fed e da sua capacidade de pilotar a economia e, consequentemente, os mercados bolsistas.

Quando as habituais correlações económicas deixam de funcionar, e a navegação na bolsa perde a bússola, normalmente instala-se a complacência ou excesso de confiança entre os investidores. Para quê seguir regras e manter a disciplina se, no final do dia, “vai ficar tudo bem”? Alguns investidores tornam-se artistas de circo, deslumbrados com as suas piruetas e malabarismos, convencidos de que existe uma rede por debaixo chamada Fed.

O problema é que num ambiente em que nada parece ser consequencial ou ter significado, qualquer acontecimento, de repente, pode desencadear o medo ou mesmo o pânico. Se olharmos para a história, as quedas bolsistas por vezes têm origem num evento trivial, ou num “não evento”, quando nem se consegue identificar o que esteve na origem da queda. O mesmo mecanismo psicológico que está na base do sentimento “vai ficar tudo bem” é o que provoca o “vai ficar tudo mal”, e a distância entre os extremos pode ser muito pequena.

  • Rui Amendoeira
  • Managing Director - RLA Consultants Limited

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