Da presença ao compromisso

  • Marta Reis
  • 14:00

Acredito que o 'engagement' não se exige nem se ativa - constrói-se. É uma consequência da forma como o trabalho é vivido.

Tenho pensado com frequência na forma como abordamos o envolvimento das pessoas no trabalho. Não tanto sobre a importância geral do tema, mas sim a facilidade com que se transforma o engagement num indicador, numa iniciativa ou num plano de ação, como se o mais importante fosse medi-lo, ativá-lo ou corrigi-lo, antes de se compreender o que o motiva – ou não. Talvez o problema não seja a falta de engagement, mas a forma como as organizações continuam a tentar criá-lo como se fosse um processo mecânico.

À partida, existe uma diferença importante entre estar presente e estar envolvido. É perfeitamente possível acompanhar uma reunião, responder a e-mails, executar outras tarefas e cumprir prazos sem que exista um verdadeiro investimento pessoal. Pode ser considerado responsabilidade; pode ser profissionalismo; pode, até, ser assumido como competência, mas não é, necessariamente, compromisso.

O envolvimento que gera compromisso começa noutro lugar: na atenção, na energia, na disponibilidade mental e na vontade real de contribuir para algo maior, assim como na perceção de que aquilo que fazemos tem um sentido e de que há espaço para participar com autenticidade, sem estar sempre a medir o risco de falar, discordar ou propor algo diferente.

Neste âmbito, considero a segurança psicológica particularmente importante. Quando existe confiança para admitir dúvidas, fazer perguntas ou partilhar algo ainda em construção, a participação torna-se mais genuína, as conversas ganham profundidade, as ideias circulam com mais liberdade e as equipas ficam mais disponíveis para criar em conjunto.

O sentimento de pertença tem, igualmente, um papel essencial no engagement. Quando nos sentimos parte de um coletivo, que existe um propósito partilhado e que o nosso contributo é relevante, a relação com o trabalho aprofunda-se. A pertença dá contexto ao esforço individual e transforma a participação em algo com muito mais sentido.

Sem clareza de rumo não é possível saber o que se espera de cada um, perceber como o trabalho individual contribui para o todo ou sentir que esse contributo é valorizado, o que oferece mais confiança para agir. Por outro lado, o reconhecimento, quando é consistente e verdadeiro, reforça a vontade de continuar a participar e a acrescentar valor.

A forma como o trabalho é organizado também influencia fortemente o envolvimento. Quando existe autonomia, colaboração e espaço para construir em conjunto, a forma de trabalhar ganha maior sentido e responsabilidade, as equipas sentem-se mais próximas das decisões, mais responsáveis pelo resultado e mais disponíveis para contribuir com iniciativa.

Existe ainda uma dimensão adicional que nem sempre associamos ao engagement: o espaço para “respirar”. Ter tempo para pensar, recuperar e ganhar distância torna a participação mais consciente e sustentável, e isso nota-se na clareza das ideias, na energia com que se contribui e na qualidade das decisões.

Não há dúvida de que o contexto cria as condições, mas cada pessoa escolhe, diariamente, como escuta, participa e se liga ao coletivo. Essa escolha influencia a equipa, assim como a relação que cada um constrói com o significado do seu próprio trabalho.

Falamos frequentemente do engagement como uma responsabilidade da organização, mas esquecemo-nos de que o envolvimento também depende de uma decisão individual. Nenhuma cultura consegue criar compromisso em quem escolhe permanecer apenas como observador. O contexto pode facilitar ou dificultar, mas há sempre uma parte que pertence a cada pessoa: a forma como participa, a curiosidade com que aprende, a disponibilidade para colaborar e a vontade de contribuir para algo maior do que a sua própria função.

A cultura não se define apenas no que se diz, mas revela-se, sobretudo, na forma como se reage: no tom das conversas, na abertura às ideias e no espaço dado às perguntas. É aí que as pessoas percebem, na prática, como podem participar e o que é realmente valorizado.

Acredito que o engagement não se exige nem se ativa – constrói-se. É uma consequência da forma como o trabalho é vivido, das relações que se estabelecem e das experiências que, todos os dias, mostram às pessoas que vale a pena participar.

  • Marta Reis
  • People & Culture da Páginas Amarelas

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