Dow 50.000: O Casino da Família Trump

Quando o preço dos ativos se divorcia irreversivelmente da realidade económica e financeira, a correção não será apenas um ajuste de mercado, será um violento acerto de contas civilizacional.

Se a semana passada nos ensinou alguma coisa sobre a “Trumponomics 2.0”, é que a fronteira entre a política económica de uma superpotência e a gestão de um hedge fund especulativo foi definitivamente apagada. Acordamos nesta segunda-feira, 9 de fevereiro, ainda a tentar digerir a vertigem dos últimos dias: uma semana de quedas abruptas, marcada pelo pânico vendedor, subitamente revertida na sexta-feira por um rali furioso, quase inexplicável pelos fundamentais, que empurrou o Dow Jones Industrial Average (DJIA) para lá da barreira psicológica dos 50.000 pontos.

Foi precisamente no pico desta euforia de sexta-feira, enquanto os algoritmos de high-frequency trading perseguiam o momentum, que Donald Trump reafirmou a sua tese: o Dow atingirá os 100.000 pontos antes de ele deixar a Sala Oval.

A confirmação deste estado de delírio chegou via Truth Social, com a subtileza habitual em Trump. Ao celebrar o novo máximo histórico, não hesitou em reescrever a causalidade económica, declarando que o recorde se deve às “nossas Grandes TARIFAS”, e rematando com um grito digital em maiúsculas: “LEMBREM-SE, TRUMP TINHA RAZÃO SOBRE TUDO!”. Esta afirmação é a epítome da dissonância cognitiva que governa hoje a Casa Branca. Atribuir a um imposto sobre o comércio e à disrupção das cadeias de valor (que é o que as tarifas efetivamente representam) o mérito da criação de riqueza bolsista não é apenas má economia; é gaslighting institucional. O Presidente não está apenas a reivindicar o crédito pelo rali; está a exigir a submissão da realidade matemática à sua vontade pessoal.

O fecho de sexta-feira nos 50.115 pontos é, naturalmente, celebrado como uma vitória. Contudo, este entusiasmo é o espelho de um novo paradigma onde o mercado deixou de responder à frieza dos números para vibrar ao sabor de narrativas digitais e fabulações políticas. O que presenciámos não foi uma recuperação orgânica, alicerçada no aumento da produtividade ou na revisão dos lucros empresariais; foi um movimento impulsionado pela mecânica das redes sociais, um short squeeze alimentado por retórica, num ecossistema financeiro que se tornou refém da sua própria volatilidade induzida.

A promessa dos 100.000 pontos, feita sobre os escombros da volatilidade da semana passada, obriga-nos a um exercício de sobriedade matemática. Estamos em fevereiro de 2026. Para que o Dow duplique o seu valor atual até janeiro de 2029 (fim do mandato), o índice teria de crescer a uma Taxa de Crescimento Anual Composta (CAGR) superior a 25% durante três anos consecutivos.

Na história financeira moderna, tal consistência de retorno, partindo de avaliações já esticadas (o Shiller P/E Ratio está em níveis historicamente perigosos), é uma anomalia estatística. Para atingir tal meta sem um crescimento real do PIB na ordem dos dois dígitos, algo impossível numa economia madura como a dos EUA, restam duas vias: uma expansão irracional dos múltiplos, criando a maior bolha de ativos da história, ou uma desvalorização brutal do dólar que inflacione nominalmente todos os ativos. Trump parece estar a apostar numa combinação tóxica de ambas.

Mas há uma camada mais perniciosa nesta gestão. A volatilidade extrema que vimos na semana passada (queda livre, seguida de euforia) não é uma falha do sistema; é, aparentemente, uma feature do modelo de negócio da família Trump.

A teoria da Escolha Pública (Public Choice Theory) sugere que os decisores políticos agem em interesse próprio. No caso da atual administração, isto manifesta-se através de uma assimetria de informação flagrante. Enquanto o mercado tremia na terça, quarta-feira e quinta-feira, quem estaria posicionado para beneficiar da recuperação “milagrosa” de sexta?

A insistência da família presidencial em promover meme coins e plataformas de finanças descentralizadas (DeFi), geridas por círculos próximos e promovidas até pela Primeira-Dama, cria um ecossistema de insider trading moralmente falido. Estes ativos digitais, cuja correlação com o mercado acionista tradicional tem aumentado, servem como veículos de pump and dump perfeitos. Quando o Presidente fala, o mercado move-se. E quando o mercado se move com esta violência, quem detém a informação prévia sobre as intenções da Casa Branca recolhe os lucros, enquanto o pequeno aforrador, que entrou na sexta-feira atraído pelos 50.000 pontos, assume o risco da próxima correção.

Estamos a assistir à “financeirização” total da Presidência. O Dow Jones deixou de ser um barómetro da saúde económica americana para se tornar no índice de aprovação pessoal de Trump. Isto cria um Risco Moral (Moral Hazard) sistémico: os mercados assumem que existe uma “Trump Put” (uma garantia implícita de que o Presidente fará tudo para evitar uma queda prolongada), o que incentiva a tomada de riscos excessivos.

A previsão dos 100.000 pontos é, portanto, mais do que uma promessa; é uma ameaça à estabilidade financeira global. Para lá chegar, será necessário desmantelar os últimos redutos de prudência da Reserva Federal e inundar o sistema com liquidez, ignorando a inflação real que corrói os salários.

Se a arqueologia dos mercados financeiros nos ensinou algo, da euforia de 1929 à cegueira coletiva que antecedeu o colapso de 2007/2008, é que as quatro palavras mais perigosas em economia são sempre ‘This time is different’. Foi este o mantra que racionalizou a bolha imobiliária, convencendo o mundo de que os preços das casas desafiavam a gravidade; hoje, é a mesma arrogância que sustenta a ‘Trumponomics’. A crença de que a vontade política pode revogar os ciclos económicos ou que a avaliação dos ativos pode divorciar-se permanentemente dos lucros é uma alucinação recorrente. Quando a liderança de uma superpotência se dedica a insuflar preços de ativos em vez de gerir os fundamentos produtivos, o destino nunca é o Olimpo dos 100.000 pontos. É o violento e inevitável regresso à média, o momento exato em que a matemática se vinga da euforia e a narrativa colapsa sob o peso da realidade.

A lição desta segunda-feira, 9 de fevereiro, é perturbadora: O Dow nos 50.000 pontos não celebra o triunfo do capitalismo americano, mas sim o seu colapso epistemológico. Sob a batuta de Trump, assistimos à falência oficial da economia dos fundamentais (onde o lucro, a produtividade e os fluxos de caixa ditavam o valor), em favor de uma perversa “economia de narrativas”, onde a realidade é moldável e o ativo mais valioso é a capacidade de manipular a atenção das massas.

Transformar a maior economia do mundo numa gigantesca meme stock pode gerar euforia a curto prazo e manter a base eleitoral entretida, mas a história financeira é implacável: Quando o preço dos ativos se divorcia irreversivelmente da realidade económica e financeira, a correção não será apenas um ajuste de mercado, será um violento acerto de contas civilizacional.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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