Em terra de autómatos quem tem coração é rei

  • Filipa Larangeira
  • 6 Junho 2019

A ciência mostra que uma criança que não é tocada nas primeiras horas de vida, morre, e que um dos fatores que mais contribui para os ataques cardíacos é o isolamento social.

Na Era do digital em que as cartas de amor deram lugar aos emails, em que expressamos emoções por emojis ou escolhemos namorados com um deslizar de dedo, o contacto humano parece ter-se tornado num luxo. Senão vejamos: quem se digna a pegar no telefone para desejar os parabéns?

Não obstante as vantagens de conectividade das redes sociais, em grande medida elas apenas nos tornaram preguiçosos. A preguiça esvazia-nos de propósito porque o ser humano é naturalmente gregário para sobreviver.

A ciência mostra que uma criança que não é tocada nas primeiras horas de vida, morre, e que um dos fatores que mais contribui para os ataques cardíacos – a maior causa de morte nos países ocidentais – é o isolamento social. Então, feito um rápido silogismo mental, a preguiça digital está a matar-nos.

Posso compreender que perdemos o hábito de comunicar de forma aberta mas esse treino trará um retorno incalculável no seu seio familiar ou no trabalho. Quantos conflitos se evitariam se conversássemos mais?

Ouso dizer que muitos, senão a grande maioria. Na “vida real” os demónios que vemos e os fígados que libertarmos remotamente, diluem-se.

Não obstante as questões de sustentabilidade do produto que julgo estarem a ser endereçadas pela marca, repare como a Nespresso conseguiu democratizar o acesso ao luxo. Na verdade o que fazem é simplesmente vender café. O que percecionamos como consumidores é que somos “especiais”, porque alguém se preocupa connosco ou pelo menos com a forma como consumimos o nosso café.

O nível seguinte de serviço ao consumidor é deixarmos de seguir scripts e relacionarmo-nos de forma empática. Para tal, toda a cultura organizacional tem de ser humana e viver esses valores, caso contrário, num mundo de millennials de radares apurados, a falta de autenticidade paga-se cara com falta de retenção e atratividade.

A Newmanity School começou a 9 de maio uma parceria com a Women in tech, a partir da qual realizou a primeira “The Heart Conference” do ano com o tema da Inteligência do coração e a liderança feminina. Este evento pretende criar soluções para trazer mais mulheres para cargos de liderança e dar a conhecer o potencial dessa que é a super tecnologia humana: a inteligência do coração.

De acordo com um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos (também representada no evento) a mulher portuguesa está “deprimida, infeliz e mal paga”. Ainda que não se aborde o tema da justiça social e da inclusão, estudos revelam a correlação direta entre a existência de mulheres em cargos de liderança e melhor ambiente de trabalho – para além dos melhores resultados financeiros.

As mulheres são, em grande medida, as cuidadoras do mundo. São as mães mas também as mulheres que zelam pela saúde dos homens. Nikki Stamp, cirurgiã cardiotorácica australiana refere no seu livro “Morrer de coração partido” como, após a morte das suas mulheres, os homens acabam por sofrer ataques cardíacos mortais, em grande parte justificados pelo facto de terem visto partir as suas cuidadoras.

A conferência marca também o lançamento do nosso primeiro programa de aceleração para mulheres líderes e empreendedoras, que tem por base o desenvolvimento de inteligência do coração. No caso das mulheres, esta tecnologia humana está mais facilmente acessível pelos motivos mais óbvios: as mulheres são, regra geral, mais sensíveis.

Voltando aos sintomas da Era digital de que falava no início: num mundo em rápida transformação em que se estima que a automação vá substituir grande parte dos trabalhos humanos, desenvolver a tecnologia que possuímos é um imperativo para quem não pretende tornar-se obsoletos e a base de sustentabilidade de qualquer organização.

A inteligência do coração é o que nos permite conhecermo-nos, autorregularmo-nos, aceder ao nosso potencial criativo (aquilo que se chama de “flow”), aprender de forma rápida e criar empatia.

Todas estas características são não só o que nos diferencia das máquinas mas o segredo de qualquer marca que queira ter sucesso hoje e amanhã.

Porque em terra de autómatos, quem tem coração é rei.

Filipa Larangeira é CEO e fundadora da Newmanity School

  • Filipa Larangeira

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