Igualdade de género: e depois da Covid-19?

  • Inês Palma Ramalho
  • 25 Janeiro 2021

Não há dúvida que o caminho para a igualdade entre homens e mulheres foi abruptamente travado pela Covid-19.

Deve ser impossível encontrar em Portugal quem não tenha sofrido com a pandemia que assola fortemente o país. De uma forma ou de outra, todas as famílias viram as suas vidas afetadas, com distintos graus de gravidade. Para onde quer que se olhe, seja qual for o setor de atividade ou a estrutura familiar, todos nós, homens e mulheres, fomos apanhados, de alguma forma, neste turbilhão. E os temas de igualdade de género não foram poupados ao ataque.

De acordo com os números publicados pelo Instituto Europeu para a Igualdade, antes da pandemia, as mulheres europeias já gastavam cerca de 13 horas semanais em tarefas não pagas, competindo-lhes guiar o leme da vida doméstica e familiar. Apesar de cada vez mais homens estarem disponíveis para diariamente fazer essas tarefas (a média europeia atesta que mais de 33% já as fazia, ainda que por cá os números sejam mais tímidos), era à mulher que continuavam a caber essas funções.

Estes números – e esta desigualdade – não refletem ainda o efeito da pandemia. Fenómenos como o teletrabalho disseminado, a invasão da vida privada, o encerramento de escolas, a impossibilidade de recorrer à família e as difíceis condições económicas que impedem a contratação de ajuda parecem só vir agravar o fosso de género que ainda se fazia notar.

De acordo com o Relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT), “Portugal: Uma análise rápida do impacto da Covid-19 na economia e no mercado de trabalho”, publicado em junho de 2020, as mulheres encontram-se desproporcionalmente sobrecarregadas com o trabalho não remunerado, sendo à mãe que as crianças mais recorrem para apoio nos trabalhos de casa. As mulheres veem-se, assim, forçadas a conciliar – ainda mais – a sua profissão com a gestão da vida doméstica e o acompanhamento dos filhos. Se (ou, melhor dizendo, quando) as escolas fecham, as mulheres também parecem ser o progenitor que mais vezes fica em casa: mais de 80% dos beneficiários do apoio excecional às famílias para pais com filhos menores de 12 anos foram mulheres. E se essa tarefa era antes partilhada com os avós, essa deixou de ser uma opção viável. Mesmo com avós disponíveis – o que nem sempre era o caso – a prudência aconselha a evitar contactos com pessoas de grupos de risco para evitar contágios.

Mas não é só na conciliação que a situação se agravou. As mulheres compõem a maioria dos profissionais de saúde (78,7%) e dominam quase completamente o setor de ação social (90,3%). Estes setores, a par de setores com profissões muito feminizadas ou que envolvam entendimento ao público e onde as mulheres também se encontram usualmente em maioria, são também aqueles onde o risco de contágio é maior.

A mão-de-obra menos qualificada ou com vínculos mais precários – onde as mulheres também representam a maioria – também se tornou um alvo fácil da Covid-19. Não é de espantar, portanto, a divulgação recente dos números de decréscimo salarial e a conclusão, também da OIT, de que são os salários de trabalhadoras mulheres os que mais têm descido com a pandemia (8,1% contra 5,4% para os homens).

Não há dúvida que o caminho para a igualdade entre homens e mulheres foi abruptamente travado pela Covid-19. Vivem-se circunstâncias excecionais e assume-se que pouco se pode fazer quanto a isso. Mas a pergunta que se impõe quando parecemos estar a chegar ao fim desta saga pandémica é a seguinte: com o que aprendemos com isto, para onde escolhemos ir a seguir?

*Advogada na Sérvulo & Associados.

  • Inês Palma Ramalho
  • Associada principal na Sérvulo & Associados

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