Jardins e Unicórnios
Na Assembleia Geral das Nações Unidas não existem Unicórnios. Os Unicórnios nascem e prosperam nos jardins que combatem as guerras.
É urgente evitar a Torre de Babel das Nações Unidas em época de visitas presidenciais. A Assembleia Geral é transformada num jardim de platitudes, numa floresta de enganos. Inspirado em Cyril Connoly, os jardins do Ocidente estão em hora de fecho, restando apenas a ressonância das declarações solitárias ou o desespero pouco literário dos discursos mentirosos. Nunca houve grande amor entre a economia política e o universo da literatura.
A economia do consumo adora produtos que se vendem com uma margem ‘premium’, dispositivos que se gastam rapidamente ou que são susceptíveis de regulares e infinitas versões e ‘upgrades’. O clássico literário é económico por natureza, acessível por reflexo, infinitamente reutilizável e definitivo porque já é aquilo que deve ser.
O oposto da literatura na economia de mercado é a ideia de ‘marca’. Num tempo político em que a polarização das opiniões e das acções correm profundas, os indivíduos preferem identificar-se com a imagem de uma marca. A mensagem de uma marca reflecte uma posição sobre o mundo, uma visão global sobre os problemas na forma concreta de um objecto de consumo.
Observe-se a campanha da Nike centrada na figura de Colin Kaepernick, a estrela da NFL caída em desgraça por se ajoelhar em protesto sempre que o Hino da América ecoa pelos estádios. “Believe in something, even if it means sacrificing everything”, é o lema da campanha que projecta o cinismo de um duplo significado. Por um lado, acreditar em nada é o impulso da publicidade para poder acreditar em tudo. Por outro lado, é a publicidade a tomar a forma de um activismo político, a publicidade a multiplicar a mensagem de modo exponencial e sem qualquer preocupação com qualquer limite. No propósito de maximizar o lucro, a economia do consumo eleva o activismo à dimensão global de um discurso político total e universal. É a publicidade com o perfil de uma ideologia política.
Longe das Nações Unidas, mas próximo do espírito das Nações Unidas, em terreno onde a literatura se reconcilia com a política, pode encontrar-se a obra da foto-jornalista Lalage Snow, com o título “War Gardens”. Entre ruínas e rosas, a autora visita jardins em tempo de guerra e dispersos pelos cenários de Kabul, Gaza, Ucrânia, Faixa Ocidental, Helmand e um Kibbutz em Israel.
As histórias encerram o horror da guerra e o sublime dos jardins. É uma versão do inferno na terra – gritos que crescem na acústica de um hospital vindos de uma criança ferida por estilhaços de uma bomba; a expressão vazia de uma outra criança deitada nos escombros bem junto ao cadáver do pai, recém-executado na sua presença; uma cabeça consumida pelo sol e abandonada junto a um capacete de Kevlar entre as flores; a transformação de pessoas em fantasmas que habitam na memória dos mais próximos; as mentes perdidas para sempre no labirinto de um terror que nunca terá fim. E subitamente os jardins bem cuidados, como se de pessoas se tratasse, e que devolve a força, a coragem e a esperança no meio da devastação de todas as almas.
Nem tudo é desolação. No final dos anos 80 e durante a guerra civil no Afeganistão, o Sr.º e a Sr.ª Roami, um professor de ciências e uma enfermeira de profissão, enviaram os filhos de Kabul para a Europa em busca de segurança. De forma trágica, os Roami perderam o número do telefone de contacto do lugar de destino das crianças e ficaram impossibilitados de retomar a ligação com a geração salva mas perdida. O casal encontrou consolação no cuidado do jardim. As constantes explosões de bombas e de rockets nunca os fizeram abandonar o seu jardim. Deram o nome dos filhos às flores e falavam com elas como se pessoas fossem. O jardim vivo e bem ordenado era a imagem da esperança de uma família reunida. A certa altura a violência dos combates impossibilitava a recolha de água na corrente mais próxima. O jardim começava a morrer. O casal resolveu então construir um poço, e após cinco horas a escavar a terra, foi finalmente possível recolher água para regar o jardim. Nesta história de flores nos campos de guerra é possível presumir que um jardim não é um luxo, mas um acto de necessidade da natureza humana que permite a resistência para sobreviver.
Na Assembleia Geral das Nações Unidas não existem Unicórnios. Os Unicórnios nascem e prosperam nos jardins que combatem as guerras.
Nota: Por opção própria, o autor não escreve segundo o novo acordo ortográfico
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