No passa culpas do 5G, perdemos todos

Seria de esperar que operadoras e Anacom colaborassem num processo tão complexo como é o do 5G. Ao invés disso, nunca foi tão grande a divergência entre as empresas e o regulador do setor.

A médio prazo, o 5G será crítico para a competitividade do país. Não é só a velocidade, bem mais rápida do que a do 4G. É também a capacidade de termos uma quantidade muito maior de dispositivos ligados à rede. Ou de os nossos automóveis poderem “falar” uns com os outros, evitando acidentes.

Conhecemos bem a rede 4G que temos nos nossos telemóveis. Permite-nos assistir a filmes em alta definição, fazer videochamadas para o outro lado do mundo e estarmos sempre ligados. Mas o que faríamos se tivéssemos dados móveis ilimitados? Esta questão faz brilhar os olhos de alguns. É básica, mas mostra bem o facto de o potencial do 4G ainda não estar totalmente explorado.

Para as operadoras, o 5G é uma pressão acrescida. Lançar o 4G custou dinheiro. Muito dinheiro. Nem dez anos passaram e vão ter de voltar a desembolsar milhões para comprar as novas licenças para o 5G. Este é o sentimento predominante das operadoras… em privado.

Em público, acusam a Anacom de se ter atrasado no processo, algo que o regulador tem vindo a rejeitar. Foi assim a partir do final do ano passado, altura em que se percebeu uma mudança na posição das operadoras: se é para lançar o 5G, que se lance o 5G depressa.

A Anacom quer iniciar o leilão das licenças 5G em abril de 2020, incluindo uma parte do espetro que está a ser usada pela TDT. A Meo, que gere a TV grátis, diz que o prazo é “impossível” de cumprir e avançou para tribunal.

Bruxelas quer uma cidade em cada país da UE com 5G até ao final de 2020. Com tantas forças em jogo, ninguém pode garantir que Portugal vai cumprir a meta europeia, pelo menos com um mínimo de substância.

Meo, Nos e Vodafone já têm redes de teste a funcionar no país. Uma gota no oceano do 5G, cujo lançamento vai ser muito mais complexo do que ter uma antena em Picoas e outra no Parque das Nações, como demonstrou a Altice Portugal durante o Web Summit.

O mal-estar entre operadoras e Anacom é maior a cada dia, quando deveria ser uma colaboração para um processo que não se avizinha fácil. Em vez do passa culpas que se vê, deveriam estar a discutir como garantir que a rede é segura, ou como assegurar que o 5G não chega só a Lisboa, ao Porto e a uma série de cidades-satélite, mas também a zonas remotas no interior do país.

Mais importante ainda, importa esclarecer como se vai aproveitar a tecnologia depois de ser lançada. São escassos os telemóveis com 5G à venda no mercado e os casos práticos que nos são apresentados – como o dos carros que mencionei no primeiro parágrafo – já têm um travo a cliché.

Se for bem implementado, o 5G vai servir de base para melhorar as nossas vidas com a tecnologia, tornar as fábricas mais produtivas e as cidades mais inteligentes. Mas o passa culpas a que assistimos não beneficia ninguém. Nem o setor, nem nós, os consumidores.

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