O crime e a regionalização

Que se resolvam os problemas e atrasos da sociedade, que se repare a sua alma doente, depois, então, tentem brincar à regionalização com os portugueses.

Estamos a banalizar o crime. Quem passa pelos programas da manhã de maior audiência assiste atónito a painéis de especialistas em questões de justiça, reportagens sobre actos deploráveis e desumanos, violações, pessoas degoladas, violência, assaltos, roubos, assassinatos. Depois, os jornais televisivos seguiram o padrão de apostar, mais do que na informação, na ocorrência. Assuntos que seriam rodapés ou apenas parangonas dos media mais sensacionalistas são acompanhados, agora, a par e passo no frémito de chegar primeiro. É uma agenda do horror, um espectáculo que dramatiza emoções em busca das reacções mais primárias e o “voyeurismo” que alimenta os espíritos mais palpáveis à manipulação. Não condeno as escolhas, pois a comunicação social tem todo o direito de exercer as suas opções e o que acontece na sociedade, por mais hediondo que seja, não deve ser varrido hipocritamente para debaixo do tapete. Critico é o exagero, a extravagância, o bizarro, a barbaridade como novo totem de conquista de públicos.

Há dois dias que a agenda mediática é comandada por um «monstro» (assim denominado para acicatar o ódio e os instintos básicos, mas que não merece outro epíteto) que estrangulou a própria filha de dois anos com as suas mãos, depois de ter assassinado a sogra à facada e que, posteriormente, se encontrou morto. Um crime destes deve fazer parar para pensar a comunidade. Pode ser um caso isolado, mas não é, nem é fenómeno exclusivo do Seixal e da Cruz de Pau. Aumenta a criminalidade violenta, as agressões a mulheres num País que sempre foi de brandos costumes. Não são imprensa nem televisão os responsáveis, muito menos os espectadores que salivam ao compasso do sangue, são pulsões interiores que vegetam no âmago da natureza humana, irão sempre acontecer, porque como diria Dostoievski «o criminoso, no momento em que pratica o seu crime, é sempre um doente», mas até que ponto está Portugal doente?

Temos uma série de carências, atrasos evidentes, serviços públicos dormentes, pessoas a morrer por falta de um transplante, hospitais sem recursos, helicópteros do INEM que só têm um local em Lisboa para aterrar, transportes caóticos e com pouco respeito pelo utente, salários baixos e precários, pouco apoio à criação de emprego, um Estado que trava a inovação e o investimento na medida em que estrangula com impostos por tudo e por nada. Às vezes até parece que temos de pagar para viver ou mesmo sobreviver, são diversos crimes também sem castigo. Logo, é de uma inusitada irrelevância um grupo de autarcas do Norte vir apresentar mais uma vez a hipótese de um referendo à regionalização que já foi ulteriormente chumbada em 1998.

E desta vez à sua medida, com um modelo de votação nacional mas com contagem de votos região a região, apresentando como justificação «a evolução da democracia» e «inteligência dos cidadãos». Ora, os «inteligentes cidadãos» sabem que na base da regionalização não está apenas a descentralização de competências do Estado Central. O gato escondido com rabo de fora é que há uma série de presidentes de câmara que, após a limitação de mandatos, tem de encontrar outro pouso, arranjar motoristas e secretariado, contratar novo bando de assessores e uma regiãozinha dá muito jeito à sua concupiscência de poder e eternização nele. Portugal é um pequeno país de fronteiras solidificadas há séculos. Precisa de combater a desertificação do interior com políticas de natalidade, incentivos ao investimento e criação de emprego, e proporcionar todas as condições tecnológicas dos tempos modernos pois ainda há zonas do território onde é tarefa hercúlea aceder á internet, nunca criando novos marajás. Por isso, que se resolvam os problemas e atrasos da sociedade, que se repare a sua alma doente em primeiro lugar, depois, então, tentem brincar à regionalização com os portugueses.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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