O custo da Ignorância Económica

A literacia económica e financeira, sobretudo para os jovens mas não só, é um tema-chave para podermos ter um País mais próspero

  • A rubrica Geração de Ideias dá voz aos distinguidos com o Prémio Professor Jacinto Nunes, atribuído pelo Banco de Portugal. A última edição deste prémio distingue os melhores alunos da licenciatura em Economia no ano letivo 2023/2024. Diana Pereira foi distinguida enquanto aluna da Escola de Ciências Humanas e Sociais da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

 

Numa sociedade pautada pelo livre-arbítrio em que vivemos, a falta de literacia económica tem sido um tema chave, provocador de elevadas preocupações.

Sendo a liberdade de expressão e o acesso à informação um direito, o conhecimento deveria ser considerado um dever. Esta minha perspetiva prende-se com o facto de
vivermos numa sociedade democrática, onde elegemos os governantes do nosso país. Governantes esses que tomam decisões de política, as quais impactam a economia e,
consequentemente, a sociedade como um todo.

Importa salientar que literacia não se traduz meramente na capacidade de saber ler e escrever. Literacia abrange um leque de natureza muito mais vasta de qualidades que qualquer cidadão se deve preocupar em reunir, como: compreender, interpretar, questionar, argumentar e, acima de tudo, interiorizar, procurando pontos de conexão com o tema em causa. Somente deste modo é possível afirmar que se tem o conhecimento necessário para discutir um determinado assunto.

É mediante o estudo efetuado por Reis e Wemans (2018) através do Banco de Portugal, que se verifica que, nas economias avançadas, nas quais se tratam questões mais complexas, existe déficit de literacia financeira. É ainda com base no mesmo que sustento e afirmo que Portugal carece de saber no que concerne a esta área.

Na verdade, considero deveras preocupante esta falta de literacia dos jovens atuais (e vindouros) encarregues pelo desenvolvimento do nosso país. Esta mesma falta de conhecimento encontra-se relacionada com questões básicas como, por exemplo, inflação, rendimento e desemprego. É também a mesma falta de conhecimento que leva as atuais gerações a querer grandes aumentos salariais e a lamentar-se pelo consequente crescimento da inflação, quando não ocorre crescimento da produtividade, o que prejudica a riqueza de todo o país, pelo facto de não conseguir manter a sua vantagem competitiva. São estas mesmas gerações que, tal como não compreendem que existe este trade-off entre salário e inflação, também não percebem as decisões de política expansionista ou contracionista que são necessárias tomar em conformidade, por forma a diminuir a amplitude dos ciclos económicos, de modo a que os cidadãos não percecionem tanto as consequências que este hiato acarreta.

"É também a mesma falta de conhecimento que leva as atuais gerações a querer grandes aumentos salariais e a lamentar-se pelo consequente crescimento da inflação, quando não ocorre crescimento da produtividade, o que prejudica a riqueza de todo o país”

É esta mesma ignorância económica que origina propostas políticas que poderão parecer verdadeiramente apelativas. Mas, na verdade, ao serem tomadas sem a devida ponderação, a longo prazo, se traduzem em decisões penosas do ponto de vista económico, afetando a sustentabilidade do país.

A análise anteriormente explorada, refere, ainda, a investigação de Lusardi et al. (2019), a qual sustenta que a literacia financeira se encontra intimamente relacionada com padrões sociodemográficos, como a performance escolar, o género, o desenvolvimento financeiro e a educação proporcionados pela família.

Questionar-se-ão, possivelmente, acerca de como solucionar esta questão. Certamente, este é um tema de elevada complexidade. No entanto, existem pequenas mudanças que poderão ajudar a mitigar esta lacuna. Exemplo disso seriam programas de literacia financeira apelativos para toda a família. Pois, deste modo, desenvolve-se diferentes gerações, onde passa a ser possível identificar temas de interesse comuns em conversas que surgem tanto no seio familiar como, posteriormente, na envolvente. Para além do mais, considero imprescindível incutir a literacia financeira na educação dos jovens, fazendo com que esta faça verdadeiramente parte do seu percurso. Deste modo, tornar-se-ia num assunto transversal a toda a sociedade e, por conseguinte, passaria a ser parte integrante da cultura geral do país.

Assim, não obstante defender que devem, sim, existir medidas de valorização das gerações e que potenciem o desenvolvimento dos países, esta mesma valorização deve começar pela própria sociedade, abrindo os seus horizontes no que diz respeito aos seus conhecimentos literários. Somente deste modo, acredito que é possível construir um futuro sustentável e promotor de riqueza.

  • Colunista convidada na rubrica "Geração de ideias". Economista, Finalista do Mestrado de Contabilidade e Controlo de Gestão na FEP

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