O problema do Estado falhar é já não ser notícia
A culpa não é deste governo ou de outro qualquer. Teria sido igual há cinco anos e temo que seja daqui a cinco, mas não é aceitável.
As tragédias acontecem e muitas vezes não são evitáveis, nem previsíveis. Simplesmente acontecem. Acordamos na manhã seguinte e ouvimos e lemos que muitos não conseguiram sequer dormir. O que aconteceu no centro do país é inqualificável e é assustador só sermos capazes de o perceber quando está a acontecer. O mais grave, inclusivamente, é acontecer sem termos a capacidade de o perceber.
Aliás, há algo que não me sai da cabeça. Porque é que demoramos tanto tempo a perceber a dimensão do terror? Tenho de reformular. Porque é que Lisboa demorou tanto tempo a perceber a dimensão do terror? A explicação direta é que o vento não se vê. Mas os estragos veem-se e ninguém acredita que uma calamidade como esta, em Lisboa, passasse em claro as horas que esta, no Centro e Oeste do país, passou. É uma prova infeliz, certamente inocente, mas reveladora, do centralismo autofágico em que o país vive.
Eça dizia, aqui já o citei, mas o país real não está entre a Arcada e São Bento. O país é inclinado e Lisboa não percebe que os custos deste domínio caem todos sobre si. Bem, mas esta seria outra conversa. Fica para outro dia.
Podemos fazer críticas à comunicação social e até já ouvi esse mea culpa, mas quem não tem desculpa para o atraso é o governo. Se a opinião pública conhece a situação através dos vídeos dos estragos, o governo tem mecanismos, ou pelo menos devia ter, para perceber a gravidade do que aconteceu logo naquela noite. Desde autarcas, à Proteção Civil, passando pelos bombeiros e pelo complexo de infraestruturas, a rede existe e não se compreende a demora. No fim, é fácil dizer qual é a conclusão desta semana: Não estamos prontos. Não estamos prontos para mais tempestades. Não estamos prontos para mais um apagão. Não estamos prontos para um sismo ou um maremoto. Não estamos prontos para uma guerra. Não estamos prontos.
A capacidade de reação é exígua e na base da crença de que o desenrasque é a arte nacional. E temo dizer que não é. Somos bons na disponibilidade para ajudar, somos voluntariosos, mas quando a catástrofe é séria isso é pouco. A resposta tem de ser concertada e não há razão possível que justifique a inexistência de um plano e de um guião claro.
A culpa não é deste governo ou de outro qualquer. Teria sido igual há cinco anos e temo que seja daqui a cinco, mas não é aceitável. Claro que há trabalho em contexto de invisibilidade, como não podia deixar de ser. Os resultados do trabalho é que não podem ser invisíveis para as populações afetadas. A Ministra da Administração Interna não pode falar apenas ao terceiro dia, porque é sua função tranquilizar ou, pelo menos, explicar, mostrar que há um rumo e que não andamos à nora.
A máxima do Marquês de Pombal mantém-se atual e agora é mesmo cuidar dos vivos, enfrentar o que restou e reconstruir. Contudo, reconstruir não deve significar levantar o que caiu e fazer igual. Estes fenómenos serão cada vez mais frequentes e a prevenção deve ser tida em conta. Em abril, estivemos 10 horas sem eletricidade e foi inquietante. Hoje, há famílias que já levam dias de espera sem fim à vista. Vamos voltar a levantar os postes e fazer de conta que nada aconteceu?
Muitas vezes aqui fui crítico de Marcelo, inclusivamente do seu estilo, e conto em continuar a sê-lo até ao fim do seu mandato, mas há algo que tenho de lhe reconhecer: a capacidade inigualável de ser humano, de perceber a dor de quem perde. Ser político também é isto, é ser-se realmente próximo, sem botox, isso nota-se e o governo aí falhou. O equilíbrio é exigente, parecer aproveitador ou desinteressado é o mais fácil. A empatia na política é essencial e tantas vezes é desvalorizada e com Marcelo tivemos isso. Espero não sentir essa falta. Não estava nos meus planos.
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