Portugal e o mito da pequenês

Portugal, uma das línguas mais faladas do mundo, história global e diáspora espalhada por todos os continentes, não pode continuar a invocar a “pequenez” como desculpa.

Comecei a última semana marcando presença num evento de investimento imobiliário onde se abordou o conceito do luxo no mercado imobiliário, começando-se por discutir o conceito em si. A meio da semana num almoço da AEP com António José Seguro, o candidato presidencial falou e bem da necessidade de quebramos o mito dos três P´s associado a Portugal: pequenos, periféricos e pobres. Será que o luxo que os de fora descobrem no nosso País é algo que não somos capazes de descortinar pela nossa incapacidade de nos valorizarmos?

Tal levou-me a numa longa viagem de carro e enquanto ouvia Saeglopur, uma das minhas músicas preferidas dos Sigur Rós a olhar para esta dualidade de falarmos de luxo em Portugal.

A Islândia é, para muitos, um enigma envolto em paisagens quase lunares, uma terra onde a natureza fala mais alto do que o homem, e onde o silêncio parece ter um som próprio. Para outros, sobretudo no universo da música e das artes, a Islândia representa um luxo cultural raro, um espaço diminuto em escala geográfica e demográfica, mas imenso na sua capacidade criativa e no impacto mundial que provoca. A questão que se coloca é muito simples: como pode um país de cerca de 400 mil habitantes dar à luz fenómenos musicais que vendem milhões de discos no mundo inteiro? E mais do que isso: como pode um grupo como os Sigur Rós transformar uma língua praticamente ininteligível para o estrangeiro numa ponte universal de emoção, identidade e arte?

O luxo islandês não se traduz apenas em riqueza material. Pelo contrário, manifesta-se numa forma de exclusividade que dificilmente se replica noutros lugares. A paisagem vulcânica, os glaciares, as auroras boreais, o isolamento geográfico – tudo isto produz uma experiência estética que acaba por se refletir nas criações artísticas dos seus habitantes. Não é um luxo de ostentação, mas sim de autenticidade. A Islândia parece ensinar que o verdadeiro luxo está em poder ser pequeno em número, mas grande em impacto.

Enquanto muitas sociedades se justificam com a sua dimensão reduzida para explicar a falta de projeção cultural (onde já ouvimos este fado repetido enorme número de vezes?), os islandeses demonstram o contrário: a pequenez não é limitação, mas antes potencial. A criatividade floresce não apesar das condições difíceis de isolamento, mas precisamente por causa delas.

Os Sigur Rós representam talvez o exemplo mais paradigmático dessa capacidade transcendente. Quando se comemoram 20 anos da edição do seu álbum “Takk”, é importante usarmos este coletivo musical islandês como um exemplo do que é a Islândia e a sua forma de estar e pensar. Esta banda conseguiu transformar composições etéreas em verdadeiros hinos globais; mais este fenómeno musical vai para além de melodias: os Sigur Rós cantam numa língua que para a maioria dos ouvintes é, na prática, ininteligível! Parte das canções está em islandês, uma língua falada por uma minoria no mundo, e outra parte em Hopelandic (Vonlenska), um neologismo inventado, uma fonética de sílabas sem significado semântico, mas rica em textura emocional. E mesmo assim, os seus álbuns venderam milhões, chegaram a arenas e festivais de todos os continentes, tornando-se banda-sonora de filmes, séries e campanhas publicitárias de grandes marcas mundiais.

O que isto demonstra é que a comunicação artística não se esgota na clareza da palavra. A música dos Sigur Rós funciona como uma metáfora para a Islândia: aquilo que é pequeno, distante ou aparentemente incompreensível pode, afinal, falar a todos. A emoção pura, a força melódica e a estética visual contam mais do que o vocabulário formal.

Durante décadas, em muitos países, sobretudo na periferia cultural, tem-se utilizado a escala populacional ou o isolamento geográfico como desculpa para a ausência de influência internacional. “Somos pequenos demais”, “Não falamos uma língua global”, “O nosso mercado é restrito” – são frases recorrentes. No entanto, a Islândia destrói sistematicamente esse mito. Se um grupo vindo de uma ilha gelada, com menos habitantes do que muitas cidades de média dimensão (Lisboa tem mais duzentos mil habitantes que a Islândia), consegue criar música inclassificável e vender milhões de discos numa língua impossível de decifrar, então não é legítimo continuar a invocar a pequenez como cortina de fumo para a mediocridade, certo?

O que distingue a Islândia não é a quantidade, mas a ousadia de assumir a diferença. Não há complexos de inferioridade perante culturas maiores; existe antes um exercício de radicalidade criativa e de procura de singularidade. Se outros países se refugiam em estratégias de imitação para agradar ao mercado internacional, os islandeses optam por ser genuínos – e é essa autenticidade que atrai o mundo.

A lição é clara: a grandeza não depende da escala numérica, mas sim da densidade da imaginação. A Islândia mostra que um contexto pequeno pode ser um espaço fértil precisamente por não estar esmagado pela uniformização ou pelo excesso. Há espaço para o silêncio, para a introspeção, para o tempo criativo. E essa atmosfera gera não só Sigur Rós, mas também figuras como Björk, Ólafur Arnalds, múm, GusGus ou mesmo escritores e realizadores de renome.

Falar em luxo islandês é, portanto, falar num luxo espiritual e criativo, que reside na forma como se consegue transformar uma condição periférica em relevância global. Ao contrário do que tantas vezes se pretende fazer crer, a limitação pode ser um motor de genialidade.

Em Portugal, o argumento da “pequenez” tem sido recorrentemente utilizado como uma espécie de álibi nacional para justificar a falta de projeção internacional em várias áreas, da cultura à ciência, da inovação à indústria criativa. Quantas vezes se ouve a frase feita “somos um país pequeno”, como se a dimensão geográfica ou demográfica fosse, por si só, uma sentença de irrelevância?

Portugal, com mais de dez milhões de habitantes, uma das línguas mais faladas do mundo, história global e diáspora espalhada por todos os continentes, não pode continuar a invocar a “pequenez” como desculpa. O verdadeiro obstáculo não é geográfico, mas mental: a falta de ousadia, de investimento consistente em cultura, ciência e inovação, e de confiança na nossa capacidade de criar algo autêntico e exportável.

A lição islandesa é clara: grandeza não depende de escala, mas de densidade criativa. O desafio de Portugal não é ser maior, mas acreditar mais em si próprio.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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