Presidentes modernos

Num momento tão decisivo para a República, as Presidenciais não têm o poder da emoção que acompanha sempre os grandes momentos da política.

Confesso que sou um “political junkie”. Entre o voyeurismo, as leituras e o lazer, vi todos os debates presidenciais. Sem a obrigação da avença do comentário, observo com escrúpulo a biologia política dos candidatos no espaço controlado da imagem e do discurso.

Os debates são o zoo político da moda. E os políticos candidatos a Presidente não se poupam às expectativas mais baixas nem à mais alta das prudências. Mais do que uma ofensiva original sobre o país e os portugueses, os candidatos percorrem em círculo os argumentos testados e programados para não produzir erros ou surpresas. O propósito dos debates parece ser precisamente a reprodução antecipada da previsibilidade de um Presidente da República. Os debates são como a revisitação dos arquétipos da política com a intenção de garantir o voto dos convertidos. Nesta fase, toda a encenação política não vai para além da reflexão sobre o caso do dia, sobre a indignação da semana, sobre as limitações do adversário. Nesta fase e em contraste, toda a encenação política se projecta no futuro incerto, nos destinos da Europa, na Nova Ordem Mundial, tudo em modo de elogio em causa própria na elucidação de um carácter exemplar. Em política o carácter não se enuncia, o carácter destaca-se das acções e das posições políticas. Os candidatos não são genuínos nem verdadeiros nem espontâneos porque estão a representar uma espécie de ficção intitulada “E se fosse Presidente da República?”. A não perder a nova temporada.

Em muitos debates a ficção “E se fosse Presidente da República?” aproxima-se do espírito que preside a um programa familiar de sucesso e de grande audiência chamado Taskmaster. A sequência absurda das perguntas e a sequência menos deslocada das respostas aproxima-se na perfeição dos jogos inúteis, absurdos, ridículos que são a marca de água do programa e a razão do grande sucesso comercial.

Na consciente inconsciência do Taskmaster o propósito é promover o riso inteligente de forma inesperada e explorar o profundo significado da futilidade para a concretização da felicidade humana. Na consciente consciência dos debates presidenciais o propósito deve ser a promoção da reflexão inteligente de forma inesperada e explorar o profundo significado da seriedade para a concretização da felicidade de um país. As presidenciais não são um concurso de vaidades nem uma exibição moralista nem a presunção de uma qualquer superioridade política nem o domínio de uma ideologia redentora.

O Presidente da República é a última linha na afirmação pública da identidade do Regime. Os debates presidenciais são bons para as televisões e ao mesmo tempo representam as exigências de um serviço público. Um certo entendimento de uma particular ideia de serviço público. Os debates são a política dos tempos que correm. “A política da epiderme e do efémero. A política do espectáculo e da facilidade. A política exibicionista e instantânea”. Esta observação justifica o facto do candidato Ventura liderar nos três debates mais vistos pelos portugueses.

Sem cair na contabilidade das notas em modo de comentário político, sem abdicar da exigência de um debate ilustrado, exigente, inteligente para benefício do país, sem ceder ao cálculo dos ganhos e das perdas dos candidatos em cada debate, sem reflexões sobre estratégias, alianças e audiências para cada candidato, sem maniqueísmos à esquerda, à direita, ao centro, o que é verdadeiramente extraordinário é que não é possível identificar um discurso específico sobre o país que tenha como ponto de observação exclusivo a figura do Presidente da República.

Os debates transformados em entrevistas paralelas não conseguem estruturar uma visão do Regime em que o Presidente tenha uma perspectiva de Portugal própria de uma função Presidencial autónoma e eleita directamente pelos portugueses em sufrágio directo e universal. O Palácio de Belém parece representar um adereço decorativo no grande presépio da República. Quando nos debates se discute as funções presidenciais, todo o discurso resvala para uma menorização da reflexão política pura em função do texto e da forma de uma fuga jurídica para os insondáveis detalhes e interpretações da Constituição. Nesta lógica, os portugueses não vão eleger verdadeiramente um Presidente da República. Nesta mesma lógica, parece que os portugueses vão praticar uma espécie de plebiscito da Constituição.

Os debates presidenciais revelam um conjunto de candidatos que se aproximam do anti-herói existencial ao estilo de Camus e Dostoevsky. Presidentes acidentais que se apresentam como resultantes do vazio político, do acaso e da força do destino na configuração das carreiras políticas. A prosa dos candidatos é um diálogo banal e cruel, os argumentos são fragmentos de vidro que cortam no limite a dignidade da República. Nada existe de brilhante, hipnótico, inspirador, poético para figurar no dicionário das citações da História.

Num momento tão decisivo para a República, as Presidenciais não têm o poder da emoção que acompanha sempre os grandes momentos da política.

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