Resignação, modéstia, caos, improvisos e outros vícios portugueses

Parece que não, mas há mais vida para além do futebol, seja ele o jogo Portugal-Irão, que está a acontecer, os eventos no Sporting ou no Benfica.

– Em todo caso, o futebol é um elemento essencial da história do nosso tempo, que bem merecia que hoje fosse o tema deste programa.

– Apenas um exemplo, que daria “pano para mangas”: segundo alguns historiadores e sociólogos, a principal explicação para a diminuição da violência política no mundo mais desenvolvido é a sua canalização para o clubismo desportivo…

– Vá lá saber-se. Mas, para quem me esteja ver agora, o futebol deve ser o tema que menos lhe interessa…

– Vamos então a dois outros temas. Qualquer deles é a continuação de temas já aqui tratados: como criar classes médias? Como conseguir que Rui Rio não fique na história pelo pior resultado de sempre do PSD?

A Cultura da resignação, do acomodamento e da modéstia

Recordo o que há semanas expliquei aqui com dados quantitativos rigorosos: apenas 37500 trabalhadores por conta de outrem ganham mais de 3000 euros por mês. E Portugal é o País da OCDE, e seguramente do Mundo, em que o salário médio está mais perto do salário mínimo (e a carga fiscal ainda os aproxima mais). Ou seja, a classe média como categoria social autónoma está a morrer em Portugal. Prometi então voltar ao tema.

Nem de propósito, há dois dias, o Expresso revelou um estudo que confirma com rigor científico que a tese que prometera aqui trazer está correta.

O estudo, do Professor João Cerejeira, revela que um trabalhador que mudou de empresa (e foram 200 000 no ano passado) teve em média um aumento salarial de 7,3% (em termos absolutos) que corresponde a mais do dobro dos que não mudaram.

Disse Disraeli, há mais de 150 anos, que há três maneiras de mentir: mentiras simples, mentiras enormes ou terríveis (“damned”) … e estatísticas.

E realmente o estudo é feito para empregos que pagam sobretudo acima de 25000 euros, sendo que o salário médio anda pelos 10 000 euros por ano. E, além disso, com toda a probabilidade os que optam por mudar de emprego são tendencialmente os mais insatisfeitos/ambiciosos e os que são ou se julgam mais competentes/desejados.

No entanto Cerejeira também descobriu que apenas 4% dos empregados estiveram recentemente de forma ativa à procura de um novo emprego.

Porquê?

A minha tese é que isto é sobretudo uma consequência de uma cultura social que resulta da muita proteção do emprego e que tende a provocar uma tendência psicológica avessa ao risco.

Eu explico melhor: de um modo geral, e exceto se as empresas ficarem insolventes ou passarem por processos de pré-insolvência, é praticamente impossível despedir um trabalhador.

Essa consciência funciona como um fator de segurança que, sobretudo para quem ganha pouco (e são cerca de 99% dos assalariados, como expliquei há semanas), é um elemento positivo de estabilidade.

O problema é que “não há bela sem senão”. Essa situação provoca uma tendência para a resignação e para o acomodamento, que é profunda na alma dos portugueses que ao longo de gerações não emigraram. Pensem nas dezenas de provérbios (como “mais vale um pássaro na mão do que dois a voar” ou “quem tudo quer tudo perde”) que bem o revelam.

Pelo contrário. o mercado de trabalho nos países mais desenvolvidos, onde há classes médias fortes, é dinâmico.

Os empregadores nesses mercados sabem que devem ter planos de carreira que motivem os seus empregados ou acabarão por perder os melhores e até os menos bons.

E os empregados estão, nesses países, tendencialmente motivados para tomar risco, investindo na sua formação e estando como regra ativamente a ver o que se passa no mercado. Com isso conseguem pelo menos melhorar o seu rendimento ou posição se optarem por ficar.

E assim também os melhores e mais preparados trabalhadores apanham o “elevador social” e vão reforçando as classes médias.

A resignação dos trabalhadores é copiada ou aproveitada pelos maus ou resignados empregadores, que aproveitam essa cultura para não fazerem tudo o que podiam e deviam para motivar os seus empregados. Por isso é devido um elogio ao Presidente da Câmara de Comércio, Bruno Bobone, que defendeu o aumento dos salários como politica ativa do empresariado.

Com esta resignação todos perdem, é verdade. Porquê então? Porque no fundo são todos “farinha do mesmo saco”, imersos que estão na cultura social dominante.

Ainda hoje é socialmente mal visto “ir buscar” alguém aos concorrentes. E empregado que muda sem carta de recomendação, ou que não possa apresentar uma razão objetiva para mudar, é mal visto pelos outros empregadores.

Infelizmente, não estou a ver um português médio (cuja modéstia é a irmã gémea da resignação) a bater à porta para um novo emprego e dizer “saí dali porque valho mais do que me pagavam e porque tenho forte ambição de viver melhor”.

A grande revolução cultural a fazer (e felizmente começa a estar em curso nas gerações mais novas e nos sectores tecnológicos de ponta) é esta. Só ela pode mudar o destino da proletarização com salário médio cada vez mais próximo do salário mínimo, o qual está, e muito bem, a crescer.

Por isso gostei de ver os resultados do estudo que confirmam a minha intuição.

Agora é preciso que as conclusões do estudo se estendam aos que ganham mais ou menos 10 000 euros por ano. Para isso o Poder Politico devia ajudar, com mudanças de paradigma legal e regulamentar que diminuíssem a dualidade dos empregos (uns garantidos para a vida e resignados; os outros com medo de o perder e que mal alcançam entrar no grupo dos protegidos deixam de lutar). Infelizmente não acredito que os políticos façam seja o que for…

E gostaria de ver as entidades da concertação social a lutar por isto… mas como quem manda nelas são os mais resignados, de lado a lado, também não acredito…

A Cultura do improviso, da confusão, da falta de liderança democrática

Infelizmente há mais em Portugal no plano da cultura dominante que era melhor que não existisse.

Estou a falar da tendência para o improviso, para navegar à bolina e junto à costa, para a falta de estratégia. E para a visão da liderança de uma forma pré-moderna e autoritária que causa a confusão, os pequenos golpes que fazem sangrar e o desrespeito da autoridade.

O PSD é um excelente exemplo disso, como se viu em duas ações: o grupo parlamentar a votar ao lado do CDS uma decisão que pode obrigar a acabar com o adicional do imposto sobre os combustíveis (contra a vontade do líder) e as declarações de Silva Peneda sobre o apoio ao orçamento do PS se a gerigonça votar contra ele (contra o interesse do líder).

A confusão já era grande, mas as respostas tudo pioraram. Rio mandou uma alegada “fonte” anónima da Direção do Partido atacar com violência o grupo parlamentar, este reagiu com mais brutalidade do que se fosse Rui Rio a falar, e depois o líder parlamentar veio dizer que votaram com o CDS mas no debate na especialidade vão diluir a decisão para que se torne numa mera recomendação ao Governo.

E quanto a Peneda, o Presidente do PSD viu-se obrigado a mandar dizer que o PSD vai votar contra, antes do tempo certo, pois obviamente ainda não conhece o orçamento…

Não vale a pena gastar muito tempo a explicar por que razão aqui há um chorrilho de disparates cacofónicos.

Mas em duas palavras, isto revela o caos que é o PSD e de que os eleitores se apercebem. E, mais, esse caos é complicado pela tentativa do PSD fazer a espargata, como as grandes bailarinas, para ficar com um pé numa cadeira de onde atacar o governo e outro na cadeira onde já começa a apoiá-lo. O que só pode antecipar o aumento do caos.

Mas, pior do que o caos da confusão estratégica, é o que resulta do improviso, da falta de colegialidade e da falta de compreensão do que é liderar por consensos.

Rui Rio sabe que o Grupo Parlamentar não gosta dele. Essa falta de amor é retribuída. Não se espere que seja viável um casamento de paixão ou sequer que se passeiem de mão dada pelos Passos Perdidos da Assembleia da República.

Mas exigir-se-ia um casamento de conveniência, que se for entre pessoas inteligentes e com um grau de sensatez, por vezes resulta melhor do que os casamentos mais intensos e emocionais. Claro que dá mais trabalho, obriga a compromissos, a muito diálogo e diplomacia.

Nada disto vai acontecer. Tanto melhor para o CDS e para o PS, como é evidente…

E a Europa, Senhor, porque lhe dais tanta dor?

Lembrei-me do esquecido poeta da “Balada da Neve”, Augusto Gil, a propósito do caos, cacofonia e tensão que a crise dos migrantes está a despoletar na União Europeia. Estamos a entrar nuns dias terrivelmente perigosos. Disso falarei para a semana.

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