Servidão tecnológica ou emancipação económica? A escolha da Geração Z
Guerra Junqueiro lembrava-nos que a liberdade não se recebe de presente; conquista-se e isso exige que a revolução digital se transforme em emancipação económica e não em servidão tecnológica.
- “Que nasçam vozes livres, que não consintam em variáveis cativeiros, que rompam as correntes que as mãos corruptas pretendem encerrá-las, que não cobicem o comodismo, nem se acoitem sob o véu da servidão …” (Guerra Junqueiro, Finis Patriae)
Estas palavras de Guerra Junqueiro, escritas no final do século XIX, ecoam hoje, e infelizmente, com uma atualidade perturbadora. A liberdade e a autonomia da juventude (que o poeta erigia como condição de dignidade) estão novamente no centro do debate global. Se no Portugal dos finais do século XIX, o seu grito confundia-se com o fim da monarquia decadente, no Nepal do primeiro quarto do século XXI a sua força manifesta-se na chamada “revolução da geração Z”, um movimento inesperado que levou milhares de jovens a protestar contra a corrupção, a ineficiência das elites políticas e a estagnação económica.
A juventude nepalesa, conectada pelas redes sociais, recusou o “comodismo” e o “véu da servidão” que Junqueiro denunciava. O desemprego estrutural, a fuga maciça de cérebros para o estrangeiro e a incapacidade do Estado em oferecer perspetivas de futuro foram catalisadores de um movimento político que rapidamente ganhou projeção global. O que se joga aqui não é apenas a insatisfação com um governo comunista, corrupto, com fortes laivos de nepotismo e que queria implementar a censura (através do bloqueio das redes sociais) para não permitir a denuncia das suas políticas falhadas; é a afirmação de uma geração que exige autonomia para construir o seu próprio destino económico e social.
Este fenómeno deve ser lido como um sinal para todas as sociedades, incluindo a europeia e, em particular, a portuguesa. A globalização digital cria um espaço de comunicação que torna comparáveis as experiências da juventude de Katmandu, Lisboa ou Paris. As frustrações são incrivelmente semelhantes: precariedade laboral, salários baixos, habitação inacessível e sistemas políticos capturados por interesses de curto prazo e sistemas de capitalismo de compadrio e oligárquico. A diferença é que, no Nepal, a geração Z ousou romper o círculo vicioso, enquanto no Ocidente a contestação mantém-se difusa e fragmentada.
Mas há um elemento novo, que Guerra Junqueiro não poderia prever e que dá a esta equação uma complexidade acrescida: A Inteligência Artificial (IA). Ao contrário das revoluções políticas do passado, a revolução tecnológica atual ameaça atingir diretamente o emprego jovem, sobretudo em setores onde a entrada no mercado de trabalho é feita por tarefas repetitivas ou de baixa qualificação. Chatbots substituem funções administrativas, algoritmos otimizam processos logísticos, softwares de criação artificial competem com os primeiros passos de designers ou jornalistas.
A promessa de ganhos de produtividade e inovação é real, mas o risco é que esses ganhos se façam à custa de uma geração que já enfrenta barreiras estruturais à sua emancipação económica. Se os empregos de entrada desaparecerem ou se tornarem residuais, onde encontrarão os jovens o primeiro degrau para ascender na escada social? A precariedade pode converter-se em exclusão estrutural, e a exclusão estrutural pode degenerar em instabilidade política.
A promessa de ganhos de produtividade e inovação é real, mas o risco é que esses ganhos se façam à custa de uma geração que já enfrenta barreiras estruturais à sua emancipação económica. Se os empregos de entrada desaparecerem ou se tornarem residuais, onde encontrarão os jovens o primeiro degrau para ascender na escada social? A precariedade pode converter-se em exclusão estrutural, e a exclusão estrutural pode degenerar em instabilidade política.
O Relatório Draghi sobre a competitividade europeia oferece bases institucionais e estratégicas que reforçam a urgência de corresponder às exigências da geração Z, não apenas como atores passivos, mas agentes de liberdade económica. No seu diagnóstico, Draghi identifica um conjunto de entraves estruturais: excesso de burocracia, défice de competências digitais, fraca coordenação entre os estados-membros, e um investimento insuficiente (tanto público como privado) em inovação, digitalização e tecnologias emergentes (como a IA). Para os jovens, isto traduz-se num duplo choque: por um lado, dificuldade acrescida em aceder aos empregos que a economia do futuro exige; por outro, risco de que a automação e a IA substituam ou marginalizem as primeiras etapas de carreira, onde tradicionalmente se aprende, se treina, se constrói capital humano. O Relatório propõe, assim, políticas que podem ser vistas como alicerces práticos daquilo que Junqueiro apelaria como romper correntes: requalificação constante, incentivos à criação de empresas jovens e financeiras, redução dos obstáculos regulatórios, e uma estratégia industrial e educativa europeia que faça da juventude protagonista, não vítima, da transição tecnológica. Mas fica a pergunta: o que a Europa fez com o relatório Draghi? Fez delete?
Neste contexto, as palavras de Junqueiro soam como advertência e programa: “romper correntes” significa hoje exigir políticas públicas capazes de regular a transição tecnológica de forma justa. Implica repensar a fiscalidade sobre o capital tecnológico, investir em requalificação permanente e criar sistemas de apoio ao empreendedorismo jovem. Implica, sobretudo, reconhecer que o desenvolvimento da IA não pode ser deixado apenas nas mãos das grandes plataformas globais, sob pena de aprofundar desigualdades geracionais e geográficas.
Portugal, inserido na União Europeia, enfrenta aqui uma oportunidade. A história recente mostra como a dependência excessiva de fundos comunitários e o peso reduzido do investimento público produtivo no PIB criaram uma economia pouco resiliente. Se nada for feito, a transição digital apenas reforçará esse padrão de vulnerabilidade. Pelo contrário, um investimento estratégico em competências digitais, em ecossistemas de startups ligadas à IA e em políticas de habitação e emprego que fixem talento jovem pode transformar o risco em oportunidade.
Tal como no Nepal, a juventude portuguesa e europeia não aceitará indefinidamente a estagnação. O risco de contestação aberta cresce sempre que os horizontes de futuro se tornam demasiado estreitos. A revolução da geração Z nepalesa, longe de ser visto como um fenómeno distante, deve ser antes lida como um prenúncio de tensões sociais que a IA poderá amplificar.
Guerra Junqueiro lembrava-nos que a liberdade não se recebe de presente; conquista-se. Hoje, essa conquista exige que a revolução digital se transforme em emancipação económica e não em servidão tecnológica. A juventude, seja em Portugal, em França ou em qualquer canto do mundo, não procura privilégios: procura apenas o direito elementar de construir o seu futuro com dignidade. A história prova que, quando esse direito é negado, nenhuma sociedade permanece estável por muito tempo. Mais do que isso, falo como pai que deseja ver os seus filhos crescer num país e numa Europa capazes de oferecer horizontes de oportunidade e esperança, e não muros de frustração e resignação. Essa é, afinal, a responsabilidade maior da nossa geração: garantir que o progresso não rouba a esperança, mas antes a amplifica.
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