Tudo diferente. Tudo igual

  • João Pedro Tavares
  • 5 Janeiro 2021

Ética, organizações e pós Covid-19.

E, de repente, o mundo travou em conjunto. Sem saber como, sem estarmos preparados, um novo vírus, desconhecido — inicialmente inesperado, distante — rapidamente se aproximou. Um vírus que se tornou no maior sinal da globalização, pois cruzou o planeta em tempo recorde, provocando reações díspares, mas convergentes.

Este será — é já — um tempo de mudança. Uma visível mudança no curto prazo, mas uma percetível mudança no futuro. Na retoma da “normalidade”, voltaremos para viver realidades distintas.

Nunca a adoção digital foi tão rápida e “forçada”. Tem sido o canal que permite a ligação ao mundo e entre todos. Que permite que múltiplas empresas continuem a trabalhar. Mas o mundo do trabalho mudará significativamente. A tecnologia permite amortecer significativamente o impacto e, até, criar oportunidades. Complementá-la com cadeias físicas de prestação de serviço, de criação de valor, será a realidade dominante no futuro.

Também a muitos outros níveis se verifica uma enormíssima transformação. Desde logo, uma transformação interior nas pessoas. Ainda não visível, mas percetível e inegável. Valorizaremos o que era comum e aceite como dado adquirido – até como direito. Desde logo os gestos, as demonstrações de afeto, as relações. Mas também a forma de viver a vida.

Por tudo isto, será um mundo em que estará “tudo diferente”, mas, em simultâneo, “tudo igual”. Porque a vida continuará assente nas relações e nas estruturas existentes e outras que venham a surgir. Porque as pessoas continuarão a estar no centro de tudo. E, mais importante ainda, no final do dia, os critérios de decisão terão de continuar a ser tomados com princípios éticos, de criação de valor (mesmo que com novas variáveis na equação) e de justa distribuição. Mais ainda no futuro, a dignidade das pessoas terá de ser reforçada num mundo que sairá globalmente mais pobre. A simetria do vírus – que pode atacar qualquer um, rico ou pobre – trará efeitos assimétricos, expondo mais os desprotegidos, os pobres, os excluídos. Cabe ao Homem corrigir estas distorções.

Existe no mundo toda a capacidade necessária para superar mais este momento e, inclusive, para o tornar único e transformador. Mas serão a ética e o caráter que determinarão o sucesso. Será a forma como cada um souber assumir uma responsabilidade pessoal pelo bem comum que determinará a resposta a todos os desafios que temos pela frente.

Os líderes (empresariais, políticos, institucionais, sociais) têm uma responsabilidade e oportunidade única para deixar uma marca. É a oportunidade para um legado mais justo para as futuras gerações. É também uma oportunidade de redenção, de mudança, de renovação, de surgimento de novas formas de atuar, mais definitivas e marcantes.

Precisamos de um mundo mais interdependente do que independente, mais comunitário do que individualista, mais focado no propósito do que nos resultados financeiros, mais rico em solidariedade do que em resultados monetários. Mas, será mais rico ainda, mais pleno, se englobar todos estes aspetos em simultâneo.

Estes mesmos princípios não são novos; deveriam ter norteado a nossa vida no passado e, nesse contexto, não mudam, mas reforçam-se mais ainda em importância e em alcance. Deixaram de ser apenas importantes para serem urgentes.

Se assim for, valeu a pena o sacrifício e a dor. De outra forma, terá sido em vão. Que o façamos não só pelos que nos seguem, mas também pelos que nos precederam.

*João Pedro Tavares é presidente do Conselho Estratégico do IES — Social Business School.

**Este texto faz parte de uma parceria entre o ECO e o IES que integra artigos de opinião que ajudem dar visibilidade ao empreendedorismo social através de diversos empreendedores sociais, geridos pelo IES, dado o seu trabalho e experiência nesta área.

  • João Pedro Tavares

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