Um debate, dois vencedores (e um perdedor)
No único debate desta segunda volta para as presidenciais, António José Seguro e André Ventura cumpriram o guião e saíram com resultados que servem aos dois. Já Montenegro perdeu mais um bocadinho.
O debate, é preciso dizê-lo, não foi um grande debate, para não dizer outra coisa. Foi o debate possível entre os candidatos possíveis, para um momento que precisava de outros debates… e especialmente de outros candidatos. Tendo em conta o ponto de partida, neste debate único ganharam os dois, António José Seguro e André Ventura (e Luís Montenegro perdeu mais um bocadinho).
António José Seguro e André Ventura entraram neste debate com pontos de partida diferentes e, sobretudo, com objetivos diferentes. A tracking poll do dia de apontava para uma intenção de voto de 60% para Seguro e 26% para Ventura, em cima de uma espécie de procissão de uma suposta elite de centro e direita – a maior parte dela irrelevante para o processo de decisão dos portugueses — a explicar-nos que votaria contra Ventura, e a favor de quem fosse o seu adversário.
Seguro, o institucional, contra Ventura, o iliberal. Ou Seguro, o evasivo, contra Ventura, o demagógico. Não é difícil fazer uma escolha nestas circunstâncias, mas foi por aí que o líder do Chega começou. E começou bem: Seguro vai ser Presidente… apesar de si próprio. E é verdade. É decente, é honesto, é educado. São três dos adjetivos mais usados, quando deveriam ser condições base indiscutíveis, o que também diz muito da política e dos políticos que temos hoje. Foi o que disse Cavaco no anunciado apoio, omitindo tudo o que também tinha escrito sobre Seguro (e não era bonito de se ler). Mudou de opinião, respondeu Seguro.
Num debate em que não se falou de Defesa e Segurança nem de política externa – estranhas opções no roteiro desta entrevista/debate conjunto da RTP/TVI/SIC, sobram sobretudo os erros, os maus momentos de cada um deles: Ventura foi um desastre na Justiça, Seguro não foi melhor na Imigração. E ambos foram enunciando ao longo daqueles 75 minutos o que fariam… se estivessem a candidatar-se à liderança do Governo. E apesar do perfil de cada um dos candidatos, o momento mais populista do debate não foi de André Ventura. Seguro disse isto: O senhor, no Parlamento, é pago para falar, isto é, não faz nada de produtivo, já eu [o virtuoso] trabalho a sério. É isto que o próximo presidente pensa dos deputados que temos… e seria agora interessante saber o que pensam mesmo os deputados do presidente que vamos ter.
Ventura começou bem e também acabou bem: A verdade é que o país foi tomado por uma elite que durante anos se serviu de rendas e de um oligopólio de interesses que impediu o país de crescer, Não é preciso ser de iliberal, nem populista, para chegar a esta conclusão desconfortável (que não significa que consideremos a agenda de Ventura a adequada para pôr fim a isto). Seguro revelou uma combatividade, em alguns momentos, que não são propriamente uma característica óbvia, foi capaz de interrogar Ventura e, tendo homens da saúde no seu inner circle, mostrou um detalhe naquela área social que vai além do anunciado pacto.
Tudo somado, Seguro segurou-se, Ventura conteve-se, ambos conseguiram os objetivos que tinham, um a pensar no voto dos portugueses no dia 8 de fevereiro, outro a pensar no que vai fazer com os votos que vier a ter logo a partir do dia seguinte, no Parlamento.
É aqui que se chega,,, a Luís Montenegro. Depois da humilhação política da primeira volta, decidiu fazer-se de morto político, retirou o PSD da participação num momento crítico da vida política portuguesa, mas está com isso a cavar a sua própria relevância, e a dar espaço crescente a que o Chega venha a substituir o papel dos social-democratas no sistema político nacional.
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