Violência e populismo no futebol? Que choque. Ninguém diria

Qual é o espanto? Que sintomas é que não percebemos? E o que é que foi feito, de facto, para atalhar caminho e começar a recuperar o esgoto a céu aberto em que se transformou o futebol?

Acordámos sobressaltados num final de tarde e descobrimos que uma tragédia aconteceu no futebol.

Acordámos, sim. Porque só andando a dormir ou demasiado distraídos é que não percebemos, nos últimos longos anos, que a tragédia já estava bem instalada e ia acontecendo em doses suaves.

Manifestou-se agora de novo, de forma inédita, quando um grupo de criminosos assaltou um balneário e agrediu jogadores e técnicos, no meio de uma crise de um clube que é dirigido por alguém que parece um louco e age como um louco.

Mas qual é, verdadeiramente, o espanto? Que sintomas é que não percebemos de todos os que se manifestaram nos últimos anos e décadas? E o que é que foi feito, de facto, para atalhar caminho e começar a recuperar o esgoto a céu aberto em que se transformou o futebol, onde reina a mais completa impunidade, onde falta regulação, onde não entra a mais básica ordem de um Estado de Direito?

Um dia destes também vamos espantar-nos se nos disserem que há sexo num bordel?

Já houve suspeitas para todos os gostos, investigações, Apito Dourado, “fruta para dormir”, um presidente de clube que só foi detido e condenado depois de deixar de o ser, polícias e meios judiciais aparentemente capturados pelo maior clube da cidade, claques que são há muito gangues de criminosos assumidos e identificados pelas polícias, interesses cruzados com seguranças privadas, negócios obscuros com transferências de jogadores, clubes que vão à falência mas que deixam prósperos os que o geriram.

Tudo na mais completa impunidade, num mundo onde a lei não entra e a Justiça não tem chegado.

Assistimos, semanalmente, à destruição de estações de serviço nas estradas por onde passam claques e ao espectáculo degradante destas terem que ser assumidamente tratadas como sendo compostas por animais nas entradas e saídas dos estádios. Isto é transmitido em directo pelas televisões e a única coisa que o Estado tem feito é colocar a polícia a fechar avenidas inteiras para que possam passar sem transtorno e sem causar tumultos pelo caminho. Achamos isto normal? Se aquela gente não pode andar na rua sem ser fortemente escoltada devia estar presa ou, no mínimo, impedida de entrar num estádio de futebol.

A isto tudo assistimos com a maior naturalidade. Como assistimos às mortes que vão ocorrendo, a espaços. Encolhemos os ombros e achamos que “é mesmo assim o mundo do futebol”.

Querem rir-se?

Em Portugal há 21 adeptos impedidos de entrar em estádios pela polícia. Sim, 21. Vinte-e-um.

E, também segundo dados da PSP, entre 2010 e 2018 essa proibição abrangeu 198 adeptos.

Não é por falta de problemas e de candidatos a tal distinção, como se vê todas as semanas.

É por flagrante demissão do Estado, dos poderes públicos e das suas mais básicas obrigações.

O pior que pode acontecer neste momento é pensar que a questão se resume ao Sporting, a Bruno de Carvalho e aos que praticaram as patifarias. E que, varrido o louco do clube e feita justiça aos actos criminosos, a questão está resolvida, podendo nós regressar à nossa doce normalidade.

Porque isso significa que nada de fundo foi resolvido e que os Brunos de Carvalho, os Pintos da Costa ou os Filipes Vieiras – só para citar os que estão agora de turno nos três “grandes” – vão continuar com as suas tropas de elite, a gozar de toda a impunidade, alimentando e sendo alimentados pelo “sistema”.

O sobressalto que agora se está a viver no futebol não é diferente de outros que ocorrem regularmente no país e que têm origem no nosso peculiar caldo de cultura.

Os ingredientes de que este é feito são nossos velhos conhecidos.

Lá estão o desleixo e a incapacidade de tomar decisões que previnam a tragédia mesmo quando ela tem enorme probabilidade de acontecer. Lá aparece também o populismo, paralisante de acções que possam incomodar este ou aquele sector ou grupo de interesse e por em causa a popularidade de governos ou partidos.

E, claro, tudo tem como pano de fundo a cumplicidade entre poderes públicos e agentes privados, que muitas vezes leva à captura do Estado por interesses parcelares.

Foi assim com os incêndios florestais, por exemplo, depois de décadas de “deixa andar”, de medidas e leis que nunca saíram do papel e da captura do Estado pelos interesses de corporações de bombeiros ou de negócios de meios de combate.

O colapso das contas do Estado e a crise de financiamento da economia também se desenvolveram no mesmo ecossistema, com o interesse público capturado por algumas corporações e grupos empresariais e financeiros privados, tudo associado a políticas facilitistas porque o horror a medidas duras, embora necessárias, é muito grande.

Num como noutro caso, os alertas, os avisos e os diagnósticos dos problemas foram olimpicamente ignorados. Até que aconteceu e aí já era demasiado tarde.

Estamos a viver o mesmo, à escala respectiva, com o mundo do futebol. Só não via quem não queria. A promiscuidade ente a política e a bola é a que se sabe. A “porta giratória” entre estas não é diferente da que existe nos outros negócios.

Os políticos adoram frequentar os camarotes dos estádios e tomar emprestada a popularidade de dirigentes. Os negócios imobiliários entre clubes e municípios são frequentes e raramente transparentes. Muitos confundem-se no seu duplo papel de comentadores políticos e futebolísticos E o Parlamento é palco frequente da institucionalização dos senhores da bola, para sessões formais ou jantares informais promovidos pelos deputados do clube.

Tudo isto poderia até ser isento de qualquer problema se as práticas do sector não tresandassem à distância e se o país e a sociedade tivessem uma relação normal com o futebol. Mas não têm, como sabemos. Para o confirmar basta ligar as nossas televisões.

E se assim é, não se pode tratar com normalidade aquilo que é anormal.

A impunidade é reinante e isso, mais tarde ou mais cedo, paga-se. É o que agora começa a acontecer, sem que deva merecer qualquer espanto.

E Bruno de Carvalho? Mas então não foi eleito e confirmado há pouco tempo com votações albanesas em assembleias gerais do clube? Os sportinguistas escolheram-no? Agora aturem-no. Não ponham é os contribuintes a pagar estas facturas. Sejam um bocadinho mais racionais e não se deixem levar pelo populismo.

O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.

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