Voar sobre o ninho de cucos
Portugal parece uma história que acontece no intervalo de um cenário. Portugal é um país confuso, um mistério como as vozes ao longe na noite escura.
Existem “campos de refugiados” nos jardins públicos de Lisboa. Vivem entre os pombos e são apoiados por um exército de voluntários. O número de pombos baixou na cidade em virtude de uma campanha de “contracepção compulsiva” entre a espécie por iniciativa da Câmara de Lisboa. Voam as aves entre os refugiados económicos, climáticos, políticos, a mesma população errante que aterra nas grandes cidades europeias rodeadas pelo passado histórico e pelo futuro universal. Nas ruas de Lisboa as bicicletas e veículos eléctricos desfilam silenciosos por entre o trânsito caótico, mal ordenado, disfuncional. Os automóveis são o símbolo da era do carbono que todos querem eliminar em prol de uma utopia climática sem tensões, perigos, conflitos.
Os refugiados são o resultado de sociedades falhadas, de países soberanos em colapso político, de economias eternamente em vias de desenvolvimento. Alguns refugiados atravessam o grande lago do Mediterrâneo, outros refugiados tentam o Canal da Mancha, mas os refugiados em Portugal vêm por terra, vêm do centro da Europa, porque a alternativa é viajarem de avião. Os aviões que escrevem no céu da cidade em refluxos carbónicos o mapa do velho aeroporto. O ruido chama a atenção dos habitantes da cidade das tendas e os turistas em pleno voo observam do ar os pequenos colonatos que okupam a cidade dos sonhos. Bem-vindos ao país dos grandes contrastes e das enormes contradições.
Subitamente, Portugal tem um novo aeroporto, uma linha de TGV, uma nova ponte entre as margens de um rio que é do tamanho de um mar. O país recupera a confiança num “projecto de desenvolvimento” baseado numa campanha de grandes obras públicas certamente para celebrar a modernidade de uma sociedade moderna. Anuncia-se num dia uma decisão para a vida do país de norte a sul, para glória da democracia e desprezo pelas consequências que rodeiam o milagre do desenvolvimento.
Depois do aeroporto, do TGV, da ponte, haverá um novo Portugal edificado sobre o velho Portugal. Não é progresso porque é sobreposição em camadas. Pode o país ter portugueses pobres e sem qualificações, pode o país pagar dos mais baixos salários da Europa, o mesmo país que assiste os portugueses com pensões humilhantes, mas o orgulho nacional tem de exibir ao Mundo um aeroporto ostensivo e hipersónico perfeitamente assistido pela mais avançada Inteligência Artificial? Com o TGV pode-se viajar por um corredor ínfimo ligado à Europa sem observar as “realizações futuristas”, sem passar pelas “cidades imundas”, sem ficar chocado com o “urbanismo caótico”, nem ser incomodado pelas longas filas de portugueses alinhados em vidradas paragens de autocarro que não cumprem qualquer horário. Com a ponte oceânica a atravessar o rio é o espectáculo da “cidade branca” desfigurada por uma obra de arte da engenharia, a ilusão de atravessar as margens entre o céu e a terra como na viagem de um livro em que se desloca o conforto de um destino associado ao “consumidor instantâneo”. A ponte é sempre uma miragem para a outra margem.
Esta campanha de desenvolvimento vai transformar o país e não apenas Lisboa. Lisboa com uma nova faixa desocupada a norte. Lisboa com uma nova cidade na margem sul. O sul que se aproxima da capital em termos económicos. O centro e o interior que ficam num limbo entre o Grande Porto e a Grande Lisboa. Leio algures uma reflexão sobre o desequilíbrio no desenvolvimento das sociedades que não deixa de impressionar – “Os conflitos entre o velho e o novo, o avançado e o atrasado, o rico e o pobre, o indivíduo e o grupo, o inteligente e o incapaz, o enérgico e o mortiço, o campo e a cidade, o litoral e o interior, a ciência e o artesanato, o erudito e o popular, o dinheiro e a cultura, são inerentes ao desenvolvimento”. Os processos de desenvolvimento geram todas estas contradições e perplexidades. Para além da euforia de uma decisão política adiada por meio século, haverá a mínima consciência, não apenas dos custos económicos para uma ou duas gerações, mas dos custos sociais, políticos e humanos desta decisão na coesão territorial e na identidade nacional?
Portugal sempre foi governado entre a inércia e a exaltação. A inércia pode demorar um século. A exaltação deixa vestígios para um século. E de século em século o país vai desenvolvendo uma consciência do atraso que o separa da Europa. A política portuguesa não consegue a disciplina e a persistência de uma acção consistente e permanente. A política portuguesa sofre da síndroma do “grande salto em frente” e pratica uma espécie de “metafísica do desenvolvimento”. Em zona de ingovernabilidade, o país aposta tudo na mitologia das obras públicas para ultrapassar a grande desunião nacional. Para além da fatalidade dos estudos técnicos e dos modelos matemáticos falta sempre a inteligência de um factor humano.
Portugal parece uma história que acontece no intervalo de um cenário. Portugal é um país confuso, um mistério como as vozes ao longe na noite escura.
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