Casas inteligentes? “Só agora começam a ser uma realidade”

Os nossos telemóveis já são inteligentes. Os nossos carros também. E as nossas casas, como são? Tirámos uma radiografia ao setor da domótica, uma realidade que "só agora" começa a florescer no país.

Hoje, tudo se quer inteligente: os telemóveis, os carros, as televisões, as casas. A evolução da tecnologia tem sido constante, embora o conceito de domótica não seja novo — resulta da junção dos termos domus (casa) e robótica, ou seja, algo como “automatização da casa”. Tendo em conta que existem cada vez mais soluções a preços cada vez mais acessíveis, tirámos uma radiografia ao setor: quem oferece estes serviços? Quem os procura? E o que esperar daqui para a frente?

Luís Pinto fundou a Mordomus, uma empresa que presta serviços de domótica “desde 1998”. Em 2005, passou a comercializar um produto homónimo. Trata-se de um sistema modular capaz de centralizar a casa toda… e mais qualquer coisa: a funcionar em pleno, liga-se não só à habitação como “ao carro, à mota, ao telemóvel, ao tablet”, explica o engenheiro informático em conversa com o ECO. Ao longo destes quase vinte anos de atividade (ou pouco mais de dez, se contarmos só com a comercialização do Mordomus, agora o core business da companhia), a empresa já se internacionalizou para países como Brasil, Colômbia, México, Espanha, Angola, Cabo Verde e Marrocos.

Apesar de todos estes anos de experiência, as casas inteligentes nem sempre foram vistas com bons olhos. “Só agora começam a ser uma realidade. Depende da vontade dos clientes”, confessa Luís Pinto. O problema nem sequer está nos “donos das casas”, mas sim em quem as constrói: “O construtor não quer complicar, não quer encarecer, não está preocupado com a qualidade. Só quer saber da margem de lucro. Depois, recai tudo sobre a dureza dos betões, a dureza das madeiras, e não se pensa naquilo que toda a gente pensa hoje que é a tecnologia”, denuncia.

Uma casa que não seja de todo inteligente, parte-se do princípio que é ligeiramente estúpida.

Luís Pinto

Fundador da Mordomus

Há ainda “outro problema”, que é “as pessoas comprarem uma domótica pós casa, em vez de a comprarem incluída na casa”, conta o engenheiro. Adquirem-se produtos de pouca qualidade, sob a forma de “coisinhas que tiram fotografias ou que se encaixam por cima da lâmpada ou da tomada” e que, para o especialista, não são a verdadeira domótica: “Isso vai provocar uma casa com domótica, mas que não é propriamente fiável nem bem gerida.” No fundo, “não funciona bem”, garante Luís Pinto. Mais à frente na conversa, reforçou esta ideia: “Uma casa com domótica não a pode ter só no hall de entrada e na sala principal, para que o vizinho veja. Porque uma casa que não seja de todo inteligente, parte-se do princípio que é ligeiramente estúpida. E viver na parte estúpida da casa é uma coisa que não me agrada.”

“Uma guerra” quase ganha

Também há notícias boas. Desde que o Mordomus começou a ser vendido, o crescimento tem sido “muito grande”, aponta Luís Pinto. “Obviamente que sofreu uma queda notória nos finais do ano de 2010/2011, dada a dificuldade em obter crédito por parte dos construtores. Se se venderem menos casas, vai-se vender menos domótica”, desenvolve. Mas, em suma, o setor cresceu até finais de 2012, “altura em que as coisas ficaram mais estáveis. Depois, começou a cair até aos finais de 2015”, refere. E agora? “Começa a retomar novamente”, diz. À Mordomus, valeu-lhes a internacionalização: “Fomos abrindo dependências noutros países”, conta o especialista.

São batalhas já travadas. Agora, a “guerra” é outra: “oferecer a mesma quantidade de tecnologia, a mesma capacidade de controlo, por cerca de ¼ do preço”, avança Luís Pinto ao ECO. Falemos de números: “O Mordomus custa cerca de 3% do preço da casa. E nós queremos passar para abaixo de 1%”, revela, acrescentado que esta é “uma guerra” que a empresa está “quase a ganhar”. Qual o motivo para uma redução tão grande no preço? “Fizemos o mesmo módulo e começámos a pôr nele duas vezes mais tecnologia. Por exemplo, antes, um módulo controlava as luzes, as tomadas e mais qualquer coisa, mas agora vão passar a ter duas a três vezes mais funções. Estamos ainda a transitar para uma filosofia de cloud: passamos a não entregar coisas aos nossos clientes e a deixá-las lá em cima, na nuvem”, explica Luís Pinto, prevendo que, graças a esta novidade, passará a ser possível automatizar uma moradia inteira por cerca de 2.000 euros.

Além disso, Luís Pinto tem uma ideia muito definida sobre o que é — ou deveria ser — uma boa domótica. Ou um bom sistema Mordomus, se se preferir. “Tem que ser uma coisa absolutamente com sentido. Não pode ser uma coisa que [só] nos vá dizer que falta leite ou manteiga no frigorífico. Isso são futurismos. Também não pode ser o reflexo de alguns filmes em que se bate as palmas para acender as luzes”, alerta.

Acima de tudo, “tem de ser algo bastante funcional, bastante real e que se adapte às necessidades [dos utilizadores], seguindo a filosofia que seguiu a Apple, o Android [da Google] e a Microsoft”, defende. Resumindo, “tem de se adaptar às necessidades do cliente”, explica. Tudo para permitir que qualquer pessoa altere as configurações do sistema sem precisar de ajuda. No fundo, uma casa verdadeiramente inteligente “pode ser programada por uma criança de 12 anos”, assume Luís Pinto.

Tudo isto parece teoria. E na prática, como funciona? Com todos os elementos já habituais — leia-se estores automáticos, controlo de luzes, gestão da energia ou manutenção da segurança — e mais alguns. “Se amanhã eu comprasse um carro verde, [o meu Mordomus] conheceria o meu carro verde e abrir-me-ia a porta ou ligaria a máquina do café porque, dessa vez, eu teria um carro verde. E se eu estivesse doente e com dificuldades em atravessar o corredor, enquanto que antes a luz acendia durante dez segundos (porque era o tempo normal de eu atravessar o corredor), agora acenderia, por exemplo, durante um minuto. O meu Mordomus adapta-se. É exatamente essa a nossa filosofia”, conclui.

Domótica, ou como valorizar um imóvel

Os construtores estão, então, entre os principais clientes — mas não são os únicos. Filipe Marques é formado em Informática e proprietário da Smotics, uma empresa algarvia que se dedica à instalação de equipamentos de automação em habitações. Ao ECO, conta como a domótica é a menina de ouro do setor imobiliário: “Normalmente, [os nossos clientes] são particulares que desejam valorizar as casas para as venderem. Investem um pouco mais nesses sistemas mas, depois, isso facilita a venda.” Dá um exemplo: “[Proprietários que] querem que as suas casas tenham mais funcionalidades, porque o vizinho do lado tem uma casa igual à venda”, avança. “Temos vários pedidos de orçamento nesse sentido”, diz.

Julgo que o mercado [da domótica] vai crescer. Acaba por ser uma mais-valia em termos de valorização económica.

Filipe Marques

Proprietário da Smotics

Filipe Marques tem 33 anos e um “fascínio por eletrónica e informática” que o acompanhou “desde sempre”. A domótica acabou por conjugar ambos os elementos. Há sete anos que trabalha com ela, tempo suficiente para traçar um cenário muito semelhante ao traçado por Luís Pinto: “[O setor] tem-se mantido mais ou menos estável, [ainda que] com a paragem da construção ao longo destes anos.” Ainda assim, está otimista: “Julgo que o mercado [da domótica] vai crescer. Acaba por ser uma mais-valia em termos de valorização económica. E nisto do setor imobiliário, todas as mais-valias contam”, garante. Além disso, os jovens “permanentemente ligados” vão agora “comprar casa pela primeira vez”, antevê. As casas inteligentes tornam-se, por isso, “muito atraentes” para eles, ao saberem que as podem controlar com o telemóvel.

Segmento de luxo? Nem por isso

É fácil imaginar uma casa inteligente e futurista. Mais fácil ainda é (tentar) adivinhar-lhe o preço. Mas desengane-se quem pensa que isto da domótica é só para quem tem muito, muito dinheiro. Filipe Marques desmistifica: “Há uns anos só se penava em domótica para casas de luxo, porque um sistema nunca ficaria abaixo dos 30, 40, 50 mil euros. Agora, praticamente qualquer pessoa que tenha um apartamento (um T3, ou algo do género), já consegue automatizar a casa toda com cerca de 5.000 euros, o que já faz uma diferença substancial.” O resto da história já se sabe. “Os preços [dos equipamentos] baixaram e a tendência é continuarem a reduzir. Daí eu achar que o mercado vai crescer, porque há mais acesso da parte da classe média a todas estas soluções que, antes, eram uma coisa que só mesmo a classe alta é que colocava em casa”, indica.

Depois, há novos sistemas “fáceis de implementar”, mesmo em casas já construídas. Não os de baixa qualidade, mas sistemas que Filipe Marques já recomenda: “Funcionam muito bem por wireless. Por norma, seria necessário fazer toda a instalação elétrica da casa e, agora, já não é preciso passar cablagem”, conta. “Ou seja, numa casa já feita, conseguimos facilmente colocar a casa toda inteligente só substituindo os interruptores. E isso permite-nos ter também uma maior eficiência em termos de controlo de custos da casa, para além de todo o conforto associado”, acrescenta.

Um investimento que se paga a si mesmo

A Lock é outra empresa portuguesa de fornecimento de serviços de domótica, gerida por Sílvio Santos, formado em Engenharia Eletrotécnica e Robótica. Ao ECO, o proprietário confessa, por e-mail, que “não há ainda muita procura” destas soluções em Portugal, tendo-se verificado apenas “um crescimento muito ligeiro”. Lá fora, noutros países europeus e nos Estados Unidos, Austrália, Canadá, Emirados Árabes Unidos, China e Japão, a procura “é, sem dúvida alguma, superior”, garante. Arrisca uma justificação: a “pouca informação disponível”, nomeadamente nos meios de comunicação social. “Outro motivo é que as pessoas, de forma geral, têm a ideia de que um sistema completo de domótica é muito, muito caro, o que não é verdade. É um investimento que, ao fim de alguns meses, fica pago pelo que se poupa em eletricidade, por exemplo”, garante.

No que toca à procura, Sílvio Santos fala ainda de outro fenómeno: o das lavandarias self service. “São empresas que têm muita necessidade na utilização destes equipamentos [automáticos]. Assim, os proprietários escusam de se preocupar em se deslocar ao local para abrir ou fechar as portas ou grades de segurança, ligar as máquinas”, e por aí em diante, conta.

As pessoas têm a ideia de que um sistema completo de domótica é muito, muito caro, o que não é verdade.

Sílvio Santos

Proprietário da Lock

Termina, convidando-nos a explorar outra ideia. “Existe um conceito universal implementado e pensado por muitos: ‘se automatizarmos tudo, as pessoas ficam cada vez mais preguiçosas’. Considero uma ideia errada, já que a domótica reserva mais tempo livre para dedicar à família e, ao sobrar mais tempo, pode-se ainda dedicar esse tempo a fazer ginástica, passear, desfrutar do meio ambiente”, refere. É tudo uma questão de “qualidade de vida”, defende Sílvio Santos.

Imobiliárias: “É mais um processo de oferta”

E as agências, como olham para o setor? Por e-mail, Isidro Fernandes dá-nos umas ideias. É o atual administrador e fundador do “Casa Pro ERA”, um projeto da ERA Imobiliária “resultante de uma parceria com a Portugal Telecom”, conta. Vai direto ao assunto: “A procura pela domótica em específico, pelo lado do comprador, é muito reduzida. Neste momento, é mais um processo de oferta, em que disponibilzamos aos nossos clientes um produto acessível, inovador e com enormes vantagens”.

Em termos de adesão, “estará nos 30% dos contratos fechados”, avança o responsável. “Temos casos de clientes de um segmento mais idoso que não valorizam o produto (o que se percebe). [Também] temos casos de clientes que simplesmente não valorizam, e casos em que os clientes não abdicam [da domótica], valorizando imenso o [nosso] produto”, descreve. Ainda assim, para Isidro Fernandes, este é “claramente” um setor “em crescimento e em evolução”.

Em relação à valorização dos imóveis por parte destas tecnologias, Isidro Fernades não tem dúvidas de que isso acontece, embora “essa valorização não [seja] quantificável”. Há outras variáves à mistura: depende também da perceção e do valor “que cada cliente dá ao serviço”. “Para uns, é indispensável e não abdicam, mesmo que o valor seja muito mais elevado. Para alguns, é acessório. Para outros, não tem significado”, diz. Contudo, é ponto assente que os clientes dão valor à comodidade, segurança e eficiência energética das moradias. E nisso, o “Casa Pro ERA” foi desenhado para “cumprir com três premissas: conforto, eficiência energética e segurança”, remata.

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