• Reportagem por:
  • Tiago Varzim

Dar música às exportações: Portugal está no mapa

A música portuguesa já está no mapa, mas custou. Após anos a passar despercebida -- com as devidas exceções --, a indústria musical em Portugal mostra sinais de internacionalização.

A música portuguesa já está no mapa, mas custou. Após anos a passar despercebida — com as devidas exceções –, a indústria musical em Portugal mostra sinais de internacionalização. Os casos de fadistas, Moonspell ou Buraka Som Sistema, para nomear os mais conhecidos, são a evidência disso mesmo. Mas há mais a mexer para além dos artistas.

Em 2017, a “ocidental praia Lusitana” vai ser o país de destaque Eurosonic, um festival de Groningen (Holanda), onde se juntam os profissionais de música europeus. Mas este não foi um evento único e isolado. É produto de uma evolução recente da indústria portuguesa, explica ao ECO Nuno Saraiva, atual diretor da Why Portugal, plataforma de internalização da música: “Vou ao Eurosonic desde 2003. Todos os anos era dado o holofote a um certo país. Deve ter sido por volta de 2011 que lhes perguntei quando seria a vez de Portugal. ‘Porquê Portugal’?”, perguntaram eles.

“O que faltava realmente — para além dos artistas — eram os profissionais porque Portugal na altura não estava minimamente organizado em termos das associações profissionais sub-setoriais do cluster da música. Não havia, por exemplo, uma associação fonográfica das editoras independentes”, exemplifica Nuno Saraiva, também fundador da AMAEI. Ou seja, a Associação de Músicos Artistas e Editoras Independentes criada em 2012 para colmatar essa ausência. Foi de lá que saiu a ideia da Why Portugal, uma associação empresarial autónoma, sediada em Leiria, que agora faz parte da rede de contactos European Music Exporter Exchange (EMEE).

Contudo, a criação desta plataforma foi um dos últimos pontos que contribuiu para a ascensão de Portugal na indústria musical europeia: a integração da AMAEI na World Independent Network (com outros 35 congéneres), a criação da Aporfest em 2014, a formação de uma plataforma para managers de artistas portugueses que integra o IMMF (International Music Managers Forum) e, por fim, a criação do West Way Lab, em Guimarães, que se ligou ao ETEP (European Talent Exchange Programme).

Esta foi a última e decisiva ponte para convencer Peter Smidt, o diretor do Eurosonic. Em 2014, surge o West Way Lab que foi o primeiro evento profissional de ‘showcase festival’, em Portugal. “Todas estas feiras vivem à base destas redes. Portugal começou a aparecer no mapa”, considera Nuno Saraiva, revelando que o ETEP, que reúne apoios europeus como o Europa Criativa, serve “para incentivar a circulação dos artistas europeus no espaço europeu para combater a invasão da música americana que continua a dominar em termos estatísticos”, explica.

“Não havendo cá uma âncora para fazer a ligação internacional era difícil Portugal estar no mapa. Todos esses fatores, passados dois anos, levaram a que o Eurosonic viesse falar connosco: será que Portugal já está preparado?”, relembra Saraiva, ex-consultor de desenvolvimento internacional na Lusitanian. Estava dado o mote para uma missão empresarial em parceria com a AICEP onde não vão ser apenas os 20 artistas a destacarem-se em palco. Na comitiva vão mais de 50 players de toda a indústria: “Há uma panóplia de bens e serviços em Portugal para internacionalizar”.

“O mar sem fim é português”, já anunciava Fernando Pessoa. Lançadas as pedras, fez-se o caminho e Portugal vai chegar em 2017 ao Eurosonic com uma comitiva. No entanto, pouco se fez ou faz ou fará sem música e músicos. No (agora) mainstream enquadrámos os Buraka Som Sistema (BSS), que em 2006 quando começaram faziam parte de um estilo de música ainda por descobrir e a ser desbravado por artistas internacionais como M.I.A. e Diplo. Mas nos nichos Portugal tem mais exemplos: Amália, Ana Moura, Marisa no fado, Moonspell no metal e até Carlos do Carmo na música do mundo, com a vitória nos Grammy’s.

Mais recentemente, editoras como a Enchufada — com Branko e BSS — e a Discotexas — com Moullinex, Xinobi e Throes + The Shine — são exemplos de referência de internacionalização. Mas há exemplos antigos menos conhecidos: é o caso da WDB Management, agência sediada na Suíça que trabalha com artistas portugueses como o DJ Kura, um dos mais internacionais atualmente em Portugal. Estes nomes referidos, e não só, podem ser corroborados pelos números que, mensalmente, o Spotify, uma plataforma de streaming de música internacional, recolhe sobre a localização dos ouvintes de um determinado artista.

Número de ouvintes mensais a nível mundial no Spotify

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Dados relativos ao mês de novembro divulgados pelo Spotify nas páginas dos artistas.

 

O Jorge Mendes da indústria musical

A história do líder da agência WDB Management começou há mais de vinte anos. José Manso, português que foi para a Suíça, começou a trabalhar na indústria musical por ser gerente de uma discoteca nos anos 80. Agora tem no seu portefólio o DJ português mais internacional dos últimos anos, principalmente no mercado asiático. “O Kura realmente foi o artista que até agora, e eu diria mesmo em termos nacionais, conseguiu atingir esse patamar [de internacionalização]”, afirma ao ECO.

Tudo começou por necessidade. “Comecei a contratar artistas de música eletrónica no final dos anos 80, início dos anos 90. E os meus colegas de outros clubes da Suíça viam que eu trazia artistas”, conta José Manso ao ECO. Foi assim que começaram a pedir-lhe para fazer booking, numa altura em que a internet era uma miragem.

Procurava nos contactos das editoras, ia às conferências que juntavam os agentes e assim começou a entrar. Através do “bom trabalho” que desenvolveu foi ganhando contactos. “Eu trabalhava como freelancer. Era tudo ‘José Manso’. Tanto que hoje em dia conhecem mais o nome José Manso do que a WDB”, confessa ao ECO.

“Comecei a ser uma referência na Suíça. Começaram-me a passar alguns contactos de agentes, promotores, donos de casas, e daí nasceu tudo. Ainda hoje esses contactos de 95, quando eu comecei a trabalhar também em Portugal, ligam-me”, explica ao ECO. Era o “Jorge Mendes” da indústria musical, compara o próprio entre risos.

Atualmente os cachets, tal como aconteceu no passado, podem mudar muito depressa. José Manso dá o exemplo de Erick Morillo, artista com quem trabalhou, que passou de cachets de 1.500 dólares para os 100 mil dólares, muito graças à ascensão da música eletrónica ao mainstream. O mesmo aconteceu com David Guetta, em 2004, quando José Manso levou o artista francês à Suíça e, depois, por pedido do próprio, a Portugal pelo “público muito bom”. “Hoje em dia é um artista que pede entre 250 a 400 mil euros”, refere.

Em Portugal há um problema: falta dimensão de mercado. Os artistas portugueses com quem José Manso trabalha passaram de cachets de 500 euros para quatro mil euros, mas dar um passo maior do que esse é difícil sem a internacionalização. Essa evolução seria completamente diferente noutro mercado, como o dos EUA, onde a “bola de neve seria muito maior por que a quantidade de neve é gigante”, metaforiza.

Ou seja, o potencial de crescimento é baixo, principalmente porque não conseguimos exportar para os PALOP, que tem países com um mercado enorme como o Brasil. “A mais-valia de um artista português é ter a capacidade de se internacionalizar” e isso começa por produzir música, o que é “importantíssimo”, classifica. É essa a missão da WDB Management que há 10 anos que faz management: já lhe passou pelas mãos a gestão da carreira de artistas como Pete Tha Zouk, Pedro Casanova, Djeff Afrozila, Massivedrum e, claro, Kura.

O trabalho da WDB Management divide-se entre Portugal, Suíça e Brasil. Belo Horizonte é a casa do escritório no Brasil há oito anos. No passado, a empresa foi responsável por gerir espetáculos do trio Swedish House Mafia, Erick Morillo e Martin Solveig. Para casos excecionais ainda continuam a fazer booking para estes artistas, mas a gestão da carreira artística é o foco.

E esse foco traduz-se na internacionalização dos artistas portugueses. “O potencial económico de uma carreira a nível nacional pode oscilar de 500 euros por espetáculo para 5 ou 10 mil euros, e o número de ouvintes mensais no Spotify próximo dos 500 mil já é considerado de sucesso”, explica ao ECO. “Na perspetiva internacional os valores podem multiplicar por centenas de milhares de euros por show e milhões ou biliões de ouvintes no Spotify ou Youtube”, projeta José Manso. “É um desafio gigante, ambicioso, que pode trazer muita desilusão também, mas será sempre à medida da ambição de cada um”, remata.

Editado por Pedro Sousa Carvalho

  • Tiago Varzim

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