Painéis solares nos Alpes e rodeados de neve? Sim, e produzem tanto como no Alentejopremium

São quase 5.000 painéis solares, na parede de uma barragem, a 2500 metros de altitude, que vão produzir energia a partir do sol alpino. O ECO/Capital Verde foi à Suíça conhecer o projeto Alpin Solar.

O que tem em comum um pequeno planalto no topo dos Alpes suíços, a 2500 metros de altitude, onde por esta altura já começa a cair a primeira neve, com as grandes planícies do Alentejo e do sul de Espanha? Nada, ou quase nada, à exceção da exposição solar em grande quantidade e qualidade, ideal para instalar painéis fotovoltaicos e gerar energia elétrica a partir do sol.

Foi precisamente essa a razão que levou a empresa estatal suíça Axpo a gastar quase oito milhões de euros para instalar o seu mais recente projeto-piloto de produção de energia renovável num local tão pouco óbvio e de tão difícil acesso. Para ali chegar só há três formas possíveis: a pé, durante várias horas, subindo pelos trilhos dos montanhistas; num minúsculo teleférico (impróprio para quem tem vertigens ou medo das alturas); ou de helicóptero (uma experiência também radical).

À nova “joia da coroa” da empresa -- símbolo da transição energética no país e motivo máximo de orgulho para todos que dela falam -- chamaram Alpin Solar. E para aproveitar em pleno a força do sol alpino, que brilha com igual intensidade ao do sul da Península Ibérica, a empresa decidiu construir uma central solar, no mínimo, única, a grande altitude.

No total, são 4872 painéis solares bifaciais (10 mil metros quadrados de superfície ou 1,5 campos de futebol) instalados não no chão da montanha, mas na parede da barragem do lago Muttsee, assentes numa intrincada rede de metal, construída de propósito para permitir uma distância de metro e meio entre as duas estruturas, assim exigem as regras do país.

Christoph Sutter, Head of Renewables da Axpo e guia de montanha nesta visita à central solar mais alta da Europa, sublinha as dificuldades logísticas e os desafios de construir o que quer que seja num local tão inóspito.

Para ali chegar não há estradas nem camiões para transportar todo o material necessário (aço, alumínio, mais de 100 km de cabo elétrico), que ainda hoje continua a ter de chegar de helicópetro, várias vezes ao dia. Três minutos para baixo, três minutos para cima, são centenas de viagens, testemunhadas na primeira pessoa pelos jornalistas, durante a visita à central solar.

Quanto ao diesel usados nestas deslocações, Sutter garante que ao fim de três meses de funcionamento da central solar as emissões poluentes e o gasto de energia vão estar compensados pela produção de energia renovável. Já o total da construção da central, ficará compensado ao fim de três anos.

Sobre à possibilidade de ali instalar solar flutuante, como já está a ser feito em Portugal, no Alqueva, Sutter diz que não é impossível -- e a Axpo está já estudar a hipóteses com empresas parceiras -- mas ao mesmo tempo lembra os três a quatros metros de gelo que no inverno cobrem a superfície do lago Muttsee e que podem ser um entrave a esta tecnologia.

Por estes dias, ainda de bom tempo, os trabalhos de construção estão a acelerar a grande velocidade a 2500 metros de altitude para garantir que nada falha na ligação da central à rede elétrica suíça marcada para o próximo dia 8 de outubro. Os painéis ainda não estão todos montados, ao longo dos cerca de 1.000 metros da parede da barragem, mas em breve a eletricidade produzida a partir do sol alpino estará já a chegar às casas dos cidadãos suíços, cá em baixo.

Toda a energia que ali se produzir está abrangida por um contrato de compra (PPA, sem tarifas garantidas) a 20 anos com a cadeia de supermercados Denner.

A Axpo estima que o projeto Alpin Solar, com 2,2 MW de capacidade instalada, produzirá 3,3 GWh de eletricidade por ano a partir do outono de 2021, metade dela no inverno. O suficiente para abastecer o consumo de 740 famílias de quatro pessoas.

"É assim que utilizamos a energia solar em qualquer época do ano e apesar do mar de neblina", explica a empresa, justificando a quase inexistência de centrais solares no país.

"O Alpin Solar é um projeto grande na Suíça, mas pequeno na Europa", reconhece Sutter, garantindo que qualquer painel solar instalado no sopé da montanha produziria metade do que lá em cima. A grandes altitudes as vantagens para a produção de energia solar são várias: para começar não há nevoeiro e há neve, que reflete a luz do sol e a potencia, além de que "as células solares são mais eficientes se estiverem frias", diz Sutter. Mais: a barragem do lago Muttsee está virada a sul e nunca está à sombra.

Já antes, nos escritórios da Axpo, em Baden, o CEO da empresa, Christoph Brand, tinha explicado quão diferente é o mix energético na Suíça, comparando com Portugal: "A produção de eletricidade a partir do sol e do vento no país é quase irrelevante na Suíça. E isso é um problema, porque as centrais nucleares que ainda existem vão fechar e depois ficamos sem alternativas”. Ali reina a água e a energia hidroelétrica.; a Axpo tem 4,4 GW de produção renovável na Suíça e opera mais de 100 centrais, sobretudo hidroelétricas.

Sem grande margem para aumentar a capacidade de gerar energia limpa na Suíça, a empresa quer crescer fora de portas, sobretudo no eólico e solar. A Axpo reconhece a falta de ambição da empresa para as renováveis no próprio território. “E porquê? Para já porque não conseguimos desenvolver uma central solar de 50 hectares no país, devido à disponibilidade limitada de terrenos disponíveis e aos elevados preços de instalação”, esclarece o CEO. Além disso, diz, o país está “muito atrasado no que diz respeito às renováveis [eólica e solar]”, à exceção da hidroelétrica, sobretudo devido à falta de incentivos financeiros e tarifas garantidas.

Em conversa com os jornalistas que vieram de Portugal, Espanha e Itália para ver uma central solar a 2500 metros de altitude, Christoph Brand confessa que o Alpin Solar não é um projeto para dar dinheiro. Então porque o fazem? Apesar de ser uma gota no oceano da capacidade renovável necessária para a neutralidade carbónica do país, na prática trata-se de uma mensagem para os governantes, de que é necessário avançar na transição energética na Suíça, responde o CEO.

CEO do Grupo Axpo, Christoph Brand,

"A Suíça não tem uma grande performance em termos de energia solar, mas como aqui estamos tão alto, conseguimos garantir muita produção tanto no verão como no inverno", explica Sutter já no alto da montanha, sublinhando: "Estamos na década do solar fotovoltaico. Até 2030 vai passar a ser a principal fonte renovável. É a Agência Internacional de Energia que o diz, é uma tendência global".

A Axpo já está a fazer a sua parte: as metas da empresa até 2030 passam pela construção de 10 GW de capacidade solar a nível internacional, chegar aos 200 MW de solar fotovoltaico na Suíça (sobretudo paíneis solares em telhados e pouco mais), ter um adicional de energia eólica onshore de 3 GW e multiplicar por quatro o volume dos PPA negociados.

"Depois de termos desenvolvido cerca de 300 MW de energia solar em França, estamos agora a olhar para Espanha e Itália, para desenvolver o nosso portfólio solar”, disse Christoph Sutter.

Portugal também está na mira reforça o CEO Christoph Brand: Se houver boas oportunidades para investir em centrais solares fotovoltaicas em Portugal, claro que estaremos lá. Estamos certamente a tentar construir um pipeline de projetos no país. Porque não investir lá? Por alguma razão temos a Axpo Ibéria”.

A empresa suíça está presente em Portugal desde 2009 e é dona da comercializadora Goldenergy (desde 2018), operando também na venda de eletricidade a empresas (das PME à indústria) e no mercado de contratos de longo prazo de compra e venda de energia (PPA).

(A jornalista viajou para a suíça a convite do Grupo Axpo)

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