A Airbus Atlantic Portugal produz, a partir de Santo Tirso, painéis para os aviões da família A320 e A350. Com 300 trabalhadores, tem aumentado a produção e já está a expandir a área de fabrico.
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“Estão a construir aviões. Quando entra num avião, talvez uma parte tenha sido construída aqui.” Eric Belloc, diretor-geral da Airbus Atlantic Portugal, não poderia resumir de melhor forma aquilo que acontece na fábrica da multinacional francesa em Santo Tirso. A funcionar desde maio de 2021, a unidade na zona industrial da Ermida produz peças para as famílias de aviões A320 e A350 sendo considerada estratégica para o grupo. Ainda este ano vai crescer para o espaço até aqui ocupado pelo armazém, adicionando mais de 700 metros quadrados à sua área de produção, para acomodar a chegada de novas máquinas. Hoje são cerca de 300 trabalhadores e no final do ano serão mais 50. O objetivo é que este número continue a aumentar nos próximos anos para ajudar a subsidiária da Airbus em Portugal a contribuir cada vez mais para a produção global do grupo de aeronáutica.

Antes de entrar na fábrica há que seguir todas as regras de segurança: colocar calçado adequado, protetores de ouvidos e capacete. Munidos de todo o equipamento estamos prontos para iniciar a visita à fábrica que a gigante Airbus construiu de raiz em Portugal, um espaço com cerca de 20 mil metros quadrados e que representou um investimento à volta de 40 milhões de euros, para alicerçar uma importante parte da sua produção. Assim que se entra na fábrica, o som das máquinas mostra todo o seu vigor, um ruído quebrado apenas por um corte de energia. E não é o primeiro. “Às vezes acontece, mas não muitas vezes. Queixamo-nos à EDP porque é a qualidade do nosso trabalho, queremos produzir e temos que ter a capacidade para
produzir”. Além disso, um corte de luz pode causar prejuízos, “pode ter impacto nas máquinas”. Para ajudar e minimizar os custos da energia, a multinacional tem painéis solares no telhado, “que contribuem para 25% do nosso consumo”.
Com a energia de volta — o corte durou poucos minutos — há que regressar ao trabalho. A unidade de produção da subsidiária do grupo francês do setor aeronáutico, fabricante de aeroestruturas e assentos para pilotos e passageiros, continua a trabalhar em novas peças para enviar para França, onde depois são montadas. Ao longo do espaço podem ver-se os operadores, com os seus coletes azuis, a trabalhar na montagem de peças que qualquer pessoa reconhece facilmente, e que incluem a parte frontal do avião com os locais para as janelas ou da porta de embarque — a janela e a porta em si não são montadas aqui.
Em Santo Tirso são produzidos 17 diferentes painéis para os aviões da Airbus — 16 para a família A320 e um para o A350, as chamadas “bochechas” do avião. No final de cada semana, as peças produzidas — 40 a 50 painéis — são enviadas para França, em barcos próprios da multinacional francesa, através do porto de Viana do Castelo — o de Leixões ainda foi analisado, mas tinha maiores constrangimentos, o que levou a empresa a optar pelo do Alto Minho. As peças mais pequenas seguem para a fábrica de Méaulte. Para Rochefort são enviados os grandes painéis, e Montoir-de-Bretagne é o destino da barca (parte inferior da carga do avião) agora produzida em Santo Tirso.

“A Airbus está a produzir produtos de fuselagem para a família A320 e A350. Esta fábrica está a contribuir com painéis e a barca do avião”, refere Eric Belloc. Mas já estão “a receber novas partes dos aviões”, adianta. Exemplo disso é a barca que agora sai da unidade localizada em Portugal. “Esta barca tem maior complexidade do que apenas os painéis. É um novo passo”, diz orgulhoso. “Começamos este projeto no ano passado e a particularidade é que todos os painéis são montados aqui. Usamos os painéis que produzimos para produzir esta barca.”
De momento, a produção deste conjunto está limitada a um por mês, mas em breve vai duplicar para dois envios e “no final do ano vai ser uma barca a cada semana”. “Um crescimento de um para quatro este ano”, remata, destacando que se trata de um conjunto “100% português”. Esta aposta é o reflexo da relevância estratégica de Portugal no grupo.
“Começamos há três anos. Do ponto de vista industrial não havia nada. É um sucesso”, aponta o diretor-geral da fábrica da Airbus Atlantic em Portugal. “Temos desafios diários, mas [o resultado] é satisfatório”, acrescenta. “Temos que aumentar a nossa produção. Entregar qualidade e contribuir ano após ano para o aumento da produção da Airbus”, reforça. “Portugal foi identificado como um país estratégico para a Airbus Atlantic. Continuamos a crescer e a contratar pessoas. Confiamos nas capacidades de Portugal para crescer e ajudar a Airbus a atingir as suas taxas de produção”, sintetiza. É preciso “contratar, treinar pessoas e sermos organizados para o fazer”.
Portugal foi identificado como um país estratégico para a Airbus Atlantic. Continuamos a crescer e a contratar pessoas. Confiamos nas capacidades de Portugal para crescer e ajudar a Airbus a atingir as suas taxas de produção.
Das peças produzidas na fábrica de Santo Tirso, 95% dizem respeito a painéis e estruturas metálicas para os aviões da família A320, detalha Eric Belloc. Os restantes 5% da produção feita em Portugal são destinados ao A350, para o qual a Airbus Atlantic Portugal hoje em dia apenas contribui com um subconjunto. Para continuar a contribuir para o aumento da produção do grupo — cujas encomendas estão em máximos —, a fábrica continua a investir em novas máquinas e em pessoas.

“A Airbus Atlantic tem sempre investido neste projeto, inclusive no período da pandemia”, refere o responsável pela fábrica. “Começamos maio de 2021 e continuamos a investir em máquinas”, continua, detalhando que há “uma máquina, a ser montada, comprada este ano”. Outra chegará em junho. Ao todo, a fábrica de Santo Tirso conta com 10 máquinas, cinco semiautomáticas.
Com novas máquinas a chegar, o espaço da fábrica vai aumentar já em setembro. “Vamos expandir a fábrica para o armazém. Vamos mudar o armazém para um novo edifício e vamos usar essa área para novos projetos”, explica o diretor-geral da Airbus Atlantic Portugal. “Já estamos a aumentar o espaço.” Quanto à construção de um segundo edifício, opção admitida pela empresa, por agora não há nada previsto. “A principal ideia é ter este edifício cheio de produção e depois adaptamos a capacidade, ou aumentando os horários dos turnos ou adaptando a atividade. Para já, é preencher a fábrica com o espaço que temos e ainda temos espaço.”
Vamos expandir a fábrica para o armazém. Vamos mudar o armazém para um novo edifício e vamos usar essa área para novos projetos.
Atualmente, a fábrica funciona com três turnos, ajustados às necessidades de produção. Existe um turno das 8-17h, outro das 7-15h e das 15h às 23h. O turno da noite funciona das 23h às 7h. “À noite a produção é muito limitada. Só há quatro ou cinco pessoas. Não trabalhamos aos fins de semana”, explica o diretor-geral da Airbus Atlantic Portugal.
De zero a 300
Com uma equipa de cerca de 300 pessoas — 42% são mulheres — a Airbus continua a contratar. No final do ano prevê contar com 350 trabalhadores. Para atrair novas pessoas, a fábrica da Airbus recorre a vários argumentos, que vão além dos financeiros. “Temos uma proposta muito valiosa. Com um propósito muito interessante, de fazer aviões. Tentamos atrair pessoas para contribuir para este crescimento”, refere o diretor-geral.

Pedro Estrela, responsável pelos recursos humanos da Airbus Atlantic Portugal, realça que o “Norte de Portugal tem pessoas com muito talento. Pessoas com experiência na indústria, que podemos empregar”. “O desafio é treiná-las no nosso setor específico, na aeronáutica”, explica. Para driblar a ausência de formação específica, a empresa está a recorrer a uma parceria com o Centro de Formação Profissional da Indústria Metalúrgica e Metalomecânica (CENFIM), desenvolvendo cursos de formação com a duração total de quatro meses — três no centro e o último na fábrica. Pelo estágio recebem 720 euros e a garantia de emprego futuro, caso tenham nota positiva no curso. “Agora temos três grupos de treino. Estão 21 pessoas hoje”, refere Eric Belloc. “Os operadores são formados aqui. Quando começam a trabalhar têm um tutor, que verifica se o trabalho deles mantém a qualidade”. A prioridade é precisamente “entregar os painéis dentro dos parâmetros de qualidade e segurança que a Airbus exige”.
Um operador [na Airbus] tem oportunidade para crescer por muitos anos. Tem oportunidade de poder participar neste projeto, que é construir aviões em Portugal.
“Um operador [na Airbus] tem oportunidade para crescer por muitos anos. Tem oportunidade de poder participar neste projeto, que é construir aviões em Portugal”, remata Pedro Estrela. Mas nem tudo são rosas. Além da dificuldade de formação, há ainda outros constrangimentos logísticos que podem dificultar a contratação de pessoas. Faltam, por exemplo, transportes públicos para a zona industrial e há o problema da habitação. Dois temas fraturantes que podem afastar novos trabalhadores. “Temos pessoas que não vêm por causa do problema das casas. A maioria vive em Santo Tirso, Famalicão, Guimarães, alguns em Porto e à volta”, explica Eric Belloc. “O Porto são 30 quilómetros. Por isso, implementamos o autocarro para ajudar as pessoas com os custos.”

Mas nem só de aviões vive a Airbus. Determinada em manter laços estreitos com a comunidade — além de celebrar todas as datas importantes para os trabalhadores, desde o dia da Mãe, do Pai, festa de Natal e até Magusto —, a Airbus Atlantic Portugal mantém contacto com empresas e autarquias, abrindo — quando possível, “esta é uma atividade muito específica” — as portas a escolas e às famílias dos funcionários. “Abrimos a fábrica para as famílias”, refere Eric Belloc. Tal como Pedro Estrela explica: “Queremos mostrar-lhes o que estão a fazer.” E o que estão a fazer é aviões. Em Portugal.
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Produção de aviões em Portugal ganha altitude com a Airbus Atlantic
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